Uncategorized

Kim Ki-duk para adolescentes

“Pieta”, filme vencedor do último festival de Veneza, arrastou multidões em Busan. O mais internacional cineasta do país fez um filme que podia ser para teenagers se não estivesse mascarado pela violência do costume. Resultou?

 

Hélder Beja, em Busan

 

Os produtores e distribuidores de Kim Ki-duk devem estar a esfregar as mãos algures no mundo, depois de venderem os direitos comercias de “Pieta” para mais 27 países, depois de dezenas de festivais de cinema pedirem o filme e o realizador e os actores. “Pieta”, que fez do cineasta Kim Ki-duk o primeiro sul-coreano a vencer o Leão de Ouro em Veneza, no passado mês de Setembro, está a ser um sucesso.

O poster de “Pieta” é a primeira provocação: como na “Pieta” de Michelangelo, há uma mãe que carrega o filho morto nos braços. Na escultura do renascentista do século XV, a Virgem Maria carrega Jesus morto nos braços, depois da crucificação. Maria é magnânima, jovem, e há serenidade naquele rosto que vê o filho sem vida no regaço. No poster do filme sul-coreano, a mãe veste aquilo que parece ser um vestido de noiva, tem uma expressão dramática, e o filho não é um corpo magro e acabado como o Jesus de Michelangelo, mas um corpo longo e jovem.

Kim Ki-duk escolheu, ao 18º filme, encher-se de referências ocidentais. De Michelangelo e do cristianismo apropriou a iconografia e uma história de maternidade ambígua. E de Shakespeare agarrou a ideia de “O Mercador de Veneza”, com uma personagem principal que é uma espécie de cobrador de fraque e de carne.

“Pieta” é então a história de Lee Kang-do (Lee Jung-jin), personagem e actor que pôs em delírio as adolescentes sul-coreanas durante o Festival de Busan. Kang-do é um artífice da crueldade, um homem de coração petrificado e sem família, sem amigos, sem mulher. Kang-do tem uma profissão: cobrar dinheiro de miseráveis que pedem empréstimos a privados para sobreviver, tendo de pagar altíssimas taxas de juros, que não conseguem cumprir. Como não há bens materiais que possam devolver a quantia a quem a emprestou, Kang-do subtrai braços, pernas ou o que seja preciso aos incumpridores que falham a paga, para que fiquem incapacitados, recebam ajudas para inválidos e assim possam honrar os seus compromissos de dinheiro.

Kang-do, sempre todo alto e todo pálido, parece mais saído de um filme de adolescentes com olhos pintados a negro e música k-pop nos auscultadores, do que pronto para ser o nosso psicopata de serviço. Mas seja: a câmara quer mostrar-nos que ele é um homem mau e sem fragilidades. Caminha na penumbra por ruas sujas, e aterroriza pessoas sujas do topo da sua alvura. A vida corre assim, com sangue e tripas no chão do apartamento onde vive (?), até ao dia em que uma mulher (Cho Min-soo) aparece do nada declarando-se sua mãe. Esta mulher aparece a olhar para Kang-do com aquela ar de ‘sei o que fizeste no verão passado’. E nunca mais se vai embora.

Estamos ainda na primeira meia hora do filme e já vimos sangue e violência ao nível de uma série documental sobre tortura medieval ou campos de concentração. Antes de iniciar-se o processo redentor de Kang-do (sim, o rapaz afinal até é bonzinho), virá ainda a dose extra de perversão, com todo o mal que Kang-do é capaz de fazer àquela suposta mãe que, apesar de humilhada e violentada, continua a olhá-lo com olhos doces e maquilhagem perfeita.

 

Sem meio termo

 

Em Busan, onde o filme passou repetidas vezes e esgotou sempre, Kim Ki-duk e o elenco foram as maiores estrelas, chamando sempre pequenas multidões às sessões a que acorriam. Mesmo assim, Kim – que garante querer com esta obra fazer uma crítica feroz ao sistema capitalista, ao modo como o dinheiro está a destruir as relações humanas – acredita que os seus filmes não são vistos no país. “Os sul-coreanos estão felizes que eu tenha ganho o prémio [em Veneza], mas muitos deles continuam a não ver os meus filmes. Desconhecidos apertam-me a mão e felicitam-me, mas quando lhes pergunto nenhum deles viu os meus filmes”, disse em Busan.

Com “Pieta” a história será diferente. O filme é o candidato sul-coreano aos Óscares e terá uma forte distribuição na Europa e nos Estados Unidos da América, além de inundar o mercado interno à boleia do prémio e do elenco. Kim, pessimista, avisa: “A energia criativa de um artista é efémera como uma flor. Nenhum artista é óptimo para sempre. Pessoalmente, acho que atingi o meu topo em 2004 quando filmei ‘Samaria’ e ‘3-Iron’”.

“Samaria” é precisamente o filme de Kim Ki-duk que mais nos vem à cabeça quando vemos “Pieta”. Ali há um pai e uma filha (em vez de uma mãe e um filho), uma história cruel, uma dose cavalar de culpa e, finalmente, o caminho para a redenção. Apesar de Kim Ki-duk dizer que não tem a capacidade “de encontrar um meio-termo com o público”, estes dois filmes são um pouco isso: peças em que o artista sul-coreano mistura os dois lados da moeda que compõe a sua obra: a violência desbragada (que está em ‘Real Fiction’ ou ‘Bad Guy’) e a contemplação de cariz purificador (que encontramos em ‘Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring’ ou ‘The Isle’), ambas utilizadas para esmiuçar os lugares mais obscuros do ser.

Só que aquilo que “Samaria” faz em jeito de viagem expiatória depois de crimes cometidos por motivações justificadas, “Pieta” troca por um primeiro arraial de violência gratuita e uma segunda trama de amor e vingança.

O desfecho do filme, que depois da já referida menção a Shakespeare volta a ter muito de peça de teatro, é talvez o que de mais surpreendente Kim entrega neste filme da maioridade(o 18º), que afinal podia ser uma história para adolescentes.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s