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Um filme para a Coreia do Sul chorar

“National Security” recupera a história de Kim Geun-tae, um dos mais famosos prisioneiros políticos que, durante os anos 1980, sofreu na pele a repressão do regime militarista sul-coreano. É um filme que pôs centenas de pessoas chorar na noite da estreia mundial.

Hélder Beja, em Busan

A rapariga que está sentada ao nosso lado na sala de cinema chora e soluça durante todo o filme. No ecrã não passa mais uma comédia romântica, o Hugh Grant não está a correr para o aeroporto atrás da Julia Roberts, o Colin Firth não tropeçou na Lúcia Moniz para dizer que o amor acontece e dar uso à sua educação sentimental. Na tela está aquele que se adivinha como o filme mais polémico do ano na Coreia do Sul: “National Security”, um thriller/drama sobre os prisioneiros políticos torturados durante o regime militar que vigorou no país entre as décadas de 1960 e 1980.

Kim Geun-tae foi um desses prisioneiros, talvez o mais mediático. Sobreviveu a três semanas de tortura continuada nas célebres instalações em Namyeiongdon, bairro nos arredores de Seul. Saiu, envolveu-se ainda mais nos movimentos pro-democracia, foi marido, foi pai, foi deputado durante três legislaturas. Morreu no ano passado.

“National Security”, dirigido por Chung Ji-young, entra nas catacumbas de tortura do regime e nunca mais de lá sai. Park Weong-sang é o actor que veste a pele de Kim Geun-tae, o torturado; e Lee Kyeong-yeong incorpora o torturador, apelidado no filme por ‘the undertaker’. Este cavalheiro da maldade, sempre aprumado e bem vestido, tortura com perícia e algum gozo o jovem acusado de ligações à Coreia do Norte e ideias comunistas. Comete as maiores barbaridades, recorrendo a choques eléctricos e a água, enquanto assobia tranquilo o tema “My Darling Clementine”.

O festival de cinema de Busan assiste à première mundial do filme, com toda a equipa a marcar presença. Depois de duas horas de tortura (também para o público), os protagonistas sobem palco. A plateia, quase toda a plateia, chora. Os actores choram. O realizador quase que chora.

O cineasta Chung Ji-young explica que o falecido deputado Kim Geun-tae deixou uma autobiografia sobre a sua experiência de tortura. “O filme foi baseado nela e nas muitas entrevistas que fiz a dissidentes políticos vítimas de tortura. Acredito que tenha sido muito difícil para vocês verem este filme, mas na verdade foi nossa intenção causar nas pessoas a máxima dor possível ao verem esta obra”, admite. Muita gente tapava a cara durante a sessão, incapaz de suportar a lavagem cerebral a que se assistia na tela.

“Acredito que a democracia foi solidificada com base no sofrimento e no sacrifício de muita gente. Até este dia, a democracia continua a ser destruída e muitos mantêm-se em silêncio. Honestamente, espero que muita gente na Coreia veja este filme e ajude a salvaguardar a democracia. Espero que no futuro seja possível manter a democracia sem todo este sofrimento do passado”, acrescenta o realizador, que no filme não resiste a humanizar a figura de alguns dos torturadores, apresentados como homens simples, que só querem ascender na carreira dentro do partido, mas cuja obediência à maldade tem limites.

Mensagem política?

O sofrimento do passado, que faz centenas de pessoas aplaudirem de pé e comoverem-se à nossa volta, vem à tona em vésperas de eleições presidenciais, marcadas para o próximo mês. Park Geun-hye, candidata conservadora filha do antigo presidente Park Chung-hee, conotado com a ditadura militar e assassinado em 1979, é uma das favoritas à vitória.

A organização do festival faz questão de vincar que a obra não foi seleccionada por motivações políticas mas pelo seu valor artístico. Só que não era isso que saía da boca do elenco. Percebia-se que toda a gente estava a acertar contas com o passado. “Fazer este filme foi muito difícil para mim, o torturado, mas também para o torturador. Foi muito duro para todos os que assistiram. Dependemos todos muito uns dos outros durante as filmagens, para termos suporte emocional. Embora já tenha passado muito tempo, ainda tenho muitas más memórias. Foi a primeira vez que vi a versão completa do filme e sentem-se muitas coisas”, conta o actor Park Weong-sang.

A viúva de Kim Geun-tae também está presente em Busan – e chora mais que toda a gente. “Foi muito difícil para mim ver este filme. Estou muito grata ao realizador e ao protagonista por terem passado por tudo isto para fazer esta obra. E quero também agradecer ao torturador. Foi por ele ser um especialista que o meu marido sobreviveu naquela prisão. Foi assim que ele voltou para mim e para a família. Ele voltou, criou comigo os nossos filhos e acabou por contribuir para o progresso político da Coreia do Sul”, refere a actual deputada.

Lee Kyeong-yeong, actor que incorpora o carrasco que, na fase final do filme, tenta a redenção, quase não consegue falar. “Espero que os dias que estejam por vir não sejam tão traumáticos”, balbucia enquanto tapa a cara. A viúva do democrata torturado durante 22 dias continua a elogiar o marido já morto. “Como ser humano, era uma pessoa cheia de amor. Tinha um grande coração, não enlouqueceu com toda aquela experiência. Foi um grande marido e um grande pai. Estou-lhe muito grata por, apesar de tudo o que passou, ter conseguido passar tantos anos ao meu lado.”

“National Security” é um filme claustrofóbico e duro. Quer deixar uma marca, fazer uma declaração histórica, reavivar fantasmas para poder acabar com eles. E quer dizer às estruturas de poder sul-coreanas que a Coreia do Norte não pode voltar a servir de desculpa para apagar fogos internos.

 

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