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Um segredo guardado dentro de água

Antes de tudo ficar submerso, Portugal, a China, “o amor, a morte e a vida” vão ocupar a meia hora de “Palácio de Cristal”, o mais recente filme de Ivo Ferreira. A estreia será no programa do Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, em Dezembro. Até lá, filma-se de forma “absolutamente louca”.

Inês Santinhos Gonçalves

É uma “história de amor ou não amor” com “ressonâncias históricas para reflectir sobre a actualidade”. O “Palácio de Cristal” começa a ser filmado segunda-feira e é o único filme produzido em Macau a participar no programa do Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura.

Os actores Margarida Vila-Nova e Siun Chong são os protagonistas do mais recente filme de Ivo Ferreira, com estreia em Portugal a 1 de Dezembro mas que só deve chegar a Macau no início do próximo ano, para o festival literário Rota das Letras.

O cineasta não quer revelar muito, mas avisa já que este é um filme “bastante louco”. E a narrativa, com diferentes e sobrepostas leituras, assim o comprova. Numa primeira camada, podemos resumi-lo à história de uma jornalista e um operador de câmara que se deslocam ao Museu Marítimo de Guangdong para uma reportagem. É que este museu guarda um segredo – com toda a contradição que pode existir num segredo em exposição. A sua peça central é um junco que naufragou no século XII e que foi retirado do fundo do mar. O junco, o Nanhai 1, encontra-se fechado ainda num contentor, dentro de uma piscina gigante, no salão nobre do museu, o Palácio de Cristal.

“É colossal. Uma piscina com 60 e tal metros e 20 de profundidade, com um contentor com um junco do século XII arrancado do fundo do mar. Trouxeram-no para cima e puseram-no ali para reconstruir o ambiente em que ele estava. A ideia é as pessoas verem a própria operação arqueológica, até ficar tudo limpo. Mas não se sabe se isso será feito agora, daqui a dois, cinco ou 20 anos”, explica Ivo Ferreira.

Passemos à segunda camada. No mesmo momento em que o Nanhai 1 naufraga, desaparece também a galé de D. Fuas Roupinho, almirante de D. Afonso Henriques. São dois naufrágios, um português e um chinês, que levam o filme de Ivo Ferreira a navegar pela história, a remexer no saco da identidade nacional e das ligações entre os dois países.

Indo mais fundo, chegamos à actualidade, porque este é também um filme que lança um olhar crítico à crise portuguesa e europeia, ao actual estado do Estado, ao “desolamento” da pátria.

“O filme é claramente uma história do naufrágio de Portugal. E, por outro lado, esta ideia de estar neste lado do mundo a olhar para este naufrágio, que também me inquieta”, explica o cineasta. “Nunca pensei ver as coisas chegar a este ponto. Custa-me ver Portugal, ver o meu pai absolutamente desolado”, aponta.

Não esquecer um ingrediente essencial, o amor. Porque o assunto deste filme “é o amor, a morte, a vida”. “Descobre-se que houve uma relação passada ou qualquer coisa entre os dois”, revela – mas mais não diz.

Quanto ao desfecho, Ivo Ferreira é ainda mais enigmático, mas aguça o apetite: “No final do filme, vamos assistir aos naufrágios do junco e da galé portuguesa. Debaixo de água vamos mesmo poder encontrar o D. Afonso Henriques”.

“Se havia um segredo guardado dentro de água, tinham de mergulhar. E quando mergulham acontecem coisas fantásticas”, justifica. Fica apenas uma garantia: “O filme acaba com tudo submerso”.

Seis minutos por dia

Filmar esta “cena aquática surpresa” vai ser tecnicamente desafiante e “complexo”. “Temos modelos pequenos de barcos, que depois hão-de ser grandes no ecrã. É um filme feito a pensar no cinema”, explica o realizador.

Com o plano de produção já delineado, Ivo Ferreira avança segunda-feira para as filmagens. “Vai ser uma coisa absolutamente louca, vamos estar a montar durante a rodagem”, conta.

A meia hora do “Palácio de Cristal” vai ser filmada de uma assentada: três dias em Hailing (onde fica o museu), um dia de exteriores, e dois dias em Macau. “Normalmente faz-se três minutos por dia, vamos estar a fazer cinco ou seis, vai ser uma loucura total”, explica.

A demora é explicada pelo atraso da chegada dos fundos de Guimarães. “Estou a fazer uma longa-metragem para a qual, supostamente, teria dinheiro há um ano e meio. Mas com os atrasos… Para manter o filme fresco, uso um truque: escrevo as coisas mais ou menos e só quando estou em cima da altura de filmar é que volto a trabalhar”, conta.

Para completar o financiamento insuficiente, Ivo Ferreira contou com o “alto apoio do Instituto Cultural” e também da Fundação Oriente. “Só assim foi possível”, refere.

O realizador quis fazer “o filme mais made in Macau possível”. E conseguiu, apesar de admitir que certas questões, como o som, obrigam idas a Taiwan ou Banguecoque. “Sempre foi muito difícil fazer filmes cá. Mas está mais fácil”.

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