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“As opiniões de Ai Weiwei não são assim tão radicais”

A norte-americana Alison Klayman passou dois anos com a câmara ligada a seguir as pisadas de Ai Weiwei. O resultado é “Ai Weiwei: Never Sorry”, documentário que mostra o artista e activista mais mediático da China como nunca o vimos. A realizadora destaca o humor e a inteligência de um homem comprometido com a “transparência e a liberdade de expressão”. Ai, aos poucos, está a voltar.

Hélder Beja

Estamos, como Ai Weiwei tanto gosta, a usar o melhor da Internet para comunicar com pessoas noutras partes do mundo. Via Skype, a jovem realizadora Alison Klayman, autora do documentário “Ai Weiwei: Never Sorry”, fala-nos de Nova Iorque. O filme está a correr festivais por todo o globo, depois de ter ganho um prémio especial do júri no mais importante festival independente dos EUA, o Sundance.

Calmamente, Alison explica-nos como o seu caminho se cruzou com o de Ai, como foi acompanhá-lo desde 2008 e da polémica que envolveu os Jogos Olímpicos e o Ninho de Pássaro, até quase ao momento em que foi preso, em 2011. Pelo meio estiveram episódios muito marcantes, como o do terramoto de Sichuan. Tudo para ver num documentário que mostra Ai Weiwei na intimidade e que permite conhecer melhor as ideias do artista e activista mais conhecido e não menos polémico da China contemporânea.

– O documentário segue os últimos anos de Ai Weiwei e da sua produção como artista e activista. Quando vê “Ai Weiwei: Never Sorry” sente que a história dele é inspiradora?

Alison Klayman – Sinto. Acho que uma das melhores coisas de todo este projecto é que há muitas formas diferentes de nos relacionarmos com a história, muitos ângulos – seja a arte, a política, os direitos humanos, a coragem, seja-se chinês, seja-se criativo, jovem, velho, há muitas formas de tocar esta história. Quando vejo o documentário, impressiona-me. É uma história em construção, às vezes as últimas notícias do dia podem transformar o modo como se olha para determinada parte do filme. É uma espécie de trabalho com vida própria, em evolução.

– Quando é que conheceu Ai Weiwei e como é que parte para este documentário?

A.K. – Deparei-me com esta história de uma maneira única e acho que é provavelmente por isso que o filme é como é. Fui para a China quando terminei a universidade, em 2006. Queria viver no estrangeiro, fazer jornalismo e documentário, aprender novas línguas, ter aventuras. Fui para a China em viagem e acabei por ficar quatro anos a viver lá. Foi durante este período que conheci Ai Weiwei, através de uma amiga americana que em 2008 estava a trabalhar numa exposição com material fotográfico da década em que ele viveu em Nova Iorque, no anos 1980. Ela perguntou-me se eu estaria interessada em fazer um vídeo para acompanhar a exposição. Claro que estava com imensa vontade de trabalhar e filmar, e em Dezembro de 2008 comecei ai ir com ela para o estúdio do Ai Weiwei. Nas primeiras semanas que passei com ele, filmei umas 20 horas, que transformei num vídeo de 20 minutos. Algumas dessas filmagens estão no documentário “Ai Weiwei: Never Sorry” e foi durante esse período que senti que tinha conhecido uma pessoa incrivelmente carismática, misteriosa e fascinante, sobre a qual queria saber mais. Fiquei completamente convencida de que ele seria um grande ‘tema’ para um filme, e tive muita sorte de ter estabelecido esta relação com ele. Ele já estava acostumado a ter-me por lá, a filmar, e fui capaz de aos poucos continuar a aparecer pelo estúdio e criar uma relação de confiança entre nós. Foi assim que tudo começou: com uma combinação de sorte, trabalho árduo e intuição. Estive na China aqueles anos, aprendi mandarim e preparei-me para uma oportunidade que pudesse aparecer.

– Mencionou o facto de Ai Weiwei ser muito carismático. Acha que é por isso que tem tantos seguidores? Ou encontra outros motivos para isso?

A.K. – Julgo que uma grande parte do carisma dele é o sentido de humor. Ele é muito eloquente quando fala sobre imensos temas importantes, mas ao mesmo tempo não precisa de estar sempre a levar-se a sério. Tem um modo muito criativo de usar as redes sociais para transmitir este sentido de alegria e optimismo na vida – acho que esse é um dos seus grandes segredos. O outro, julgo que é o facto de ele realmente dizer o que pensa sobre vários assuntos. Na China, é muito raro encontrar figuras proeminentes que falem tão audaciosamente. Ele é um grande modelo no que toca a isso. A combinação de tudo isto é que atrai as pessoas. Também acho que ele é bastante espontâneo, ainda que sabendo como ele trabalha se perceba esta combinação mágica entre espontaneidade e uma grande dose de cuidado e planificação meticulosa. O facto de ele ter este lado espontâneo e de ser um grande comunicador permite-lhe interagir na Internet com as audiências que estão online – e é aí que ele brilha, porque ele é uma pessoa de verdade, que é possível contactar e ter resposta de volta. De repente, Ai pensa em qualquer coisa, uma foto ou um vídeo engraçado, uma frase, e encontra sempre uma forma óptima de reagir ao que é importante em determinado momento.

– Ai aparece no documentário como um homem que está sempre a ter ideias e que usa imenso as redes sociais para transmiti-las. A comunicação foi de facto a base de tudo o que ele conseguiu fazer?

A.K. – Sim. Uma das grandes questões que tinha quando comecei este documentário era se, com toda esta mistura de arte e política, ele estava a tornar-se mais num activista que num artista. Essa questão era um debate muito importante sobre ele. Enquanto fui fazendo o documentário, a resposta a isso veio com aquilo que Ai Weiwei considera ser o papel de um artista na sociedade. Ai acha que um artista deve ser um bom comunicador, deve estar comprometido com o que é relevante no seu mundo e na sua sociedade, deve ser alguém que se exprime livremente e que promove a liberdade de expressão. Acho que a ideia do artista enquanto comunicador comprometido torna fácil perceber como é que Ai Wei Wei pode ser um artista mas ao mesmo tempo continuar com o activismo, porque isso para ele está debaixo do guarda-chuva do que um artista deve fazer.

– Quando se vê o filme percebe-se que a prisão de Ai Weiwei, em Abril do ano passado, aconteceu já depois da rodagem do documentário. É uma espécie de acto final por que toda a gente esperava, mas para o qual ninguém estava preparado. Lembra-se do momento em que soube que as autoridades chinesas tinham detido Ai Weiwei?

A.K. – Acho que nunca esquecerei, estava em Nova Iorque. Mas tem razão, depois das filmagens, no Outono de 2010, trouxe o material para Nova Iorque e pensei que ia começar a editar o filme. Tinha imenso material e uma óptima história para contar, mas imediatamente voltei à China, porque foi anunciada a demolição do estúdio de Ai Weiwei em Xangai – achei que era uma parte importante da história que eu queria captar. Depois disso, passei alguns meses em Nova Iorque a editar o filme e para mim foi uma surpresa total e um choque saber o que lhe tinha acontecido. Não porque não pensasse que fosse possível, mas porque não esperava necessariamente que fosse acontecer. Foi o maior ataque das autoridades a Ai Weiwei, não apenas detê-lo, mas invadir o seu estúdio, mantê-lo completamente isolado. Foi muito chocante a experiência de ter Ai Wei Wei sem poder fazer ouvir a sua voz. Nunca pensei neste filme como um filme sobre alguém que não tem voz. Este filme é sobre alguém que é incrivelmente criativo, espalhafatoso, corajoso. Durante aqueles 81 dias, ele não foi parte das conversas online, não foi parte das conversas no mundo real, e isso foi assustador. Quando soube, estava a uns blocos de distância do meu apartamento, em Nova Iorque, em tinha uma mensagem de alguém no meu telemóvel a perguntar-me se sabia o que tinha acontecido. Foi ao Twitter e comecei a ver as notícias. Comecei a ligar a várias pessoas do estúdio pelo Skype e elas contaram-me que Ai Weiwei tinha sido levado, que ninguém estava com ele, que só sabiam que tinha sido detido no aeroporto. Voltei ao meu apartamento e comecei a twittar todas as notícias, a traduzir os twetts de chinês para inglês, a ligar a outras pessoas, e essa foi a altura em que o estúdio foi invadido [pelas autoridades]. Acho que nessa noite não consegui dormir andas das quatro ou cinco da manhã.

– Durante os dois anos de filmagem, sentiu que Ai Weiwei sempre soube que esta possibilidade de ser detido existia?

A.K. – Umas das primeiras coisas em que pensei foi sobre algo que ele me disse durante as primeiras duas semanas que passámos juntos, em Dezembro de 2008. Ele contou-me uma história sobre como um polícia lhe disse ‘Ai Weiwei, nós podemos fazer-te o que quisermos e não temos de usar acusações políticas para te apanhar. Encontraremos outra forma’. E ele concordou, ele sabia que eles têm todo o poder. Ai tinha muito claro que as autoridades têm a capacidade de fazer o que quiserem de um modo discricionário. Ele também conseguiu prever o que ia acontecer, porque quando anunciaram que ele tinha sido detido por crimes económicos foi quando comecei a pensar nesta história. Foi uma espécie de premonição feita três anos antes. Em todo o tempo em que conheço o Ai Weiwei, nunca pensei que ele estivesse seguro, mas ao mesmo tempo o mistério mais incrível era ‘porque é que este homem não está na cadeia?’. Também lhe perguntei isso nessas primeiras semanas de filmagens, bem como a outros entrevistados. A verdade é que não há resposta, como ele diz no filme. É imprevisível. Mas de um certo o modo, o facto de ele ter ido parar à prisão foi a resposta a isso e o ponto era: pode acontecer a qualquer momento.

– Ele é um homem que acredita em causas. Seja o seu país, a transparência, a liberdade de expressão. Alguma vez conheceu um homem tão comprometido com uma causa?

A.K. – Não sei. Nunca pensei muito nisso e de certo modo não conheço muitas pessoas nesta situação. O que acho fantástico é acima de tudo que as opiniões que ele defende mais fortemente, e que são a base de quase tudo o que ele escreve e faz, essas opiniões não são assim tão radicais. Acho que as pessoas poderão aperceber-se disso e ver Ai Weiwei a outra luz depois de assistirem ao filme. Por um lado, perceberem que ele é muito genuíno na busca e promoção de valores universais, mas também que aquilo que ele está a promover são valores com que todos facilmente concordamos: liberdade de expressão, transparência, um Estado de Direito. Ele não é particularmente partidário de apelar a coisas como ‘vamos fazer um Governo desta ou desta maneira’. Ele é exactamente o que diz que é: um artista comprometido com as suas ideias, e a tentar comunicá-las e promover o diálogo. No final, para mim é isso que ele é: alguém que tem ideias simples e de fácil consenso. Julgo que o filme ajuda a mostrar isso.

– Mantém contacto com ele? Sabe como é que ele está neste momento?

A.K. – Falamos ao telefone de vez em quando, uma vez por mês. Ele também me envia mensagens e eu envio-lhe fotos quando estou a mostrar o filme em algum lugar. Mas o modo pelo qual mais comunicamos é ao lermo-nos um ao outro no Twitter todos os dias. Ele foi citado recentemente dizendo ‘o Twitter é a minha cidade’, e é o que eu realmente sinto quando estou lá. É como se estivesse numa praça pública ou numa cidade com o Ai Weiwei. Julgo que é uma boa maneira de estar em contacto e ali ele também está em contacto com pessoas que viram o filme em todo o mundo, em Abu Dhabi, em Taiwan, pessoas que fizeram o download ilegal do filme na China Continental… Há pessoas de todo o lado com reacções ao filme no Twitter e ele sabe que o filme está a ter esse impacto.

– Ai Weiwei decidiu falar publicamente sobre o Nobel da Literatura, Mo Yan. Julga que isto é um sinal de que ele será capaz de regressar àquilo que estava a fazer antes de ser detido?

A.K. – Desde que ele foi libertado até agora, vejo que neste período ele tem estado a tentar pouco a pouco testar as águas, atravessar a linha e ver quão longe poder ir. Porque estou muito familiarizada com o que ele era antes da detenção, para mim é bastante claro que ele ainda não é o mesmo. Sei que a sua vida não regressou ao que era antes. Ao mesmo tempo, ele continua a pressionar e a dizer coisas incrivelmente provocativas em entrevistas, nas redes sociais… Ele está a voltar a um lugar onde começa a ter uma presença regular. Ai Weiwei ainda está por aí, toda a gente pode contactá-lo, toda a gente pode ler qualquer coisa dele regularmente. É bom saber que ele continua a usar a sua voz. Esta é uma história que continua e ele é uma pessoa real. Acho muito bom fazer um filme sobre uma pessoa assim.

– Parece-lhe que no futuro ele pode pensar em deixar o país e viver no estrangeiro, ou acha que permanecerá na China?

A.K. – Ele sempre me disse que quer ser um cidadão chinês a viver na China, mas capaz de fazer o seu trabalho livremente e de viajar. Esta é a preferência dele. A minha opinião sobre isso – e é apenas um palpite, nada que venha dele – é que isso pode mudar se a vida dele se tornar… se ele não for capaz de ser ele mesmo na China. Foi sempre uma luta, mas se eles continuarem a deixá-lo sem esperança de poder fazer algumas das coisas com as quais ele se preocupa – e que incluem viajar com o seu o trabalho, ser capaz de dizer e fazer coisas, e não ser ameaçado a toda a hora por causa disso – acho que pode haver um limite em que ele poderá considerar a hipótese de partir. Ele nunca me disse isto. Eu sei que a preferência dele é ficar na China.

– Parece-lhe provável que possa acontecer a Ai Weiwei qualquer coisa como aconteceu a Liu Xiaobo, com base nos documentários que faz, naquilo que escreve?

A.K. – Tudo o que aconteceu a Ai Weiwei enquanto estive com ele, toda a escalada… meterem câmaras de segurança à porta dele, encerrarem o blogue, lutas com a polícia em que ele é atingido na cabeça, a detenção… Tudo isso aconteceu nos últimos anos e são reacções para as suas actividades online, aquilo que escreveu, as entrevistas que deu, os documentários, o facto de organizar pessoas. Não são uma reacção à arte que ele expõe em museus. Ele está a fazer o tipo de coisas que levaram Liu Xiaobo e outros activistas à prisão. As acções de Ai Weiwei põem-no nessa categoria. Por outro lado, ele é realmente uma figura única, é um artista e arquitecto mundialmente conhecido, é filho de um poeta proeminente [Ai Qing] que toda a gente estudou na escola, é alguém que tem reconhecimento interna e externamente, e é também alguém que não se deixa assustar facilmente. Ele é esperto e sabe como viver nessa linha, entre ser provocativo mas não ser tolo. Ele conhece a China e o sistema muito bem, e pode tentar perceber aquilo que pode fazer. Por todas estas razões, ele não está na mesma categoria de pessoas como Liu Xiaobo. Ai faz coisas muito semelhantes ao que outros faziam, mas fá-las muito à sua maneira.

– Ai Weiwei também parece poderoso financeiramente? É assim?

A.K. – Mais importante do que poderoso, eu diria independente. E isso é uma peça chave. Ai Weiwei não está dependente de nada na China para sobreviver. Ele não é professor na Academia de Artes, não depende das universidades para publicar os seus livros, ou de uma participação do Governo para construir um edifício. Ai não é apenas independente no modo como pensa, também é independente financeiramente, porque faz trabalhos de arquitectura à volta do mundo, faz obras de arte para museus, coleccionadores e negociantes no estrangeiro. É em grande parte por causa disso que eles não podem colocar mais sobre ele. E julgo que eles podem fazer isso com muita gente: cineastas que trabalham na China, jornalistas. O controlo e a auto-censura são mantidos assim, com essa capacidade das autoridades de ameaçar o sustento de alguém. Ai Weiwei não tem esse problema.

– A dada altura, no filme, Ai diz “sou como um jogador de xadrez”. Com as mudanças políticas que a China se prepara para enfrentar, acha que este jogo de xadrez também está prestes a mudar?

A.K. – Vi o Ai Weiwei poucos meses depois de ter sido libertado, no ano passado. Ele usou essa mesma frase mas disse-me ‘não podemos jogar este jogo da mesma maneira, o jogo mudou e temos de encontrar uma nova forma’. Julgo que isso é o que ele tem estado a fazer desde que foi libertado. As regras do jogo mudaram significativamente para Ai Weiwei antes e depois da detenção. Ao mesmo tempo, acho que agora é preciso ver o que vai acontecer com esta mudança de liderança política. Durante o ano passado e antes, Ai Weiwei estava a par disso e a pensar que efeitos isso teria para a sua situação. Não sei se saberemos imediatamente ou se alguma vez saberemos, mas sinto que houve um jogo de espera até que as condições [da libertação] de Ai Weiwei sob fiança terminassem, um ano depois de sair em liberdade [em Junho do ano passado]. Agora, acho que tem sido outro jogo de espera até à mudança de liderança. Depois disto, veremos. É muito difícil prever.

– O filme tem sido mostrado em muitos países. Gostaria de trazê-lo a Macau?

A.K. – Sem dúvida. Em Hong, mostrámos o filme três vezes esta semana, no Festival de Cinema Asiático, e quero ter uma distribuidora lá. Acho que Ai Weiwei tem muito mais reconhecimento em Hong Kong. Em Taiwan já temos uma distribuidora e o filme vai estrear nos cinemas este mês. Espero que alguém seja suficientemente corajoso em Hong Kong para dar às pessoas mais possibilidades de verem o filme. Em Macau não sei se será possível, mas quero muito mostrar o filme aí. Sabemos que não poderemos fazê-lo na China [Continental], então quero fazê-lo o mais próximo possível.

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