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“A globalização ainda não exerceu o poder total sobre estes lugares”

Mina Ao inaugura para a semana a exposição “Here or There” na galeria da Livraria Portuguesa. São imagens que traçam linhas invisíveis entre Macau e as velhas cidades de Israel. A fotógrafa de Macau, radicada no Canadá, olha o avesso da globalização.

Hélder Beja

O que é que Macau tem que ver com Jerusalém ou Telavive? Assim à partida, nada. A não ser que uma fotógrafa local case com um país como Israel depois de casar com um homem da mesma pátria. Mina Ao, actualmente a viver no Canadá, é a autora de “Here or There”, mostra que inaugura a na próxima sexta-feira, 23 de Novembro.

EM 27 pares de fotografias, algumas agrupadas numa mesma peça, a artista sugere paralelismos entre a vida acontecer em Israel e Macau. São momentos do dia-a-dia, são pessoas, muros e coisas que parecem dizer o mesmo apesar de separadas por muitos quilómetros.

Em entrevista, Mina Ao fala de como descobriu a cultura judaica e do modo como as cidades e aqueles que as habitam começaram a desenhar esta ponte entre Macau e Israel, longe dos arranha-céus mas perto do coração.

– No texto que apresenta a exposição “Here or There”, diz que enquanto fotografava Macau e as várias cidades de Israel não pensou nestes paralelismos que agora podemos encontrar nas fotografias de dois lugares tão distantes. Quando é que percebeu as semelhanças entre o que tinha encontrado em Macau e em Israel, ao ponto de querer fazer uma exposição?

Mina Ao – Durante as viagens entre estes dois lugares, houve uma vez em que parti de Macau, fiz um ‘stopover’ de dois dias de Nova Iorque e voei para Israel. Essa foi a viagem mais recente que fiz a estes dois lugares, antes deste regresso que agora faço a Macau. Acho que foi essa viagem que me deu a ideia desta exposição. Comecei a ver os meus arquivos e as pastas com as fotos de Macau e de Israel. Fui saltando de uma pasta para a outra e comecei a ver algumas coisas, algumas semelhanças. Lembrava-me de todas a fotos que tinha tirado e comecei e associá-las, a lembrar-me que tinha fotografias semelhantes. Foi este vai e vem, de uma pasta para a outra e de um lugar para o outro, que criou estes pares. Ainda não terminei de emparelhar as imagens, mas já tenho material suficiente para uma exposição.

– Qual é o significado ou o objectivo deste exercício de colocar lado a lado imagens de Macau e Israel?

M.A. – Além de estar nestes dois lugares, aprendi qualquer coisa sobre mim mesma, sobre o modo como fotografo e interajo com novos ambientes. Israel era um lugar novo para mim e eu estava a responder a tudo o que acontecia, estava a fotografar muito. Era quase como um reflexo. Em Macau, porque já saí de cá há bastante tempo, as coisas a que eu estava acostumada tornaram-se muito interessantes. Andava pelas ruas e dava por mim a reagir às coisas que via e a fotografar. Essa é uma das coisas que encontro quando volto a olhar para estas fotografias. Por outro lado, é uma jornada pessoal, com descobertas que fiz, descobertas no sentido de coisas em que não pensava sobre as culturas e a sociedade. Comecei a ver padrões interessantes nas fotos.

– Ao tentar explicar o conceito desta exposição, levanta a possibilidade da existência de “ligações invisíveis” entre Macau e Israel. Conseguiu encontrar essas ligações?

M.A. – Ainda não. Sempre me interroguei se haveria alguns laços históricos entre Macau e Israel, no sentido de que talvez alguém de Macau tivesse feito uma grande jornada até àquela parte do mundo, ou vice-versa. Não consegui confirmar isso até agora. Em relação aos nossos tempos, tenho a certeza que há imensas ligações em termos de globalização. As trocas comerciais entre a China e Israel estão sempre a crescer, e também o comércio de Macau com a China. Essa relação está estabelecida em termos económicos. Sobre outras ligações, ainda tenho de encontrá-las. Para já é apenas uma suposição, não faço qualquer conclusão.

– Mas de um ponto de vista pessoal, e para decidir fazer esta exposição, deve ter encontrado pistas que a fizeram acreditar nesta relação, não?

M.A. – Tive a experiência de estar nestes dois lugares, e não estava a viajar como uma turista, a saltar de um sítio para outro. Mesmo em Israel tive a possibilidade de passar tempo, de caminhar pelas ruas, revisitar lugares, voltar a encontrar coisas que achei interessantes e fotografá-las. Julgo que, através da minha experiência, eu própria criei esta conexão visual e estas fotografias. Provavelmente no meu subconsciente já estava alguma coisa a acontecer. Por exemplo, da primeira vez que fui a Israel devem ter havido ressonâncias de algumas imagens de Macau que tinha na minha cabeça, e tirei fotografias disso. Da vez seguinte que visitei Macau, provavelmente vi alguma coisa semelhante ao que tinha visto em Israel e tirei outra fotografia. Foi assim que este exercício mental subconsciente foi acontecendo, acho eu. Até eu acho algumas imagens incrivelmente semelhantes em termos de composição.

– Há também aqui um interesse em reflectir sobre a globalização e o modo como a vida pode ser semelhante em todo o lado?

M.A. – Há muitos ângulos para olhar para isto… Ainda agora referi que a economia cria estas ligações e é claro que muitas vezes estamos a usar os mesmos produtos em países diferentes. Este é um dos aspectos da globalização. Por outro lado, julgo que estes lugares que fotografo ainda não foram completamente ‘globalizados’ ou ‘ocidentalizados’. Como é possível ver nas fotografias, eu registo as zonas velhas das cidades e não os grandes edifícios. Ao fotografar as partes antigas, sinto que vou em busca de qualquer coisa que as pessoas herdaram dos seus antepassados, do modo como eles viviam as suas vidas em Macau e Israel. Estes lugares ainda não foram completamente alterados pela globalização e julgo que, neste momento, o registo que faço mostra como as pessoas, aqui e lá, em lugares tão distantes, encontraram modos tão semelhantes de viver as suas vidas. Não posso dizer que são a mesma coisa, quero ter cuidado por que não quero apagar o modo como as culturas e as tradições são herdadas. Não posso dizer que este pão e aquele pão [aponta para as fotografias] são os mesmos, porque eles têm significados muito diferentes e servem diferentes propósitos. Então, ao fazer estas fotografias, o que acho que elas fazem é dizer qualquer coisa sobre seres humanos e não apenas sobre as culturas. São fotografias sobre como os seres humanos desenvolvem maneiras de fazer as coisas. Não são edifícios ou apenas a cidade, são momentos de pessoas a fazerem qualquer coisa. A globalização ainda não exerceu o seu poder total sobre estes lugares e espero que isso se preserve, porque é precioso para qualquer país ou para qualquer cidade.

– É fácil encontrar semelhanças entre duas cidades nos dias que correm, entre Macau e qualquer outra cidade desenvolvida. Basta ir às marcas que estão por todo o lado, aos arranha-céus, a isso a que chamamos globalização. Mas a Mina não faz isso encontrando imagens que retratam cidades antigas. O facto de estes lugares terem uma grande carga histórica foi o que tornou possível fazer esta associação?

M.A. – Julgo que isso tem muito que ver com o que fiz. Não poderia fazer isto com uma cidade como Nova Iorque, porque nem sequer são lugares na mesma latitude, as vidas são muito diferentes. Israel de algum modo não é assim tão antigo, porque algumas coisas não foram desenvolvidas até que o país começou a crescer. Mas julgo que é suficientemente antigo para que possa fazer-se este tipo de comparação. Além disso, são lugares muito próximos em termos de latitude, em termos de clima. É por isso que é possível ver pessoas em mercados de rua em Macau e em Israel durante o ano.

– Enquanto fotógrafa, deve ser um exercício bem diferente registar um lugar que lhe é novo, como as cidades de Israel, e o lugar onde nasceu, Macau. Sente essa diferença quando olha para as imagens?

M.A. – Acho que aos poucos tenho em Macau a mesma atitude que teria num lugar desconhecido, mesmo com os meus mais estando aqui, mesmo eu conhecendo tão bem este lugar. De cada vez que venho aqui, sinto que estou numa jornada para descobrir coisas, tal como sinto o mesmo de cada vez que vou a outro lugar qualquer. Tenho esta atitude muito aberta: se vejo alguém a fazer alguma coisa que acho interessante, começo a falar com essa pessoa. Em Macau e em Israel comunico com as pessoas. Tento manter a minha mente o mais aberta possível, mesmo em Macau e mesmo quando passo por coisas que julgo que sei o que são. Tento prestar mais atenção, ser mais observadora. Caminho, paro, faço perguntas. Falo muito com as pessoas nas ruas.

– Ruas de Macau que estão a mudar e nas quais provavelmente já nem encontra alguns dos momentos e pessoas que captou nos últimos anos. Acha que a cidade está a transformar-se rapidamente?

M.A. – Definitivamente. Está a mudar muito rápido, basta olhar para quanto o skyline mudou nos últimos dez anos. Está completamente dominado por estruturas que não existiam antes. Tenho a certeza que da próxima vez que eu voltar vai estar diferente outra vez. As coisas acontecem da maneira que têm de acontecer. Tenho pena que as coisas desapareçam, mas estas mudanças iriam chegar um dia.

– Normalmente caminha pelas ruas com a sua câmara. Ainda tem vontade de fotografar Macau?

M.A. – Bastante. Acho que vários temas em Macau ainda não foram desenvolvidos. Há muitas ideias sobre as quais é possível trabalhar. A minha família está aqui e sinto que este é o meu lugar, estou constantemente interessada no que acontece aqui. As coisas que acontecem aqui, as pessoas que vêm aqui e que interagem aqui, darão sempre coisas novas que podem inspirar as pessoas a criar arte.

– Dos 27 pares de fotografias que vai apresentar, há alguma semelhança que a tenha surpreendido quando a encontrou e emparelhou essas fotografias?

M.A. – Nas primeiras fotos, julguei que era apenas uma coincidência, mas quando comecei a saltar de uma pasta para a outra, aos poucos fui sendo guiada para a ideia desta exposição. Até estas imagens que estão no ‘flyer’ da exposição, com o pão… Foi um processo muito interessante. Fotografar estes lugares foi uma descoberta e organizar as fotos foi outra descoberta. Não podia acreditar que tinha tão boa memória do que tinha fotografado, lembrava-me mesmo de tudo.

– A exposição inaugura em Macau. A ideia é levá-la a outras paragens?

M.A. – Sem dúvida. Israel é um lugar e um assunto que interessa a muita gente. Acho que, em certa medida, é outra cidade ao estilo de Nova Iorque, porque há tantas coisas a acontecer ali, tanta cobertura mediática do país… Vou tentar mostrar esta exposição em Israel e nos EUA, mas vamos ver o que acontece. Decidi começar por Macau porque metade das fotos são de Macau e também porque, desde que as pessoas souberam que fui a Israel e regressei viva, ficaram muito interessadas neste lugar (risos). Só quero partilhas as minhas descobertas com essas pessoas. Ao verem estas fotos, poderão fazer essas ligações com um lugar sobre o qual estão interessadas mas do qual sabem muito pouco.

– A sua vida pessoal levou-a a esta relação com Israel e o judaísmo. Até que ponto esta relação influenciou o seu desenvolvimento humano e artístico?

M.A. – Influenciou muito. A cultura judaica baseia-se muito na História. Através do processo de me interessar por ela, acabei por tornar-me mais interessada na minha própria história. Li vários livros sobre a China e Macau e senti que havia tantas histórias fascinantes que nunca tinha aprendido ou das quais nem sequer tinha ouvido falar. Houve um momento em que senti que era de Macau mas sabia pouquíssimo sobre este lugar. Senti que devia aprender mais. O facto de Macau estar a mudar tanto hoje, só faz com que conhecer a História seja ainda mais importante. Através da História é possível perceber em que direcções este lugar pode ir.

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