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“Temos de lutar pelos talentos locais”

Inaugura hoje mais um Salão de Outono, a grande exposição anual dos artistas de Macau. Até 25 de Novembro, a mostra oferece ao público pintura, gravura, escultura, fotografia, instalação e vídeo. E apresenta novos e promissores criadores.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Na 3ª edição do Salão de Outono – a mais importante exposição conjunta dos artistas de Macau – a AFA (Art Fot All society) e a Fundação Oriente lançaram um cuidadoso olhar sobre os novos talentos. Vão estar expostos 69 trabalhos, de 36 artistas, muitos deles jovens, tanto em idade como em currículo. A exposição reflecte, não só a iniciativa dos artistas locais, mas também o processo de selecção da organização, que tentou reunir “pessoas novas, como trabalhos frescos, mais maduros, diferentes”.

Ana Paula Cleto, coordenadora da Delegação de Macau da Fundação Oriente, e os curadores do Salão de Outono Alice Kok e José Drummond sentaram-se à mesa com o PONTO FINAL para falar das novidades da exposição, lançando também um olhar crítico sobre o panorama artístico da cidade.

– Entre os participantes deste ano há muitos nomes novos e, ao mesmo tempo, nota-se a ausência de alguns mais conceituados como Konstantin Bessmertny e Carlos Marreiros. Porquê?

José Drummond – Em Junho começámos a enviar e-mails às pessoas da nossa mailing list, além de anunciarmos nos jornais que as inscrições para o Salão de Outono estavam abertas. Muitas vezes exercemos alguma pressão para que o artista esteja mais atento. Este ano, de algum modo, exercemos muito pouca pressão porque o Salão de Outono acaba por ser uma grande oportunidade para aparecerem novos artistas, que se podem mostrar em conjunto com artistas mais maduros. A minha sensação é que este ano temos coisas muito frescas, de pessoas completamente desconhecidas. Isso acaba por ser uma mais-valia. Em relação a esses nomes, tanto o Carlos Marreiros como o Konstantin Bessmertny são artistas bastante importantes de Macau, mas foram eles que decidiram não participar. Não há aqui qualquer macaquinho no sótão, o Carlos Marreiros está numa exposição colectiva da AFA no MGM, o Konstantin vai participar num leilão em Pequim pela AFA.  A AFA tem conseguido, de uma forma muito continuada, fazer uma série de exposições e os artistas têm a sua produção, não são máquinas. Pode haver alturas em que produzem mais, outras em que produzem menos, e isso tudo é tomado em conta pelo próprio artista quando decide que vai a uma exposição e não vai a outra.

– Entre os novos artistas, há algum nome que gostassem de salientar?

Ana Paula Cleto – Há o Eric Fok, que foi um dos que concorreu ao prémio da Fundação Oriente. Destacaria esse. Mas há outros.

J.D. – Das peças que estão na exposição, acho que há o afirmar de um artista ainda muito novo em idade, mas que começa a revelar uma maturidade na área em que trabalha, a pintura a óleo, muito interessante, que é o Lai Sio Kit. É bom ver que um jovem não tem medo de se aventurar numa grande dimensão. Tem já um grande domínio de técnica e penso que é um dos pontos altos desta exposição. O Pakeong também, ainda é novo e tem umas peças que acho deliciosas. Entre os outros novos [artistas], há aquele capítulo da promessa. É bom sentir que temos coisas frescas, que não estão propriamente presas a determinadas coisas muito tradicionais.

– Esse é um problema em Macau? Os artistas são muito presos ao tradicional?

J.D. – Penso que é uma constante na Ásia. [Tendo em conta] a educação, especialmente na China – e aqui em Macau nem sequer há educação artística –, é natural que se tenha uma visão um bocadinho tradicional. Mas quero destacar a lucidez da Fundação Oriente em fazer um prémio de arte no qual não define géneros. Porque os prémios que têm sido atribuídos aqui são sempre por área e acabamos por ter a pintura a óleo, a pintura tradicional, a caligrafia. A arte dos nossos dias não é tão fechada num estilo, começa cada vez mais a ser uma coisa multidisciplinar.

– Como é feito o processo de selecção?

J.D. – Foi terrível, foi um pesadelo. Juntamo-nos os três [José Drummond, Ana Paula Cleto, Alice Kok] mais o James [Chu] e olhámos para todas as candidaturas, que este ano foram muito mais. Mas acabámos por concordar.

– Têm o número limite de trabalhos que podem expor?

A.P.C. – Temos um número de acordo com o espaço, mas esse não foi o critério principal. O mais importante foi [valorizar] a inovação dos trabalhos apresentados. Tentámos ter não só pessoas novas, como trabalhos frescos, mais maduros, diferentes. A evolução dos artistas também pesou na nossa decisão.

– Têm poucos vídeos. Porquê?

J.D. – Julgo que é porque, depois do Salão de Outono, vamos ter um festival de video art. Acho que muitas pessoas decidiram guardar os trabalhos para esse evento.

– Esperam conseguir atrair público de fora de Macau?

A.P.C. – Fizemos contactos em Hong Kong e com pessoas do meio artístico. Enviámos os convites. Nem sempre é fácil trazer pessoas de Hong Kong ou do Continente. Mas, por exemplo, este ano, por causa do prémio, convidámos um professor de Hong Kong, o que pode trazer mais gente.

J.D. – Temos os nossos contactos na China, os meios de comunicação têm estado a anunciar a exposição há algum tempo. Nós, como associação, tentamos criar melhores condições para os artistas, mas é muito mais fácil com o apoio de instituições como a Fundação Oriente.

– As obras estão à venda?

J.D. – Sim.

– Esperam conseguir algumas vendas? Como é que foi no ano passado?

J.D. – A ideia que tenho é de que sim, fizemos algumas vendas.

– É possível viver da arte em Macau?

J.D. – Depende da área em que se trabalhe. Não se espera que um artista consiga vender um vídeo. E é muito mais difícil vender uma fotografia do que um quadro. Há uma noção generalizada de que a pintura a óleo é mais difícil de executar que uma fotografia. É um trabalho mais tradicional para se ter na sala-de-estar. Mas isso está a mudar. E estas são oportunidades para explorar, mostrar pontos de vista diferentes, formas diferentes de interpretar a arte, para que as pessoas fiquem mais habituadas a ver uma fotografia, um quadro menos convencional. O Salão dá essa oportunidade, de mostrar uma abordagem mais tradicional juntamente com uma contemporânea.

– Há já um mercado de arte em Macau?

A.P.C. – Acho que não. Para o ano vamos trazer um artista bastante famoso de Portugal e uma das perguntas que ele fez foi ‘Vou vender?’. Respondi-lhe: ‘Se quiser vir e mostrar o seu trabalho em Macau, é melhor não estar a pensar nisso’. Porque se uma pessoa ficar a pensar se vai ou não vender, mais vale não vir. Nos anos 1990, quando havia uma exposição, toda a gente queria ser o primeiro [a comprar]. As pessoas compravam tudo. Se alguém queria comprar uma obra de arte tinha de ir no dia anterior, às escondidas. Mas hoje em dia há menos portugueses em Macau, ou melhor, há muitos jovens que não têm orçamento para comprar arte. Os chineses de Macau gostam de peças de arte mais tradicionais. Além disso, a arte está mais cara.

J.D. – A maioria das pessoas não olha para a arte de Macau como um bom investimento. Quando se fala das pessoas de Macau que têm muito dinheiro, são pessoas que não olham para a arte no sentido de gostarem dela, mas sim como um investimento – e obviamente que os artistas de Macau não são um bom investimento. Ninguém sabe o que pode acontecer, há um ou dois que em que cinco anos podem dar lucro. É outro motivo porque esta exposição é importante, tal como a que a AFA vai inaugurar na segunda-feira no MGM. Temos de lutar pelos talentos locais, porque vamos sempre esbarrar nestas paredes até sermos considerados um bom investimento.

– Apesar das dificuldades, pode falar-se de um novo fôlego para a arte em Macau?

J.D. – A cidade está mais vibrante e mais internacional. Isso criou um espaço maior para os jovens se expressarem. Há mais concertos, mais exposições, a AFA está prestes a fazer cinco anos. Mas não é apenas a AFA, é o Albergue, são várias associações que organizam exposições ou espectáculos. Em termos culturais estamos com mais energia, o que é muito positivo.

A.P.C. – Concordo. E isso sente-se. A ideia de expor no MGM foi boa, permitiu-nos entrar num mundo de que normalmente estamos separados. É um mundo com muito dinheiro – e temos de falar de dinheiro porque é preciso vender arte. Os casinos são locais onde os estrangeiros vão e que permitem chegar também a outras comunidades em Macau, os australianos, os americanos, etc.

 

Jovem talento recebe 50 mil patacas

 

Para incentivar os jovens artistas de Macau, a Fundação Oriente instituiu este ano um prémio de 50 mil patacas – o montante deve ser aplicado nas despesas da viagem e estadia do vencedor em Portugal, para onde irá durante um mês.

O melhor trabalho já foi escolhido, mas só será revelado hoje, durante a inauguração do Salão de Outono.

Sete artistas com menos de 35 anos concorreram à primeira edição deste concurso, cujo prémio vai permitir contacto com um artista português à escolha.

“Quando decidimos que o prémio devia ser para jovens, foi porque queríamos ajudá-los a prosseguir o seu trabalho, para que não sentissem que têm de ser outra coisa, de mudar de carreira porque não podem viver da arte”, explicou Ana Paula Cleto, coordenadora da Delegação de Macau da Fundação Oriente.

A responsável chamou a atenção para o facto de muitos destes jovens terem pouco contacto com realidades fora de Macau: “Podíamos ter premiado o artista mais distinto da cidade, mas isso não ia acrescentar grande coisa. É muito melhor se podermos ajudar um jovem artista a sair de Macau. Muitas vezes não o fazem e precisam disso, de alargar os horizontes, ver outros meios de trabalho, outras culturas. Queríamos dar-lhes a oportunidade de viajar, conhecer outros artistas”.

A escolha do vencedor “não foi muito óbvia”, admitiu. Por isso mesmo, o júri decidiu atribuir também duas menções honrosas. O júri do Prémio Fundação Oriente de Artes Plástica é composto por Ieong Chi Kin, Chefe de Departamento da Acção Cultural do Instituto Cultural de Macau, Ana Paula Cleto, James Chu, Presidente da Art for All, pelo artista plástico Konstantin Bessmertny e pelo professor Kurt Chan da Faculdade de Belas Artes da Hong Kong Chinese University.

Os sete trabalhos vão estar expostos no Salão de Outono, apesar de terem um espaço próprio.

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