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“Nunca tinha visto nada assim em Macau”

Contrabaixista, pianista, compositor, fundador da escola de portuguesa Hot Clube – há pouco no mundo do jazz que o músico Zé Eduardo não tenha experimentado. Hoje vai estar na Casa Garden, com a sua banda, para um concerto. No domingo, dirige um espectáculo inédito com mais de 50 músicos de Macau. Antes de abandonar o território quer estabelecer uma parceria entre a sua associação e grupos locais.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Macau não é novidade para o português Zé Eduardo. No entanto, a quinta visita ao território trouxe-lhe surpresas: aqui encontrou uma comunidade de jovens músicos de jazz, com formação e à procura de aprender mais.

É com eles que vai participar no primeiro concerto conjunto de todos os músicos de jazz de Macau, a decorrer no domingo, na Fortaleza do Monte – um espectáculo com mais de 50 talentos.

Num contexto mais intimista, Zé Eduardo e a sua banda vão estar hoje, às 22h, na Casa Garden. O colectivo de Macau The Bridge e o baterista italiano Pietro Valente completam o cartaz.

– Já esteve em Macau várias vezes, ainda com o antigo clube de jazz. Com que ideia ficou do que era o panorama musical – e do jazz em específico?

José Eduardo – Estive em Macau pela última vez em 2003. Antes disso estive em 2001, também a convite do clube de jazz. Ainda antes estive em 1996 e antes disso – creio que sempre a convite do clube de jazz, vim cá com o Rão Kyao em 1979. É a quinta vez que cá venho. Em 1979 não havia nada, fazia-se um festival porque havia meia dúzia de pessoas portuguesas interessadas, talvez um ou outro amigo inglês de Hong Kong. Em 1996, conheci os músicos que fazem parte do grupo The Bridge, e que felizmente ainda estão todos a tocar. Em 2001, já depois da transição, já foi diferente: muita participação de pessoas daqui, chineses de Macau. Cheguei a fazer uma orquestra e eram quase todos chineses, com alguns portugueses. Em 2003 ainda mais.

– E agora?

J. E. – Deparei-me com um grupo de malta muito jovem daqui. Para cada dois ou três portugueses há para aí 100 chineses que são praticantes de jazz. Já são pessoas a quem se pode falar na linguagem jazz, já estudaram, já sabem umas coisas, querem aprender mais. Pela primeira vez em Macau há uma geração muito jovem, local, treinada, que vêm de conservatórios e escolas de música, não são curiosos, são músicos, pessoas que lêem música e tocam. Isto é totalmente novo, nunca tinha acontecido. É muito positivo, acho incrível. Nunca pensei ir dirigir duas big bands em Macau e estar a ensaiar perto de 50 pessoas.

– O que nos traz para o concerto de hoje?

J. E. – O concerto é com a minha banda e é um projecto que tenho desde o ano passado. É um grupo mais arrojado em termos de concepção jazzistica, é actual, não fazemos jazz antigo. Fazemos uma coisa mais moderna dentro da tradição do jazz. Não somos experimentalistas. Conhecendo o público de Macau, tive isso em conta. Em Portugal, em certos ambientes, somos muito mais experimentais do que vamos ser aqui.

– Aqui é melhor não o ser?

J. E. – Sim, porque conheço o público.

– É mais conservador?

J. E. – Claro. E não vale a pena vir para aqui armar-me em parvo. Sou um ‘entertainer’, as pessoas pagam-me para ver uma coisa que em princípio vão gostar, não é para eu as estar a provocar. Posso fazê-lo em Portugal, em clubes pequenos em que as pessoas sabem que vão ser provocadas. Aqui é um espectáculo de acordo com o que sei que as pessoas gostam.

– Que expectativas tem para o concerto de domingo, em que vai tocar com cerca de 50 músicos de jazz de Macau?

J. E. – Aconteça o que acontecer, vai fazer história, porque é a primeira vez. A priori, as expectativas são elevadas. Pela primeira vez – posso dizer isto porque conheço muito bem o público de jazz de Macau – vai estar muito mais público chinês do que português. Porque estes miúdos vão levar as famílias, as irmãs, os pais, os primos, os tios, as namoradas. A grande população da cidade de Macau ainda está um bocadinho de costas viradas para o jazz porque não se identifica tanto com esta música. Mas quando os filhos começam a tocar, as pessoas vão.

– Segue a evolução do jazz no Oriente?

J. E. – Sigo muito. Em 2003, toquei com um músico de Hong Kong, o guitarrista Eugene Pao. Este ano, achei por bem não convidar ninguém porque não tenho tempo. Vou ensaiar os músicos todos e de caminho vem a minha banda tocar. Mas os meus músicos chegam na sexta-feira [hoje], eu já cá estou há quase duas semanas. Eles vão-se embora logo a seguir e eu se calhar fico mais uma semana por minha conta porque esta malta toda quer aulas. Nunca tinha visto nada assim em Macau e ainda bem.

– Não equaciona uma parceria da sua escola com Macau?

J. E. – Sim, vou fazer a parceria. Entre a minha associação, que é reconhecida pelo Ministério da Cultura português, e esta associação de Macau, que é exactamente igual à nossa – chama-se Associação de Promoção do Jazz de Macau. É sem fins lucrativos, de músicos para músicos. Há outra associação que estou a ensaiar, que é dos regentes de banda, porque a maior parte desta miudagem estuda nas chamadas bandas tradicionais, as “marching bands”. Pelo menos com uma delas vou fazer uma parceria.

– A ideia é fazer intercâmbios?

J. E. – Obviamente. Todos os anos levo alunos para fora, para workshops em países da Europa. Ultimamente tenho levado para Espanha porque é mais barato, é ali ao lado – se calhar para o ano levo-os ao Montijo. Porque não pegar em pessoas daqui e levá-las à Europa? Se o Governo de Macau puser malta chinesa em Portugal, eu levo-os a qualquer sítio.

– Tem ideia de quando é que essa parceria poderia começar?

J. E. – Pode começar já a partir de 2013. Queria assinar, já antes de me ir embora, o protocolo com uma das associações. A ideia seria estabelecer este tipo de parcerias contando com o nosso know-how, já que estamos um pouco adiantados neste assunto – aqui, embora haja muita gente, está tudo a começar. Ao contrário de Portugal, onde já há quatro licenciaturas em jazz. Depois desta iniciativa do Instituto Cultural de dar espaço no Festival de Música de Macau às bandas locais, só falta arranjar possibilidades para estas pessoas poderem continuar a estudar.

– O actual panorama económico está a afectar a aprendizagem e estabelecimento de músicos em Portugal ou a situação foi sempre difícil?

J. E. – Sou músico profissional há mais de 30 anos. Com excepção daqueles que têm a sorte de estar numa orquestra sinfónica ou numa banda militar, a malta está a dar aulas. O que os músicos de jazz estão a fazer é a criar outros professores, porque não há saídas profissionais.

– Há menos pessoas a ingressar nos cursos?

J. E. – Digo-lhe pela minha escola: agora quem vai ter aulas de jazz é a malta que está instalada na vida, com 50, 60 anos. Têm rendimentos, mas não suficientes para irem para as Ilhas Fiji com a mulher e os filhos, então vão aprender. Sai-lhes muito mais barato e dá-lhes muito mais compensação por dentro. Cada vez mais tenho alunos mais velhos. O ensino, como toda a sociedade portuguesa, está a levar um safanão do qual vai demorar muitas décadas a recuperar.

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