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Primeiro museu ocidental

Rogério Miguel Puga reescreve a história dos museus na China com uma nova descoberta científica. Segundo o investigador português, o primeiro núcleo museológico de matriz ocidental abriu portas em Macau, no ano de 1829, e não na cidade de Xangai, em 1868.

Pedro Galinha

O académico português Rogério Miguel Puga assina um artigo, no próximo número do Journal of the Royal Asiatic Society (publicado no Reino Unido pela Cambridge University Press), que reescreve a história dos museus na China. O estudo revela que, ao contrário do que se pensava até agora, o primeiro núcleo museológico de matriz ocidental na China abriu portas em Macau, no ano de 1829.

O espaço surge no artigo com o nome de Museu Britânico de Macau. Segundo o investigador, foi inaugurado e mantido por sobrecargas da Companhia das Índias britânica, agentes comerciais e missionários britânicos ou norte-americanos.

Rogério Puga explica que alguns destes homens eram naturalistas amadores, que também contribuíram para o avanço do estudo da História Natural no Reino Unido. Neste lado do mundo, recolhiam plantas orientais que posteriormente enviavam para a grande urbe: Londres.

Todas as conclusões de Puga são o resultado de uma pesquisa iniciada há sete anos. Tempo suficiente para cruzar diversas fontes e concluir que o Zhendan Museum, fundado no ano de 1868, em Xangai, pelo missionário francês Pierre Marie Heude (1836-1902), não foi – afinal – o primeiro museu ocidental a abrir portas na China.

– Defende que o primeiro museu ocidental na China foi construído em Macau e não em Xangai. Como concluiu este novo facto?

Rogério Miguel Puga – Cheguei a esta conclusão ao ler e cruzar fontes portuguesas, mas sobretudo inglesas e norte-americanas. A referência a um Museu Britânico de Macau, fundado em 1829, chamou a minha atenção. Investiguei em revistas, jornais, relatos de viagem e diários da época. E encontrei cada vez mais informação sobre o museu, embora as fontes não revelem nem a sua localização, nem muito sobre o seu conteúdo.

– Estamos a falar de que tipo de espaço?

R.M.P. – Penso que seriam algumas salas de uma casa de habitação arrendada, com um guarda, e onde se encontravam expostos “specimens” [espécimes] da fauna e da flora, bem como artefactos culturais – legendados. Não apenas chineses, mas de todo o mundo. Não seria um museu ainda muito elaborado.

– Tinha um espólio grande? Era “alimentado” por quem?

R.M.P. – Tinha um espólio razoável: animais embalsamados, obras de arte, esqueletos, flora local, pedras, instrumentos musicais, maquinarias,  têxteis e outros artefactos culturais assim “objectificados”. Quer os missionários, quer os mercadores anglófonos, quer ainda os parceiros comerciais chineses e outros viajantes enriqueciam gradualmente a colecção do museu através de doações.
– No século XIX, Macau concentrava muitas gentes da Grã-Bretanha?

R.M.P. – Os britânicos e os norte-americanos só podiam permanecer no complexo das feitorias de Cantão durante seis meses (época comercial). Os outros seis meses eram passados em Macau, onde também estavam as mulheres e filhos, entre outros familiares desses comerciantes. Macau ganhava uma nova vida com a chegada dos sobrecargas e mercadores. Peças de teatro e espectáculos de ópera eram organizados, bem como regatas, passeios, festas, bailes, viagens de barco, entre outros passatempos. A vida cultural da Macau do século XIX beneficiou largamente dessa presença que nesse século foi não só económica, mas também cultural. A comunidade anglófona era a segunda maior comunidade ocidental a seguir aos portugueses e tinha um enorme poder financeiro.

– Era uma comunidade bem integrada na relação com chineses e portugueses?

R.M.P. – Não interagia muito com essas comunidades por razões linguísticas, culturais e religiosas. No século XIX, passou também a ser uma comunidade feminina. Mas não nos podemos esquecer que foi sempre uma comunidade protestante numa cidade sino-portuguesa, que encontrava dois “outros”: o chinês e o português católico, que era forçada a descodificar. Os residentes protestantes estranhavam, por exemplo, o repicar incessante dos sinos das igrejas católicas. Os comerciantes anglófonos passavam alguns anos a acumular fortuna, alguns traziam as famílias, outros acabavam por falecer a tentar enriquecer e outros regressavam para casa mais cedo que o esperado. Eram residentes temporários, ao contrário dos portugueses.

– Em território chinês, administrado por Portugal, surge um Museu Britânico. À primeira vista, pode ser uma concepção estranha?

R.M.P. – Não, se levarmos em conta que Macau foi a porta de entrada para a China não apenas para os portugueses (1557), mas também para os ingleses (1700) e para os americanos (1784). Macau foi um prelúdio para Hong Kong, como afirma Austin Coates [escritor e viajante inglês que dedicou parte da sua obra à região Ásia-Pacífico], e foi o único lar da comunidade estrangeira na China até à fundação de Hong Kong. O poder comercial da comunidade anglófona era superior ao dos portugueses e muitos dos sobrecargas da Companhia das Índias eram naturalistas amadores.

– Quando se dá o encerramento do museu?

R.M.P. – Em 1834.

– Porquê?

R.M.P. – O encerramento deveu-se ao final do monopólio comercial da Companhia das Índias britânica na China. Algumas peças foram enviadas para o Museu de Calcutá, mas a maioria, penso, dispersou-se.

– A tese que apresenta contraria os chamados Estudo sobre Museus. Já obteve algum feedback de outros investigadores?

R.M.P. – Ainda não, o artigo ainda não foi publicado.

– Com estas conclusões, cai por terra a fama de Pierre Marie Heude?

R.M.P. – Não cai. O missionário francês é pioneiro em Xangai, apesar de não o ser na China em geral. A ciência vive destas descobertas e há que reescrever a narrativa histórica com base nas novas descobertas que se vão fazendo.

– Quanto tempo durou a sua investigação?

R.M.P. – Iniciei uma pesquisa sobre a presença anglófona em Macau em 2005, que ainda não está terminada. Este foi apenas um dos resultados dessa pesquisa.

– Já tem outros

– Cruzou fontes de diversas origens. Foi fácil aceder a toda a informação?

R.M.P. – Tive de viajar na costa leste dos Estados Unidos e no Reino Unido, ler manuscritos, voltar a arquivos onde já tinha estado após novas descobertas, juntar a informação e chegar a uma conclusão. O normal num processo de investigação.

– Gostaria de investigar mais ou lançar um projecto somente direccionado para esta questão em Macau?

R.M.P. – Com certeza que sim. Os “Estudos sobre Museu” ou “Arte e Macau” têm ainda muito por investigar.

 

O “histórico” Museu Marítimo

Dos espaços museológicos abertos ao público, o Museu Marítimo arrebata o título de mais antigo. No entanto, conta “apenas” com 25 anos de história.

A ideia de criar o museu surgiu em 1986, por iniciativa do Comandante António Martins Soares, então capitão dos portos de Macau. Na altura, uma antiga moradia do Largo do Pagode da Barra foi adaptada para receber o espólio reunido.

Inaugurado um ano depois, em 1987, o Museu Marítimo foi crescendo fruto de diversas doações. A estas juntaram-se ainda aquisições de novas peças, que levaram à necessidade de criar novas e amplas instalações. Resultado? A 24 de Junho de 1990 inaugurava-se um edifício construído de raiz para albergar o Museu Marítimo. Agora, com mais áreas temáticas.

A fachada arquitectónica do novo espaço foi concebida para sugerir uma embarcação estilizada. Localizado bem próximo do rio, no mesmo Largo do antigo edifício – onde passaram a funcionar os escritórios do museu –, o edifício completa uma paisagem onde impera o Templo de Á-Mà, local de culto da deusa protectora dos pescadores.

 

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