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“Ainda gosto deste trabalho”

Ivo Ferreira volta a estar atrás da câmara depois de atravessar um “deserto” que o atraso das verbas prometidas por Portugal causou. “Palácio de Cristal”, título provisório do filme para Guimarães – Capital Europeia da Cultura, teve uma rodagem “imprevisível”, entre o Continente e Macau. A vida é assim, os filmes e o trabalho de realizador também.

Hélder Beja

“The Man Who Killed Don Quixote”, mesmo que nunca chegue de facto a ser um filme de Terry Gilliam, já está na história do cinema por ter deixado uma das rodagens mais atribuladas de sempre. A filmar junto a uma base militar, nos arredores de Madrid, a equipa viu-se amaldiçoada por tudo: aviões que passavam a toda a hora e arruinaram o som, dilúvios que danificaram material, alteraram a paisagem e inutilizaram dias anteriores de filmagem, actores com problemas físicos irreparáveis e outros acidentes de percurso que levaram ao cancelamento da adaptação da obra de Cervantes, em Novembro de 2000. Felizmente, nada disto aconteceu na rodagem de “Palácio de Cristal”, título provisório do novo filme de Ivo Ferreira para Guimarães – Capital Europeia da Cultura, mas os dias de filmagens na ilha de Hailing, na província de Guangdong, foram tudo menos um oásis de tranquilidade.

A equipa de “Palácio de Cristal”, incluindo o realizador, os actores Siun Chong e Margarida Vila-Nova, e o produtor João Pinhão, viajaram para Hailing, onde fica o Museu Marítimo da Rota da Seda, convencidos de que havia um filme que cresceria à volta de um decór principal: a sala chamada palácio de cristal onde fica a piscina gigante que alberga um contentor com um junco do século XII (Nanhai 1) no seu interior. Só que apenas cinco dos mais de 15 membros que compunham a equipa conseguiram permissão para entrar e trabalhar no interior do museu. Os actores ficaram à porta.

“Não pudemos filmar com toda a equipa e os actores no decór onde era suposto. Tivemos uma enorme ajuda do Gabinete de Ligação [do Governo Central] em Macau, o Governo da província de Guangdong também foi muito cooperante e rápido na ajuda que nos deu para podermos filmar. Mas não tínhamos a experiência de trabalhar com um museu nacional e as coisas tiveram de ser alteradas. Era suposto filmarmos os dois actores principais no décor mais importante do filme, e não pudemos”, conta Ivo Ferreira.

Para grandes males, grandes remédios. O cineasta olhou em volta, falou com a equipa e fez o que havia a fazer: alterou o que era preciso, reescreveu o guião, lidou com a imprevisibilidade do cinema como quem lida com a imprevisibilidade da vida. “Na altura a gente pensa sempre que é o fim do mundo, pensa nas responsabilidades com Guimarães – Capital Europeia da Cultura, com o Instituto Cultural, e pensa ‘bem, se passasse agora um carro e me atropelasse, já tinha um motivo para ter de parar e não conseguir fazer isto’. Mas a vida não é assim, e isso não é respeitoso para com a equipa ou para com o filme.”

Os problemas burocráticos condensaram a rodagem, que deveria ter levado quatro dias em Hailing e acabou por fazer-se em dois. Dentro do museu, a equipa fez o que tinha a fazer. Cá fora, a história das duas personagens centrais – uma jornalista portuguesa a viver em Macau e o seu cameraman – adaptou-se às novas circunstâncias. “Costumava dizer aos meus alunos, quando dei aulas, que em todas as filmagens o mais importante é sabermos o que estamos a fazer. Todos os dias acontece alguma coisa imprevisível. Desta vez tivemos muitas dessas situações”, continua o realizador.

Ivo Ferreira lembra-se do momento em que os cinco membros da equipa autorizados a entrar no museu avançaram para a sala onde está o junco do século XII “como se estivesse muito claro o que havia a fazer”. Na cabeça do cineasta, as coisas não estavam tão claras assim, mas acabou por acontecer. “Claro que tinha algumas ideias do que poderíamos fazer [sem os actores], mas quando estávamos a entrar não podia dizer exactamente o que é que estávamos prestes a fazer ali. O resto da equipa voltou triste para o hotel e os actores ficaram à porta. Eu olhei para eles e disse-lhes ‘está tudo bem.’”

No limite, “fazer um filme é fazer um filme” e o que acontece durante a rodagem nunca chegará à maior parte do público. “Se não tivéssemos esta conversa, não chegaria a ninguém o que aconteceu naqueles dias. Hitchcock costumava dizer que qualquer pessoa podia dirigir o seu próprio filme, porque tudo estava escrito. E por outro lado, Fellini no ‘La Strada’ parte com uma sinopse, conta até 80 e escreve os diálogos. Portanto não há sistema. O que interessa é que as coisas funcionem e que as pessoas façam aquilo que querem e aquilo que sentem”, defende Ferreira. Neste caso, o processo foi “exigente”, mas foi também “um exercício muito interessante”

Saber reinventar

A história de uma repórter que parte para Hailing em reportagem sobre um junco naufragado séculos atrás, e que ali encontra um paralelismo com o naufrágio contemporâneo (económico, social) do seu país; e ainda com outro naufrágio, o da nau de Dom Fuas Roupinho que também no século XII transportava Dom Afonso Henriques, continua a ser a mesma apesar das dificuldades encontradas. “As coisas voltaram a fazer sentido. Tivemos de reescrever várias cenas enquanto estávamos a filmar e isso também é muito interessante. Ainda gosto deste trabalho”, garante Ferreira.

O cineasta diz que “não é por acaso” que as personagens centrais são agentes de comunicação. “Todos os dias quando acordo ouço a TSF, os jornalistas são pessoas que nos informam do que está a acontecer. De certo modo, toda a gente sofre um bocadinho com as coisas que estão a acontecer. Acredito que, mesmo que não estejamos preocupados, vamos sentir-nos responsáveis, há uma questão de consciência.” O que o realizador queria era que, neste momento da vida daquele homem e daquela um mulher que são as suas personagens, um deles (a mulher) começasse “a sentir que alguma coisa que não está bem”. “Não há aqui arquétipos, ela não é Portugal e ele não é Macau. Claro que ele está a sofrer, mas vive mais o presente, que também o perturba. Ela tem de voltar ao passado, para perceber esta história que começou há tanto tempo.”

Ivo Ferreira avisa que não quer saber da História com maiúscula nos filmes que faz. “Uso-a como quero e para o que quero. Não me interessa se este junco e a nau do Dom Fuas Roupinho afundaram na mesma data ou se houve 20 ou 30 anos de distância, não é isso que me interessa.” Tal como não interessa ao cineasta concluir se há ou não uma história de amor entre as duas personagens de “Palácio de Cristal”. “Mesmo que isso não esteja concretizado, isto é provavelmente uma história de amor. Ou não”, emenda.

O realizador está satisfeito com o trabalho da dupla de actores – a sua mulher e actriz profissional, Margarida Vila-Nova, e o amador Siun Chong. “Adoro actores e odeio-os ao mesmo tempo. Os meus pais eram actores. Os actores são animais muito estranhos. São muito frágeis, tudo o que fazem é muito visível diante da câmara. E odeio essa coisa de actor de estúdio. Quando se filma tem de se estar a trabalhar e os sentimentos também têm de funcionar. Entre eles [Margarida e Siun], tudo funcionou na perfeição.”

Regresso à câmara

Ivo Ferreira, 37 anos, voltou a pegar na câmara para filmar depois de um “deserto” a que o incumprimento da chegada de financiamento já assegurado para os seus próximos filmes o obrigou. “Claro que quando se volta ao trabalho, na primeira hora tudo está a acontecer muito depressa, mas depois é como andar de bicicleta, já se sabe o que se está a fazer”, explica.

Apesar de tudo parecer encaminhado para que volte a ser possível fazer filmes, o cineasta desconfia. “É suposto ter mais uma longa-metragem e duas curtas-metragens, mas com todos os atrasos e as questões políticas… Quando tudo estava bem na minha vida – tinha terminado uma longa, no mesmo ano três filmes meus tiveram estreia comercial nos cinemas em Portugal (‘Águas Mil’, ‘Vai Com o Vento’ e ‘O Estrangeiro’) –, pensei ‘ok, aos 35 anos isto está a acontecer, os teus filmes têm estreias comerciais no teu país, estão em festivais, etc’. Depois, tive logo o convite de Paulo Cunha e Silva para este projecto do Castelo em Três Actos [da Capital Europeia da Cultura] e recebi o apoio para a longa seguinte, “Cartas da Guerra”. Pensei que as coisas iam acontecer umas a seguir às outras. De repente, deserto.”

O realizador considera que “é muito frágil fazer filmes” e aconselha quem quer filmar a não esperar por apoios que podem não chegar. “O meu conselho para as pessoas desta área é que precisam mesmo de fazer os filmes, porque esperar é horrível. Pensa-se, pensa-se e não se faz nada. Nem sequer sou o tipo que vê muitos filmes agora, talvez porque estou chateado por não estar a fazê-los…”, admite.

“Palácio de Cristal”, que estreará em Guimarães a 1 de Dezembro e, pelo meio, será montado entre Macau e Portugal e terá pós-produção no território, com a Icon Communications, e em Taiwan, só foi possível devido aos apoios locais. Ivo Ferreira lembra que o dinheiro da Capital Europeia da Cultura deveria ter chegado um ano antes e que, quando finalmente teve a certeza e que a verba existia, teve de imediato “um apoio incrível” do Instituto Cultural de Macau. “Fiz uma proposta, disse-lhes que tinha este problema e esta deadline. Expliquei-lhes, disse-lhes que Macau precisa mesmo de fazer coisas profissionais, que esta era uma história de Macau, e ele foram fantásticos. Provaram que há uma grande vontade de que se façam coisas. Aos poucos, estamos todos a criar uma estrutura aqui, o que é muito importante.”

Se Macau proporcionou fundos e ajudou na preparação das filmagens na China Continental, Zhuhai também esteve neste processo, com a Delta Bridges a assegurar a ligação com o lado de lá da fronteira e vários figurantes que participaram na rodagem em Hailing a virem da cidade vizinha.

De um lado como de outro, Ivo Ferreira diz que “é bom ver que aqui há abertura para perceber que o cinema é qualquer coisa que está longe dos espectáculos de domingo à tarde, que não é televisão e que precisa de ser livre”. Para o realizador, já há em Macau uma consciência de que “não há por que fazer apenas filmes sobre questões superficiais de Macau”.

Margarida Vila-Nova

O regresso da menina talentosa

Quando Margarida Vila-Nova diz que tem 29 anos a gente põe-se a fazer contas e percebe que a carreira que teve e tem em Portugal foi de ascensão rápida. A idade não corresponde ao currículo. Depois de mais de um ano afastada das câmaras – para descansar, para ser mãe, para gozar a maternidade, para arrancar com o negócio da Mercearia Portuguesa ao lado do marido Ivo Ferreira – a actriz está de volta na pele de uma jornalista de TV que visita a ilha de Hailing neste filme “Palácio de Cristal”.

“É uma jornalista portuguesa a residir em Macau que vai em repoertagem sobre este barco que naufragou no séculos XII. É uma mulher dos dias de hoje, 2012, que está perante uma crise europeia e um naufrágio português evidente – económico, social, cultural, político – e que encontra aqui um paralelismo entre a galé do Dom Afonso Henriques, comanda pelo Almirante Dom Fuas Roupinho, que naufraga no ano de 1180, mais ou menos, e este navio chinês que também naufragou no século XII”, conta a actriz. “É engraçado nos dias de hoje poder encontrar estas ressonâncias do passado, que teimam em reproduzir-se no presente.”

Feliz com o regresso, Margarida Vila-Nova diz que “é sempre bom ser despertada para filmar, porque mantém-nos vivos e curiosos sobre os outros e o mundo”. O trabalho com o marido corre de feição e a actriz diz que “é um prazer trabalhar com o Ivo e à medida que os anos passam é cada vez melhor”. “Conheço-lhe as manias, as vontades, os desejos, o feitio. Às vezes não precisamos de falar. É engraçado ver esse espelho no trabalho. Da primeira vez que trabalhámos foi uma experiência quase explosiva. Agora já conhecemos os tempos de cada um isso torna até mais profunda aquilo que seria a relação entre um actor e um realizador.”

Com este primeiro projecto em Macau, a actriz enceta um novo caminho. As portas de Portugal não estão fechadas, mas é aqui que Margarida quer ter a sua base. “Não considero esta passagem temporária ou efémera e foi importante fazer este primeiro projecto. É sempre curioso filmar na China, é sempre surpreendente, mas cinema é cinema em qualquer parte do mundo, com as suas dificuldades e com os seus momentos felizes. Acho que este é um bom arranque profissional em Macau, enquanto actriz. O Ivo já começou a trabalhar no próximo argumento e espero que ele me chame para trabalhar com ele”, atira.

Margarida Vila-Nova sente que há “uma nova energia” em Macau, uma vontade de criar uma nova movida cultural no território, “de criar uma indústria cinematográfica constante e permanente, com mais curtas-metragens, documentários”, e espera poder fazer parte desse movimento.

Siun Chong

Um amante do cinema à frente da câmara

É Siun Chong, homem de Macau, uma cabeça sem ponta de cabeça, lustrosa, que nos atira a referência de “The Man Who Killed Don Quixote” para cima da mesa, fazendo uma comparação entre rodagens atribuladas. Siun é um homem que gosta de cinema e é actor amador. Em “Palácio de Cristal”, é ele a contracena de Margarida Vila-Nova, um cameraman que parece estar apaixonado pela sua jornalista.

Ambos os actores elogiam a prestação um do outro. Siun Chong, 43 anos, diz que “ser profissional não quer dizer que se seja bom, só quer dizer que se vive de uma determinada actividade. Mas estes tipos são profissionais e são bons”, assegura. O que conseguiram em poucos dias de filmagem parece-lhe incrível, “dadas as circunstâncias que enfrentadas, em termos burocráticos, que não permitiram entrar no museu”.

“Tínhamos limitações visto e toda a gente esta sob muito stresse. Eu, enquanto actor amador, aprendi muito. Nesta personagem há uma interacção de partida e também de união. Estudei muito bem o guião, li-o várias vezes”, continua Siun Chong num inglês imaculado (é bilingue) que lhe permitiu contracenar com Margarida Vila-Nova com grande à vontade, não sentindo as dificuldade em trabalhar o texto que a actriz confessa ter enfrentado. “Aprendi muito no trabalho com a Margarida. Com ou sem intenção, ela conseguir manter uma emoção, ou mudar as suas emoções para um estado diferente e manter-se assim… Ser sensível para mim é muito difícil. E, dadas as circunstâncias, ela esteve muito bem. Eu estava a sentir-me pressionado, por não saber se ia corresponder às expectativas.”

Ivo Ferreira garante que Siun Chong cumpriu tudo o que esperava dele e que improvisou até. Para o actor, é assim que o cinema e a criação em geral fazem sentido. “Tudo aquilo que se inicia, seja uma pintura, uma música, uma construção de uma casa, tem a sua própria vida. Esta produção teve vida própria, há um grupo de pessoas a fazer um trabalho colectivo. Só Deus sabe onde é que isso pode ir parar.”

João Pinhão

O homem que faz a máquina funcionar

A diferença entre um guionista e um realizador é esta: “Um argumentista precisa de escrever e ter ideias, mas os dias de filmagem são completamente diferentes. É preciso ser capaz de mudar coisas todos os dias. Não precisam de ser propriamente desgraças, há pequenas coisas para as quais é preciso estar preparado. Claro que pode planear-se tudo, e esse é o meu trabalho, mas depois ou chove ou não chove…”. Palavra do produtor João Pinhão, que está a pôr a máquina de “Palácio de Cristal” em andamento.

“Consigo ver um tipo é realizador ou não se ele conseguir fazer isto, se ele conseguir transformar ou alterar alguma coisa todos os dias. Fazer tudo o que estão no guião ao mesmo tempo nem sequer é tão excitante”, continua o produtor que veio especialmente de Portugal para este projecto. Esta é a primeira vez que Pinhão visita o Oriente e descreve o resultado como “bastante confuso mas muito bom”.

Em Macau, veio encontrar “muitas pessoas, empresas e mesmo o Governo a querer ajudar e a tornar as coisas mais fáceis”. Mas porque “não há uma estrutura de produção de filmes, essa ajuda choca com o não existir dessa estrutura”. “Isso torna as coisas não complicadas, mas sempre surpreendentes. Se houvesse mais coisas cá, mais gente a trabalhar, se não houvesse algumas lacunas que há em certos sectores do cinema, as coisas eram agilizadas e concretizadas”, avalia o produtor.

Da China, Pinhão retém a simpatia das pessoas e desvaloriza os entraves burocráticos que fizeram a rodagem mais complicada. 2Isso para o filme pode não ter sido nada mau. O filme concentrou-se muito mais nos dois personagens, na jornalista e no seu cameraman. Afastou-se um bocado do seu lado didáctico. À medida que vão ser procurados os decórs e à medida que os decórs caem, o filme também faz o seu percurso. Acho que se calhar até vai ficar mais interessante.”

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