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O meu primeiro Saramago

Hélder Beja

Tenho a certeza de qual foi o meu primeiro Saramago, mas não tenho a certeza de quando foi. Acho que foi algures entre os 17 e os 19 anos, e sei que o trouxe da pequena Biblioteca Popular da minha terra.

O meu primeiro Saramago foi o primeiro Saramago de muita gente. O “Ensaio Sobre a Cegueira” saiu daquelas estantes da Marmeleira que passaram a encher as paredes da pequena casa do pátio da minha escola primária. Aquela casa do pátio que ainda hoje me lembra o gosto do leite-de-chocolate que nos davam à hora do recreio e de mais aquele que à socapa roubávamos ingénuos pela calada da noite. A mulher do Pacheco Pereira – é sempre assim que chamam a Teresa Calçada na minha terra, ou então Dona Teresa – lembrou-se de abrir ali uma biblioteca e trouxe-me o Saramago. Na minha casa não havia muitos livros. Ela e os meus pais, que os compraram a partir daí, trouxeram-me uma carrada de gente. Agradeço-lhes para sempre.

Hoje José Saramago faria 90 anos se ainda andasse por cá a atazanar os vivos. E hoje, mais que nunca, apetece lembrá-lo e celebrá-lo como o grande escritor que foi, que é, que há-de ser.

A minha relação com Saramago começou por esse livro que abre com um homem a ficar cego ao volante de um carro, num semáforo. Um homem que pega essa cegueira a quem com ele se cruza e que dá cabo do mundo conforme o conhecemos, deixando a uma única pobre a cruz de ver a miséria alheia.

Li aquilo e, sem caganças de achar-me um grande literato que não era e ainda não sou, fiquei a rir-me da mitológica “escrita difícil” com que muita gente se refere àquilo que Saramago fez. Ainda hoje me rio com isso. Ainda hoje há quem continue a usar desse argumento para não lê-lo.

Saramago pede atenção, diz ‘leitor, não seja preguiçoso, se quer ler para adormecer pouse este volume, se quer um leque vá comprá-lo, se quer decorar as estantes isto tem lombada pastel e bem feia. isto dá trabalho e faz pensar, mas isto é também das melhores coisinhas que lhe passarão pelas mãos’. Sim, ele podia dizer isto. Saramago foi muitas coisas. Saramago não foi humilde.

“Ensaio Sobre a Cegueira” teve na minha vida o impacto das coisas grandes que nascem dentro do peito, como um elefante que está sentado numa sala onde nem sequer deveria caber – e ele também acabou a escrever sobre viagens de elefantes, é verdade. Saramago falava da cegueira que praticamos todos os dias e que continuaremos a praticar. Saramago falava da indiferença, da mão estendida sem resposta, da gente violentada à frente de multidões que prosseguem. Saramago falava do individualismo como a grande doença do século. Estávamos cegos de nós próprios. Continuamos cegos.

A minha vida de estudante prosseguiu, voltou a cruzar-se com as páginas do Nobel em textos como “A Jangada de Pedra”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e o “Memorial do Convento”, onde criou essas monumentais personagens que são Blimunda e Baltasar Sete-Sóis. Blimunda dá hoje nome à revista literária que a Fundação Saramago edita a cada dois meses. Sim, Saramago morreu. Sim, Saramago continua por aí.

Hoje, não me interessa uma migalha o homem que foi Saramago. Como não me interessa o homem que foi Céline, o homem que foi Luiz Pacheco, os homens que foram Orwell ou Hemingway – e não estou a compará-los uns aos outros. Digo que não me interessa quando penso nos livros que deixaram. Quando penso neles, nos livros, são eles que interessam. E os livros de Saramago voltaram mais tarde a bater-me fundo com uma coisa pequenina, como normalmente acontece.

Saramago tinha tudo para não ser ninguém e é o único Nobel da Literatura em língua portuguesa. Tinha tudo para não ser ninguém depois de nascer naquela Azinhaga do Ribatejo que nos apresentou em “As Pequenas Memórias”. Um dia, andava eu na universidade, escrevi para o Região de Rio Maior uma espécie de recensão do livro – o Região de Rio Maior foi o primeiro jornal que me viu escrever. Começava assim:

“Lembro-me da pobre casa de meu avô José. Do chão de terra que ali pisávamos e que levou anos a conhecer a cor do cimento. O gado que enchia o curral com a chegada dos primeiros ocasos e a espingarda de caçador inveterado à cabeceira. Eram as duas companhias daquele homem espadaúdo e calvo, pouco dado a afectos mas que chamava pelo meu nome de um jeito que nunca descuidei. Como se o estivesse cantando.”

Isto era e é um pedaço das minhas pequenas memórias que eu, ao engodo, atirava para quem me lia antes de explicar ao que vinha e dizer que – com a devida distância e vénia – podia muito bem ser uma pequena parcela de “As Pequenas Memórias” de José Saramago. E que podia ser também um pedaço das pequenas memórias de qualquer garoto português mais ou menos afortunado, mais ou menos sofrido, mais ou menos felizardo. Mais ou menos especial.

No dia seguinte à publicação da coisa lá no semanário regional, liga-me a minha tia Isabel desfeita em lágrimas – as tias são todas umas choramingas. Que aquela era a homenagem mais bonita que eu podia ter feito ao meu avô e pai dela, que ia guardar o jornal para todo o sempre e mais além. Naquele dia fiquei ainda próximo do Saramago. A minha mãe também chorou. Éramos uma família e tínhamos memórias. Pronto.

Lá fui andando, entre jornais, revistas, livros e entrevistas, até que chegou o dia de finalmente estar na mesma sala que Saramago. Foi sobre esse dia que escrevi aqui no Ponto Final quando Saramago morreu. Esse dia foi o dia de ouvir Saramago falar de “Caim”, a última polémica de uma vida cheia, outra vez com a religião. A Culturgest transbordou, o Nobel disse, o povo encheu-se de fé nos homens e não nos deuses. Era sexta-feira. Nunca esquecerei.

Saramago também falou de Pilar. Sim, porque no meio de tudo Saramago ainda foi um homem que encontrou tempo para amar uma mulher como já não se ama. Isso pouco interessaria agora, não andasse ela por aí a fazer viver as palavras do homem com a força de mil cavalos.

Quando Saramago morreu, a 18 de Junho de 2010, eu já estava em Macau e tive pena. Escrevi assim:

“Saber da morte de Saramago em Macau é, desde logo, ter saudades dos livros que deixei em Portugal, de poder alcançar a estante e recuperar passagens de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, de ‘As Pequenas Memórias’, de ‘A Caverna’ ou ‘Memorial do Convento’. Nem no ofício da escrita Saramago permitiu que lhe dissessem faça assim ou assado, quebrando regras de pontuação, de maiúsculas e minúsculas. E isto sempre a confundir-se com uma erudição que existe mas nunca turva as letras deste outrora serralheiro mecânico – quem diz que os livros de Saramago são difíceis nunca deve ter lido António Lobo Antunes.

(…) Eu, podendo, irei um dia à terra onde nasceu, a Azinhaga do Ribatejo que também é meu, e procurarei essas árvores a que o avô de Saramago se abraçou antes de morrer. Esses avô e avó maternos que “no Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama”.

Para o bem e para o mal, Saramago – que considerava Kafka “o maior escritor” do século passado – foi um homem que lutou pel’A Consistência dos Sonhos, conforme chamaram à exposição que lhe foi dedicada em 2008. E isso é, sempre e para sempre, um atestado de valentia.”

Agora, dois anos volvidos, assinalo novamente em Macau os 90 anos do nascimento do Nobel português. Lembrar-me do dia em que soube da morte dele aqui é perceber que já estou longe dele, da aldeia, do Ribatejo, de Portugal e de mim há muito tempo. É perceber que de facto nem todas as mortes valem o mesmo. Que nem todas as vidas valem o mesmo.

Foi Saramago que escreveu assim: “Eu considero que, se não somos a criança que fomos, pelo menos a criança que fomos gerou a pessoa que somos”. Eu, que não tenho muito a que me agarrar, agarro-me a isto. A consistência dos sonhos é uma coisa de putos que devíamos alimentar para sempre. Mesmo aos 90 anos. Mesmo com um país em chamas. Mesmo. Nunca descanses em paz, Saramago.

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