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Senna Fernandes começa aqui

Aqui, nestes manuscritos do conto ‘Yasmine’, um dos primeiros do autor. Aqui, nestas imagens captadas pelo filho Miguel ainda na Macau de outros tempos. Aqui, na memória dos amigos que o lembram como um homem alegre, um contador de histórias, um cavalheiro. Henrique de Senna Fernandes viveu para contar – e contou muito.

 

Hélder Beja*

Tivéssemos um daqueles cursos que podem dizer tudo sobre as pessoas analisando a sua caligrafia, e teríamos aqui pano para vários fatos com as duas páginas manuscritas do conto ‘Yasmine’, publicado em 1978, no livro “Nam Van – Contos de Macau”. Não temos essas formações técnicas mas temos olhos e o que os olhos nos mostram – por sabermos o que sabemos sobre a vida e a personalidade de Henrique de Senna Fernandes – é um caligrafia de um homem relaxado, que muda de caneta sem razão aparente, que risca, que não está preocupado com letras bonitinhas a encherem a folha em branco. Senna Fernandes começa com a frase “Daquela vez que fui a Penang” e segue por aí fora, romanceando a vida, como sempre fez.

Passaram ontem dois anos sobre a morte de um dos mais importantes escritores macaenses. Henrique de Senna Fernandes partiu aos 86 anos. Deixou filhos, família, amigos e, também importante, obra feita. “Foi uma pessoa que deixou um legado importante, que ainda não está todo valorizado e conhecido”, diz a professora da Universidade de Macau, Maria Antónia Espadinha. “Era um homem muito de Macau, que tinha uma ternura muito grande por esta terra, que transparece nos livros, e uma ternura muito especial pelo sexo feminino, com personagens femininas sempre extremamente simpáticas. Tinha uma capacidade de ficcionar bastante grande.”

Maria Antónia Espadinha, além de apreciar os livros de Senna Fernandes, foi também amiga do autor. “Era uma pessoa extremamente divertida, com um humor muito próprio, com uma grande capacidade de contar histórias. Lembro-me de ele fazer 80 anos e, numa festa muito grande que os filhos organizaram, contar tantos episódios da sua vida, da passagem por Coimbra, da sua actividade profissional em Macau. Era um verdadeiro contador de histórias”, lembra.

O também advogado e professor arrancava das peripécias que lhe enchiam os dias para escrever os livros que o tornaram célebre. “Os romances partem sempre de alguma coisa que foi real e que ele transforma e reconta. Teve uma vida longa mas foi pena que nos últimos anos estivesse doente e não pudesse ter deixado mais coisas”, lamenta a professora de Literatura, responsável pela proposta feita à Universidade de Macau de atribuir o título Doutor Honoris Causa a Henrique de Senna Fernandes. A distinção concretizou-se em 2008.

Filho de uma família ilustre, com 11 irmãos, Henrique nem sempre teve vida fácil. A II Guerra Mundial e as repercussões que teve no território fragilizaram a estrutura patriarcal, encabeçada pelo pai Edmundo José. É só muito mais tarde, já nos anos 1970 e com a carreira profissional já estabilizada, que Senna Fernandes publica o primeiro livro, “Nam Van – Contos de Macau”. Pouco depois, já na década de 1980, chegariam os romances “A Trança Feiticeira” e “Amor e Dedinhos de Pé”.

 

Inspiração feminina

 

O feminino, sempre o feminino na vida e na obra de Henrique de Senna Fernandes. “O que sempre nos uniu foi uma grande amizade. Conheci-o quando cá cheguei, porque trabalhava no Instituto Cultural, nos anos 1980, e o instituto patrocinava um programa de rádio bastante interessante, que tinha a colaboração de várias personalidades de Macau. O Adé dos Santos Ferreira, o Henrique… Nesses programas fazíamos uns convívios, uns jantares, e começámos a criar uma amizade e uma grande cumplicidade”, conta Helena Vale sobre a forma como conheceu o autor.

O que Helena Vale não esperava era vir a ser fonte de inspiração para uma das personagens do escritor. “Mal sabia eu que nesse mesmo período estava ele a começar a escrever um romance e que, mais tarde vim a saber, estaria a inspirar-se na minha figura para a personagem Vitorina, do ‘Amor e Dedinhos de Pé’. Só muito mais tarde ele veio a confessar, como muito medo de que eu ficasse zangada. Mas claro que não fiquei, foi uma honra para mim.”

Helena Vale recorda uma época “de um convívio muito interessante, em que ele contava histórias inacreditáveis”. Helena, bonita e portuguesa, tinha acabado de chegar a Macau e aquele cavalheiro revelou-se uma figura fascinante. “Comecei a olhar a cidade através dos olhos do Henrique. Eu ainda era capaz de ver nessa altura a Macau dos anos 1950, das décadas que ele retratou na sua obra. Foi um privilégio conhecê-lo”, refere.

“Amor e Dedinhos de Pé” tem, obviamente, um significado especial para Helena Vale, que também gosta de “A Trança Feiticeira” e de outros textos do escritor. “Estou muito ligada a essa obra porque depois também acompanhei a feitura do filme [homónimo]. Estava no Instituto Cultural e fazia parte do grupo de acompanhamento da realização do filme. Li o argumento e sou amiga pessoal do [realizador] Luís Filipe Rocha”, acrescenta.

Livros à parte, Helena Vale não tem dúvidas: “O que eu mais admirava era a pessoa em si. Ele surpreendia-nos, tinha aquela gargalhada, os gestos elegantes, era um homem incrível.”

Amigos de infância

 

Augusto Lizardo e Henrique de Senna Fernandes conheceram-se ainda crianças. “O pai dele foi meu professor, ensinou-me estenografia, escrituração e dactilografia. Convidava-me a ir lá a casa, dizia que na escola não se aprendia tudo, por isso dava-nos aulas complementares”, lembra o septuagenário. Companheiros de recreio, estiveram separados 32 anos antes de voltarem a cruzar-se em Macau. “Quando voltei, topei que era um homem muito culto e respeitado. Toda a gente dizia ‘senhor professor aqui, senhor professor acolá’. Fez o seu nome aqui em Macau”, prossegue Lizardo.

Henrique de Senna Fernandes esteve sempre rodeado de amigos, como o pintor Herculano Estorninho, que aparece numa das fotos destas páginas e que estará em exposição na Fundação Rui Cunha a partir de dia 15; ou como o escritor Estima de Oliveira, de quem era muito próximo. Ainda hoje é recordado não só pela família mas também por companheiros que se juntam e não se esquecem dele. “Temos um grupo de 12 a 16 pessoas que todos os meses se reúne para jantar. Apesar de ele já não estar presente, continuamos a recordá-lo e convidamos sempre a sua esposa, a Cindy”, conta o também membro da Associação dos Macaenses.

Lizardo garante que, entre o círculo que frequenta e que é o dos amigos do escritor macaense, “toda a gente sente saudade de Henrique Senna Fernandes”. “Ele amava Macau. Lembra-se daquela frase que ele pronunciou? ‘Portugal é a minha pátria e Macau é a minha mátria.’ Diz tudo.”

 

 

*com Pedro Galinha

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