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O princípio de uma bela cidade

Artistas chineses e de Macau à boleia do festival “This is My City”, em Montemor-o-Novo

Carlos Picassinos

Passada a resistência inicial, o dj de Pequim acedeu. O problema era de meridiana sensibilidade embora, aos olhos de um ocidental, se tratasse simplesmente de uma bizarria exótica do artista. Actuar nas proximidades de um cemitério como o que repousa nas imediações do convento de São Francisco de Montemor-o-Novo não seria apenas uma provocação mas também um desrespeito pelos mortos da localidade. Por isso, Dead J, a horas poucas da sua actuação estava pensativo, depois renitente e a seguir decidido. Melhor não. A noite estava comprometida.

Estava? A organização rodeou o assunto de forma diplomática – “aqui os mortos também dançam” – de tal forma que o argumento convenceu a dupla chinesa a actuar até horas tardias naquela noite fria de fim de Junho. Em consequência, e assim sem esperar, uma pequena multidão de algumas dezenas de pessoas permaneceu estanque até ao nascer do dia alentejano. Eram, na maioria, locais num simulacro de grande festival multitudinário em que as tribos se organizavam segundo as cores e selecções indígenas – sandálias e sapato vela, psicadelismo étnico e colete de forcado, pólo rugby e charme negligé dos filhos de certa burguesia esclarecida.

Cidades de boa vontade

Como se chegou aqui? De uma bela amizade. Os organizadores do festival de Montemor, Cidade Preocupada, Tiago Fróis,  e Manuel Correia da Silva, do festival de Macau “This is My City”, foram colegas de faculdade. Frois esteve na RAEM, em finais do ano passado, e a ideia de uma colaboração entre estas duas iniciativas ligadas à reflexão sobre o espaço público urbano acabou por se concretizar este Verão. Uma ligação que retoma o espírito de antes da transição de Macau para a China e pretende, no universo cultural, recuperar essa relação perdida entre os dois lados do mundo. Embora sejam, na sua estrutura, festivais de natureza diferente mas, enfim, reconhece Tiago Fróis, ambas “estão sobre o mesmo tecto que é a cidade, e com algumas preocupações comuns”. A Cidade Preocupada, “mais cidade pré-ocupada do que preocupada”, persegue essa ideia de espírito crítico, de informar criticamente, de formação de públicos, de tentar criar outros padrões de qualidade de vida.

A ideia de ordenação e de qualificação está presente no programa das Oficinas do Convento, a associação que organiza o festival. “Desde há longa data que temos tido trabalhos nesse sentido relativo a arquitectura, ao planeamento urbanístico, à leitura e análise do território. Com conferências e workshops sobre arquitectura e espaço habitado e em trabalho com as escolas do concelho em que se fez formação de monitores para desenvolver esse trabalho com as crianças”, refere. “As próprias escolas adoptaram este mote para este ano. São temas anuais. Os miúdos têm uma pequena aula de introdução, conhecem casas do mundo, falam-lhes da arquitectura de terra e construção tradicional e projectam aquilo que é a sua casa, constroem maquetes em barro que serão, primeiro, cozidas, e depois caiadas, isto de maneira a valorizar os materiais tradicionais”.

Há outro eixo que Tiago Fróis valoriza na sua cidade pré-ocupada, a relação e a partilha do mesmo espaço por artistas residentes e pelas pessoas que passam pela Oficinas do Convento durante o tempo do festival. “Acho que este é um dos grandes valores do festival”, frisa o produtor. “Sempre se potenciam outros encontros, trabalhos que começam aqui, outros que se fermentam aqui através de novas ligações”. A presença, este ano, de artistas chineses funciona como ouro sobre azul neste discurso da abertura ao mundo. E a arte chinesa, e a China, pela boa imprensa que começa a ter ou pelo exotismo que projecta surge como um valor que, para uma organização de natureza local, importa estimular. “Claro que tudo depende da boa vontade da parte chinesa em dar continuidade a este projecto. Em termos de financiamento estamos mal, logisticamente temos possibilidade de acolhimento mas as escalas são diferentes”, nota Tiago. “Para nós, as viagens são sempre muito caras e é preciso haver outro tipo de empenho”.

Já Manuel Correia da Silva transpira optimismo acerca da continuidade desta ligação. A satisfação do designer de Macau com esta experiência de Montemor é notória. “Acima de tudo porque esta ligação é inesperada e tem um carácter muito pessoal e de confiança entre as duas organizações que permite que a produção se torne simples e eficaz”, observa. “É preciso sublinhar que estamos aqui enquanto China e não apenas Macau. Basta recordar a presença de Dead J e da Peng Yun que é uma pessoa de transição. Ela vive lá mas é oriunda da China”. Sem se comprometer com uma dinâmica anual, acredita que uma frequência bienal possa criar as condições para desenvolver “uma certa reflexão e apostar nalgum trabalho, que não fosse tanto cá como lá, apenas um espaço onde só se apresentam trabalhos. Deveriam ser sobretudo”, defende, “um espaço de produção em que as pessoas podiam ter oportunidade para produzir alguma coisa durante umas duas semanas. Creio que seria bom apostar por este tipo de residências”.

As virtudes da periferia

Se é evidente que Macau, como Montemor-o-Novo, são cidades substancialmente distintas, existe um campo de actuação que pode identificar um ponto de partida comum. “Macau tem um contexto muito urbano e Montemor é uma cidade muito rural. Nós trabalhamos numa periferia do que é o urbano, Macau numa ideia de periferia da China é também um fenómeno à parte”, descreve Tiago Fróis. Periferia insinua-se como esse conceito guarda-chuva capaz de abrigar ambas as comunidades das lógicas dominantes do espaço urbano. A esta luz, não será excessivo entender como a performance de Peng Yun, em Montemor, se tenha constituído num dos momento mais explícitos de resistência a essa urbanidade compressora das singularidades locais. A performance “Brick by Brick”, e depois o vídeo projectado num dos espaços das Oficinas do Convento, em que através da construção de um muro de tijolos, eles próprios trabalhados de forma artesanal, estabelece um exame crítico aos valores do hiper-individualismo e à repetição própria da rotina urbana ensaiando, ao mesmo tempo, um apelo transversal a uma ideia de propriedade, no sentido de um próprio, de uma autonomia individual e criativa. O pormenor dos tijolos utilizados, em Montemor, serem produzidos segundo técnicas da região subscreve essa reivindicação dos particularismos locais de dois espaços urbanos que, apesar de tão distintos, partilharem semelhantes processos de erosão. É nesta linha que se inscreve também a participação do atelier Lines_Lab, de Clara Brito e Manuel Correia da Silva, que no espaço artesanal do Telheiro, junto ao rio Almansor, apresentam dois protótipos construídos com tecnologia local de Montemor: um do candeeiro M.I.R, o outro dos bancos públicos da praça do Tap Seac, de Macau. Tiago Froes aproveita o pormenor do tijolo para ilustrar a metáfora da ponte que os dois festivais pretendem construir entre Portugal e a China. Uma história de duas cidades em construção ou o princípio de uma bela amizade.

 

Um chinês entre a cal e a canícula

O acaso, as virtudes da deambulação e da deriva orientam o trabalho do realizador da associação CUT que integrou a delegação de Macau. É nos pormenores que se esconde o olhar de Ka Keong Chan e é através da captura destes instantes que vai construindo um trabalho artesanal sobre o espaço das cidades, as paisagens sonoras, dos cheiros. “Por exemplo, o cheiro da naftalina nas ruas de Macau significa sempre uma mudança, mudança de estação neste caso porque é a isso que cheira quando as pessoas tiram as roupas do armário, e esse cheiro que é um pormenor mas que se difunde pela cidade acaba por me inspirar no método do meu trabalho”, conta Ka Keong Chan. Por falar nisso, em Montemor, abate-se uma canícula extrema que nalguns momentos supera os 42 graus. Cheira a campo e a trigo e contra o calor, Ka Keong segue por ali fora como um explorador romântico perdido no século nas ruas de cal e na planície alentejana, em busca do seu doutor Livingstone. Ele e os instrumentos mais avançados que a tecnologia permite, a parafernália de lentes e computadores e equipamentos como aquela bizarria que testa a velocidade dos ventos. “Trouxe equipamento para testar a velocidade e a distância porque gosto de fazer essas leituras e captar dados objectivos das cidades e organizar uma espécie de base de dados e construir historias com isso.

“Basicamente, eu conto histórias, já fiz histórias sobre os cheiros filmando objectos, aleatoriamente, de modo que quando filmo tento sempre buscar esses pequenos extractos, esses elementos e relacioná-los depois numa narrativa maior”. Se inesperadas, e até possivelmente forçadas, as coincidências entre Macau e Montemor acabam por surgir. Inesperadas pois entre uma micro cidade na planície alentejana e o furor de uma península em explosão económica, no sul da China, descubra as diferenças.

Está pela primeira vez em Portugal e, talvez, a procura desses pontos de contacto seja justamente uma das tendência naturais para um viajante longínquo como Ka Keong Chan. “Montemor é  o primeiro lugar de Portugal que eu visito e, curiosamente, consegui encontrar alguns elementos em comum com Macau. Por causa da arquitectura, ou da calçada”, diz, e assim dito, pensando duas vezes, mais na história e menos na geografia, as coincidências entre as duas cidades tornam-se mais evidentes. Não só pelos elementos mais físicos do espaço urbano. Também pela afectividade. Se há coisa que comove o pequeno chinês é “o calor humano, uma proximidade entre as pessoas” que lhe recorda Macau de quando era pequeno. “Estou a falar dos anos oitenta em que havia esta afectividade entre as pessoas. Claro que depois Macau cresceu, desenvolveu-se muito e acabou por ficar mais desumano, as pessoas ficaram mais distantes umas das outras, houve muita gente que foi para ali para investir e ganhar dinheiro”, diagnostica e, como tal, “aqueles laços perderam-se. É qualquer coisa de nostálgico, eu sei mas é o que sinto aqui. Um sentimento que me lembra a velha Macau”.

Esta é a primeira vez que participa, tanto tempo, numa residência artística tão longa. Já tinha estado, em Nagasaqui, no Japão. “Aqui estar este período de tempo permite outra espécie de reflexão e perceber um bocadinho o que está para além da superfície. É claro que estarei sempre a olhar para uma aparência, uma superfície”, admite, “mas tentarei encontrar alguma coisa de mim próprio nesta relação que vou estabelecendo com esta cidade”. “Agora, é óbvio que serei sempre um estrangeiro”. C.P.

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