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Um Irão, dois cinemas

A nossa maior surpresa deste festival chegou do Irão. “My Name is Negahadar Jamali and I Make Westerns” é um documentário de dentro para fora, e de uma pureza que já não há. “Rhino Season”, filme feito por um cineasta exilado que o seu país do exterior, não podia ser mais diferente. As duas caras do cinema Iraniano vieram a Busan.

Hélder Beja, em Busan

É impossível resistir a um filme com o título “My Name is Negahadar Jamali and I Make Westerns”, que se anuncia como documentário sobre um realizador de westerns iranianos. A façanha pertence ao jovem Kamran Heidari, cineasta de 32 anos que trouxe o seu humilde filme a estrear mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Busan.

“My Name is Negahadar Jamali and I Make Westerns” é a história deste homem que tem o nome no título, Negahadar Jamali, habitante dos arrabaldes de Shiraz, no sudoeste iraniano, que há mais de 35 anos, literalmente sem saber ler nem escrever, filma westerns com os amigos.

O documentário começa com a voz de Jamali a explicar o que deve ser um verdadeiro cowboy e acaba da mesma maneira. É um filme cheio de inocência e de amor ao cinema mais puro e menos construído que existe. Kamran Heidari, também natural de Shiraz, sempre ouviu falar deste homem como de um louco que fazia uns filmes surreais, com pistoleiros e cavalos nas terras áridas do Irão. “Quando estava com os meus amigos, todos eles gozavam com este tipo que fazia westerns. Toda a gente se ria dele e eu sempre pensei sempre que ele fazia comédias, ‘spaghetti western’. Pensávamos todos isso. Então decidi ir a casa dele e ver os filmes”, conta Kamran Heidari ao PONTO FINAL. “Quando os levei comigo e os vi em minha casa, fiquei tão triste… Percebi exactamente aquilo que ele estava a fazer e tornámo-nos amigos. Somos amigos há oito anos.”

Apenas seis anos depois de conhecer Jamali é que Kamran Heidari decidiu rodar o documentário. Há momentos que nos fazem rir durante os pouco mais de 60 minutos deste filme de baixo custo, mas a maior parte da fita é triste e comovente sem precisar de exagerar o que quer que seja.

História impossível

Kamran Heidari conta como Jamali, um homem pobre e analfabeto do Irão, acabou apaixonado pela estética do oeste americano. Jamali vive numa aldeia fora de Shiraz. Em criança, tinha uns sete anos, um cão mordeu-lhe e as pessoas do povoado disseram ao pai que devia levá-lo ao hospital. Na cidade, tiveram de esperar um par de horas para perceber se a mordida do cão tinha feito mazelas mais graves. “Durante essas horas, pai e filho foram andar pelas ruas e à porta do cinema estavam a chamar gente para um filme. Foi o primeiro western dele e também a primeira vez que ele foi ao cinema. Foi assim que ele descobriu os filmes de cowboys”, ri-se Heidari. “Ele costuma dizer: ‘Não fiquei doente com a mordidela do cão mas apanhei o vírus dos westerns’.”

O vírus projecta-se em ícones deste género cinematográfico, como o italiano Giuliano Gemma e os americanos Charles Bronson e John Wayne, entre outros. “Ele nunca consegue dizer ao certo quem é quem. Vê estes actores, gosta deles, mas eles funcionam com símbolo do interesse que ele tem pelos westerns. Ele nunca recebeu qualquer educação ou fez qualquer estudo sobre isto”, explica Kamran Hediari.

Estado puro

A pureza na rodagem do western iraniano a que vamos assistindo – e a pureza do olhar de Negahadar Jamali, que persegue o sonho de ser realizador – tornam este documentário especial. Heidari atesta que “ele é mesmo assim, puro e amigo, muito simples na madeira de pensar”. “De tal modo que, quando tivemos de assinar o contrato para fazer este filme, ele nem sequer percebia porque é que tinha de assinar papéis para estar de acordo com o que estávamos a fazer.”

Temos então um realizador amador a fazer westerns com actores amadores que são seus amigos; e um outro realizador a fazer um documentário sobre um realizador amador que faz westerns com actores amadores que são seus amigos. É o cinema dentro do cinema dentro do cinema, como quando vemos Jamali e os seus ‘actores’ montarem uma tela de rua, com pequenos lençóis, para projectarem o novo western. Ou quando um dos actores habituais dos westerns de Jamali lhe pede encarecidamente para, por uma vez, não ser o vilão e não voltar a morrer, porque está farto de morrer nos filmes dele.

“My Name is Negahadar Jamali and I Make Westerns” é um documentário sobre um homem que, antes de mais, queria ser actor e ver-se no grande ecrã, mas não conseguiu. E é feito por um rapaz que queria ser realizador e está a conseguir, sem ter de deixar o país onde nasceu. “Amo o meu país. Não quero viver noutro lugar. Adoro as pessoas e não me interessa fazer filmes políticos nem queixar-me. Quero captar a pureza das pessoas do Irão”, diz Kamran Hediari.

A política é coisa não interessa a Hediari, que quer mostrar o filme aos espectadores do Irão e já sabe o que vai fazer a seguir. “O meu próximo documentário será sobre a música no meu país, que tem muitas influências africanas.”

O outro Irão

Bahman Ghobadi não podia estar mais longe do discurso do seu compatriota Kamran Hediari. O realizador de “Rhino Season”, um dos filmes a integrar a secção de gala deste festival de Busan, vive exilado na Turquia e enche a boca para criticar o regime do país que o viu nascer.

“Rhino Season”, que conta com Monica Bellucci no elenco e é produzido por Martin Scorsese, é uma grande produção baseada na história verídica do poeta curdo Sahel Farzan. Estamos no Curdistão Iraniano, durante a revolução islâmica, e Farzan é separado da mulher, Mina (Monica Bellucci), encarcerado, mal tratado e eliminado da sociedade. Bahman Ghobadi pega num homem que regressa do mundo dos mortos para encontrar um lugar que já não conhece e uma família que já não é sua.

O realizador de “Turtles Can Fly” e “The Time for Drunken Horses” apresenta aqui um filme que rompe com o que vinha fazendo. “Este filme é diferente, não é como ‘No One Knows About Persina Cats’ ou os outros. Nesses filmes eu estava no Irão, a filmar cheio de stress, o meu operador câmara tremia quando tínhamos de filmar… Aqui, neste, há uma certa depressão, uma calma, há os silêncios que servem para levar as pessoas à prisão. Queria partilhar isso”, diz Bahman Ghobadi.

A viver na Turquia, o cineasta lamenta-se por não poder filmar no seu país. “Não consigo explicar quão difícil é fazer um filme longe do meu país. Perde-se tudo. Perdi a família, a equipa, a minha mesa, a minha varanda, os meus grandes amigos…” Quando filmava no Irão, Ghobadi lembra que “nunca tinha tempo para sentar e pensar nas cenas”. “Na maior parte do tempo estava mais preocupado em ver se havia alguém à nossa volta, alguém do regime, para nos controlar, alguém do exército. Estava sempre assustado e a tomar conta da minha equipa. É tão difícil fazer um filme no Curdistão, especialmente…. Para este filme pude esquecer todos esses problemas.”

Sem problemas de outra ordem que não os que os desafios de um filme levantam, Ghobadi criou uma obra contemplativa, com muitos poemas ditos ao longo do filme, com cenas hiper-realistas intercaladas com momentos oníricos.

Do elenco destaca-se, pelas razões óbvias, Monica Bellucci, que interpreta a mulher do poeta aprisionado, mas principalmente o actor Behrouz Vossoughi, um dos mais emblemáticos nomes do cinema iraniano de todos os tempos, com uma carreira que já ultrapassa as quatro décadas. Vossoughi, que já andava arredado dos ecrãs há algum tempo, foi dos primeiros actores do Irão a entrar em produções norte-americanas, ao lado de nomes como Anthony Quinn, em “Caravans” (1978).

O regresso deste homem que ainda é um ícone no seu país foi uma das grandes razões de ser do filme. “Este filme é para o Behrouz Vossoughi. Prometi-lhe que o faria. Ele queria muito interpretar o poeta Sahel Farzan, que é um dos seus heróis”, conta o realizador Bahman Ghobadi. Behrouz Vossoughi é o velho poeta devolvido ao mundo, sem país, sem mulher, sem rumo. É um homem triste a ver a vida acontecer à sua volta, sem coragem de voltar a participar dela.

Monica Bellucci, por sua vez, acabou por surgir em alternativa a uma actriz natural do Irão. “Encontrei uma actriz iraniana com quem queria trabalhar, mas ela não pôde. Disse-me que se viesse fazer o filme comigo não poderia voltar ao Irão. Então achei que podia ser uma boa ideia encontrar uma actriz talentosa e famosa. E a Monica Bellucci tem um rosto que parece iraniano. Queria dar-lhe muitos diálogos mas é muito difícil explicar o farsi a estrangeiros. As palavras, o sotaque… Mesmo assim ela foi muito boa, foi como a mãe para toda a gente durante as filmagens.”

Para Bahman Ghobadi, “liberdade não é não estar na cadeia”. A liberdade tem de ser mental, defende o artista. “Porque é que tanta gente na Coreia e no Japão se mata? Têm dinheiro, tudo parece bem, mas não é só isso que importa”, extrapola.

O exílio, para o cineasta, “também é uma forma de prisão”. Ghobadi vive nesta tensão entre a vontade de estar no país a que pertence e a incapacidade de aceitar viver de acordo com a conduta actual. “No Irão, mais de 80 por cento da energia de um realizador vai para a pré-produção. Para conseguir alguma verba estúpida do Governo, por exemplo. Eles apoiam os filmes que querem, os filmes de que gostam”, ataca. “O que eu sei de mise-en-scène no Irão é outra coisa. Sei onde é o Ministério da Cultura, o edifício da censura, sei cada andar, cada mosaico, cada detalhe de cor. Sei onde tenho de estar para encontrar o Ministro da Cultura e pedir-lhe ‘por favor, dê-me a autorização para filmar’. É assim para tudo. Vejam os jovens: não podem sair à rua com roupas normais, ou vão parar à prisão. Eles só querem que te zangues e que não desfrutes a vida no teu país.”

Perante uma plateia maioritariamente sul-coreana e jovem, Bahman Ghobadi, que acaba de mostrar um filme que também é sobre o amor, pergunta: “Porque é que eu não posso fazer um filme no Irão?” “Nós não somos como vocês”, remata o cineasta. Na Coreia do Sul ainda não há cowboys.

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