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“Ele viveu a vida intensamente, fez tudo”

Miguel Senna Fernandes recorda o pai dois anos depois da sua morte. Fala do novo livro incompleto de Henrique de Senna Fernandes e dos outros que estão por publicar. Fala da doença e do sofrimento, mas principalmente da boa relação com o pai, das últimas conversas, das gargalhadas e de como eram compinchas que partilhavam livros, uísques e outros prazeres. Em entrevista, revela ainda que para o ano espera editar um primeiro livro de contos.

Hélder Beja

À porta do escritório, num dos andares de um prédio da Avenida da Praia Grande, ainda se lê o nome de Henrique de Senna Fernandes junto ao do filho Miguel. Ambos advogados, ambos apaixonados pelas letras. Lá dentro, Miguel Senna Fernandes está em mais um dia ocupado, com telefonemas, papelada para assinar, reuniões. Recebe-nos no escritório e é um homem de bem com a vida, pacificado com o desaparecimento do pai e amigo, há dois anos. Quer muito ajudar a revelar o que ainda há nos manuscritos de Henrique de Senna Fernandes, mas confessa a falta de tempo com tem de lidar. Miguel Senna Fernandes é um filho que olha para o pai e vê uma existência plena, mesmo apesar dos últimos anos. A morte é uma inevitabilidade.

– O que é que mudou nestes dois anos sem o seu pai?

Miguel Senna Fernandes – Para mim a vida mantém-se na mesma. Claro que hoje em dia, pelos meus afazeres, há mais responsabilidades. A minha vida profissional está cada vez mais cheia de coisas. É um sufoco, mas está bem, não há problema, estou habituado.

– Sente a falta do seu pai aqui, no escritório?

M.S.F. – O meu pai, desde meados de 2008, começou a adoecer. Ele praticamente não advogava mas gostava de vir para o escritório, ver como é que as coisas estavam, mesmo que não tratasse de nada. O facto de haver a presença dele tornava as coisas diferentes. A partir de 2008 passei a não contar muito com ele. Claro que mesmo antes desta data já se estava a fazer sentir o mal de que sofria, já não tinha nada a ver com aquilo que era antes. Antes ele costumava vir ao meu gabinete e durante muito tempo, quase todos os dias, eu ia ao gabinete dele às seis e levava uma garrafa de uísque (risos). Ele dizia ‘isto é a bebida antes do jantar, o ‘happy hour’’. Ele gostava dessas pequenas coisas. ‘Agora só falta aquele pôr-do-sol, mas está tudo bem…’ O gajo era porreiro, mas depois começou a faltar. Com o tempo tudo isto foi morrendo. Naturalmente que ele não quis, ele foi sempre muito afável, mas podia imaginar-se a grande frustração em que ele vivia. A grande infelicidade dele era precisamente não poder falar. Ele dizia assim: ‘O homem, para viver, precisa de cinco coisas. Tem de comer, tem de beber, tem de fumar, tem de ‘dar’ (risos) e tem de falar’. Para ele era preciso falar para expandir a sua personalidade. Ele perdeu tudo isto. O último reduto daquele homem era a fala e ele perdeu-a também, quando contraiu um tumor.

– Mas continuou a lutar.

M.S.F. – Ele tinha uma força muito grande de viver. Ele sofria, sofria muito. Uma vez disse-lhe uma coisa e depois cheguei a ter um certo arrependimento de ter dito, porque soava a filho sacana, mas estava nas minhas melhores intenções. Disse-lhe ‘sabes pai, tu sofres porque tu queres viver’. Depois arrependi-me. Mas anos volvidos percebi que tinha razão. Nós nunca sofremos a morte quando nos deixamos levar. Quando a gente resiste é quando a gente sofre mais. Ele sofria e eu sofria, mas ele mantinha sempre aquele sorriso de galã. Ainda me recordo da última vez que ele, antes das operações, foi a minha casa comer. Nessa altura ele ainda não sabia o que tinha. Estava sempre sonolento e não percebia o que era. Mais tarde veio a saber-se que houve uma atrofia na garganta, que estava a bloquear o oxigénio. Ele tinha alucinações, quase não falava, comia qualquer coisa e vomitava logo… Lembro-me que nos pusemos a ouvir música clássica, um compositor russo de que ele gostava muito, o [Alexander] Borodin, e ele disse ‘Ah, isto é Rússia… grande Rússia… as estepes da Rússia. Mas isto é tão triste, é tão triste…’. Foram as últimas palavras dele para mim antes de fazer a operação. Depois da operação ele estava mudado. Achava que estava pronto para outra. Claro que as coisas não são tão simples. Aquilo foi-se acumulando e isso acaba com qualquer gajo. Mas pronto, acho que ele viveu aquilo que tinha de viver. Ele viveu a vida intensamente, fez tudo. Eu dizia ao meu pai ‘tu és um malandro!’ e ele ria-se desbragadamente e dizia-me ‘é pá, eu sou um gajo porreiro, não sou?’. Ele usava esta linguagem, tinha muita familiaridade. Éramos bastante bons compinchas…

– Além do romance “Os Dores”, que será editado em breve, o que é que está para publicar que ele tenha deixado?

M.S.F. – Ele deixou muita coisa, uma quantidade volumosa. Há muito manuscrito por aí que vou ter de seleccionar, parar tudo o que faço – o que vai ser um bocado complicado – e ver com olhos de ver. Acho que descobri um manuscrito que é um livro, não sei se está completo mas tem uma data que é 1958. Há uns anos ele dizia que tinha perdido um livro. Será este? Ainda não faço a mínima ideia. Estive a folhear um pouco e parecem-me coisas novas, novas personagens e tudo mais. Se isto se confirmar, temos mais um livro, o que é uma coisa boa.

– Quando o seu pai morreu, falou-se de outras obras por publicar, como “O Pai das Orquídeas”. Como está isso?

M.S.F. – Esse é o eterno (risos). “O Pai das Orquídeas” são vários, porque ele deixou várias versões. Agora, como é que a gente vai fazer aquilo? É difícil, porque ele não chega a acabar nenhuma delas. Há que ler aquilo tudo e confesso que não sei se vou ter tempo, mas alguma coisa tem de fazer-se. Das duas, uma: ou publicar tudo tal qual como está, o que vai ser muito complicado em termos de sistematização; ou então escolher e fazer uma recomposição de todo este manancial e tentar escolher aquilo que seja mais consentâneo. Naturalmente vou ter uma grande intervenção nisto. Tive o privilégio de conhecê-lo bem, sei o que ele quer; sei, julgo eu, que tipo de soluções ele encontraria para as suas personagens. Não há prazos para fazer isto.

– A questão do tempo, com a vida que o Miguel tem, é complicada. Alguma vez ponderou deixar que um investigador que estude a obra do seu pai tome essa tarefa de analisar os manuscritos e ver o que há para publicar?

M.S.F. – Obviamente. Por mim, acho que sim. Claro que o investigador não poderia ser qualquer um, mas uma pessoa de alguma confiança. Não é fácil de se arranjar, mas é óbvio que estaria aberto a isto, até porque tenho de ser realista. É muita coisa, que me rouba o tempo todo. Vamos ver se isso acontece. Mas obviamente que qualquer coisa teria sempre de passar pelo meu crivo (risos).

– Para já, os leitores poderão ler “Os Dores”. Que livro é este?

M.S.F. – “Os Dores” é um livro incompleto, assumidamente incompleto. Concordei com a visão do Instituto Cultural e assumimos a obra assim. De facto, quem ler o livro de cabo a rabo ficará sempre com aquela frustração de não saber o desfecho. Mas os dados lançam-se ali. É claro que o autor não queria isso, queria acabar a história, mas lança os dados e o leitor melhor deixará a sua imaginação funcionar e dar o desfecho que ache justo. Eu gosto da história.

– Qual é a sinopse da história?

M.S.F. – No fundo é a vida de uma órfã, e as glórias e inglórias neste mundo de Macau. Estamos no início do século XX, antes da Guerra, quando a Leontina, a heroína, uma rapariga muito branquinha e loura, não me lembro se de origem russa, é abandonada em Macau e quem a apanha é uma família de pescadores chineses. Tratavam-na muito mal, porque para o conceito deles ela era uma rapariga feia. Depois é resgatada por uma família macaense que vai a Coloane pescar e caçar. É uma família acima da média, da burguesia de Macau, mas a sua presença também causa certos incómodos, principalmente entre o mulherio. Ela praticamente é corrida da casa, vai para o orfanato, e acompanhamos a história dela até se libertar disto e fazer a sua própria vida. É difícil fechar a sinopse porque não temos a segunda parte do livro. Aquilo que se pode ler é mais uma vez a confirmação daquilo que destaco no prefácio do livro, que é meu, e que é o feminino a funcionar em pleno e a passar muito mal. A donzela do Henrique de Senna Fernandes sofre sempre, é do piorio. A Leontina sofre muito e o desfecho adivinha-se um bocado. O livro diz-nos que a beleza da mulher está principalmente na sua personalidade forte. Se o homem tem sucesso é porque tem uma viga ali atrás, que é a mulher. Mais uma vez, ele descreve a Macau dos tempos que já não existem. No início do século XX, fala dos primeiros aterros, da praia das Cacilhas, que era por baixo do Hospital Conde de São Januário. É uma Macau que não existe agora e que ele descreve de uma maneira muito pitoresca, com um estilo muito único.

– Para o dia do lançamento do livro, a 15 deste mês na Fundação Rui Cunha, o que é que está previsto?

M.S.F. – O programa melhor o dirá o Instituto Cultural. Mas eu vou exibir umas fotografias, tenho retratos que fiz dele e que mostram várias facetas. Está prevista então uma pequena exposição, com 20 ou 30 fotos. Além das minhas, há um molho de fotografias que está com o Instituto Cultural.

– De tudo o que o seu pai escreveu, de que é que o Miguel mais gosta?

M.S.F. – Gosto um pouco de tudo. Gostei muito de “Amor e Dedinhos de Pé”. Na “Trança Feiticeira” tive grande intervenção. Claro que as últimas decisões eram dele, mas havia vários desfechos possíveis. O Estima de Oliveira, que era amicíssimo dele, deu um desfecho; o Severo Machado, que fez a revisão, deu outro; e eu dei outro. O Severo Machado e o Estima queriam que o final girasse em torno dela [a personagem A-Leng]; eu dizia que não, eu entendia que era impossível uma pessoa [a personagem Adozindo] estar bem se não se reconciliasse com o pai, se pelo menos não falasse com o pai. O que ele fez foi uma súmula disso tudo (risos), agradou toda a gente. Fiquei feliz, porque também fiz parte desse projecto. Assisti ao meu pai acabar a “Trança Feiticeira”, quando parou “O Pai das Orquídeas”. Ele dizia ‘eu encravei numa cena de amor, pá. Aquilo tem de ser bonito’ (risos). E eu dizia-lhe, ‘pai, se tens outra história vai para a frente’. E foi assim. O que acho que ele explora muito bem é a mulher. A mulher é fundamental, é a razão de ser do homem. O modo como ele desenvolve o tema feminino é a parte de que mais gosto na obra dele.

– Hoje em dia poucas pessoas escrevem sobre Macau. Gostava que alguém continuasse esse caminho do seu pai, romanceando a cidade?

M.S.F. – Sim, claro. Houve uma vez, num lançamento de um livro de contos sobre Macau por uma escritora, em que disse que o que me agradava era que houvesse alguém a escrever sobre Macau, em Macau ou tendo Macau como referência. Claro que isso provocou um debate sobre o que é escrever sobre Macau. Para mim é tão simples: é escrever neste ambiente que nos rodeia, nesta envolvência. Ainda por cima há tanta coisa para escrever nesta Macau moderna… Talvez isto possa ser um incentivo para que as pessoas devotem o seu tempo à escrita – e falo por mim também (risos). Estou a ganhar coragem para publicar umas coisas que ando a escrever.

– Já tem coisas escritas?

M.S.F. – Tenho algumas, são contos. Vou começar pouco a pouco. São contos de alguém que está a escrever em Macau. E são contos de Natal. Não vão sair este ano, espero que possam sair no próximo.

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