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No cavalo alado de PSY

O Cubic recebe na próxima quinta-feira o concerto daquele que é o grande fenómeno da pop mundial nos últimos meses. PSY traz o seu “Gangnam Style” a Macau. Um músico e uma professora de dança locais tentam explicar o sucesso.

Hélder Beja

Ney Matogrosso, quando se pôs a cantar o bandoleiro e o cavalo alado, não se lembrou de lhe juntar uma coreografia a calhar. O sul-coreano PSY, muitos anos depois, acertou no olho do furacão. Bem-vindos ao “Gangnam Style”.

amos provalvemente a escrever sobre outra a calhar.iais de que haços de Hong Kong e nos bares manhosos de Macau. Porqiarece ser A sociedade de espectáculos, a bizarria, o voyeurismo and so on. Ok, isso até pode explicar fenómenos deprimentes como “Big Brother”, “Casa dos Segredos” e programas da manhã para velhinhas de casa desperadas. Mas pode isso explicar que um tipo anafado, com roupas ridículas, uma canção da qual o mundo que não é sul-coreano percebe apenas três palavras e uma dança de cavalgadura se transforme num fenómeno global? Macau está prestes a provar o veneno, quando na próxima quinta-feira à noite PSY subir ao palco do Club Cubic, no City of Dreams, para contagiar a assistência com a música mais célebre dos últimos tempos. Os ingressos custam 650 patacas e já estão à venda.

Park Jae-Song, conhecido como PSY, tem 34 anos e é a cara do K-Pop depois do sucesso tremendo do vídeo “Gangnam Style”. Mas há mais de uma década que o homem anda nisto. E não é um menino exemplar. Já foi apanhado com erva, tentou livrar-se do serviço militar obrigatório – ele é uma espécie de ‘enfant terrible’ de uma família abastada.

A Internet foi o grande catalizador deste sucesso de PSY, que hoje é global. Tudo começou em Julho, quando o vídeo de “Gangnam Style” foi posto online. Meses depois, é como um vírus que invade e volta a invadir todas as redes sociais que contam para a matemática do sucesso. Na primeira cena do vídeo, este homem gorducho e de óculos de sol aparece deitado numa espreguiçadeira, a beber um copo, com roupas muito fashion e instalado naquilo que parece ser uma zona ‘VIP’ de uma praia. Estamos no universo PSY.

Depois, o teledisco tem tudo o que têm os mais manhosos telediscos do rap: carros de luxo, iates, roupas catitas, mulheres semi-descascadas e cenários garbosos. Só que, aliado a isto, que seria muito normal, vem uma dose gigante de humor e outra igual de ‘nonsense’.

“Na verdade, não consigo encontrar qualquer razão [para o sucesso]. É apenas um produto pop… Acho que as pessoas pensam que tem graça, acho que isso é o mais importante, o humor”, começa Vincent Cheang, vocalista da banda local L.A.V.Y. Para o artista, “a música é apenas dance-music popular, não é nada de especial”. “A Coca-Cola não é uma bebida saudável, mas toda a gente bebe. Julgo que com o ‘Gangnam Style’ se passa qualquer coisa desse género”, ri-se.

Vincent Cheang, que viu recentemente a sua banda atingir o top do site de vendas iTunes para Hong Kong e Macau, com o disco “My Lonely Journey”, acredita que o concerto de PSY em Macau será um êxito. “Acho que será um sucesso, porque toda a gente conhece esta música. E não há nada de negativo nisso. Ao menos traz-se algum entretenimento a Macau, para que o público que gosta do mainstream possa desfrutrar. Não me parece que isso seja mau.” “Se tiver tempo irei lá para ver o que acontece”, admite o também responsável pela Live Music Association.

Passo simples

A dança de “Gangnam Style” está por todo o lado, dos palcos de Madonna, Britney Spears, Ellen Degeneres e Nelly Furtado ao vídeo surrealistsa do artista e dissidente chinês Ai Wei Wei, que aparece a rodar umas algemas enquanto imita os passos do cavalo. Os passos que PSY trouxe para a música pop estão nos braços do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, nos clubes de Nova Iorque e nas discotecas de Mumbai, nos terraços de Hong Kong e nos bares mais suspeitos de Macau. Porquê?

“Na verdade não é só a dança que chama a atenção. Todo o vídeo tem humor. Todos os passos são simples. O que ele está a imitar é alguém a cavalgar, não tem qualquer grau de dificuldade naquilo. Então, qualquer pessoa pode aprender”, explica a professora de dança Zuleika Greganyck.

“É um conjunto: o humor, a música que prende pelo ritmo. Ele criou esta pequena coreografia fácil, que se identifica logo com o cavalgar e com alguém a lançar uma corda, em qualquer parte do mundo. Associa-se a imagem com uma ideia, rapidamente, e é fácil de assimilar, mesmo que não se seja muito bom bailarino. Acho que é por isso que fica na cabeça das pessoas. Se fosse alguma coisa muito complicada, não ia funcionar.”

A verdade é que funciona e o mundo está a dançar o “Gangnam Style”, ainda mais do que há um ano dançava o “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló. “Associa-se um ritmo que fica na cabeça como uma letra qualquer como aquela do ‘Ai Se Eu Te Pego’… Aqui é a mesma coisa, só entendemos o ‘sexy lady’, mas o refrão é forte, tem batida. Porque é que essa do ‘ai se eu te pego’ fez sucesso? Porque é uma música que tem dez palavras e pronto. É ridículo, mas tem ritmo”, admite a professora de dança.

Zuleika Greganyck lembra que “já faz algum tempo que os cantores e as divas fizeram a dança entrar como parte do espectáculo da pop. Nos vídeos, quando se associa à música um passo simples que as pessoas vão conseguir lembrar, aí então é que pega, é importante. O ‘Gangnam Style’ fez sucesso por isso.”

Fez sucesso mesmo quase totalmente cantado em sul-coreano. “As pessoas não entendem o que ele está a dizer, mas há esta combinação de factores”, vinca a professora.

Como disse?

Hoje, é normal que qualquer concerto de PSY na Coreia do Sul tenha 30 mil ou mais espectadores. Como são normais ajuntamentos junto à Torre Eiffel para vê-lo ou toda a loucura imaginável em programas de TV dos Estados Unidos da América.

O género ‘guang-dae’ é o estilo que PSY cultiva dentro do K-Pop. É um estilo mais clownesco, em que os artistas não têm de ser especialmente belos ou sensuais. Eles têm de ter graça. E PSY tem. Além disso, o ‘guang-dae’ é também conhecido pela crítica à aristocracia sul-coreana. Para nós, que além de “sexy lady” e “style” não entedemos uma palavra do que está na música, “Gangnam Style” pode ser apenas divertida, ridícula até. Para aqueles que a percebem, é também uma crítica à sociedade hiper-materialista do país e a corrupção instalada nas esferas de poder – não só político mas também económico. PSY goza com os ricos e com os bairros ricos do seu país, e isso é qualquer coisa invulgar na Coreia do Sul.

Gangnam é um bairro de Seul, onde vivem as elites. É um bairro que, pelos preços imobiliários que ali se praticam, vale mais que toda a cidade de Busan, a segunda maior do país, contabiliza o Wall Street Journal. Uns 41 por cento dos estudantes da muito prestigiada Universidade de Seul vêm de um único bairro: Gangnam. Isto torna-se mais irónico quando sabemos que PSY vem de uma família muito abastada, que estudou no norte-americano Colégio de Música de Berklee, que foi um menino bem. PSY esteve dentro de Gangnam e sabe do que fala, agora que o satiriza no seu vídeo.

A crítica estende-se da música ao cinema, com filmes como “The Taste of Money”, de Im Sang-So. E o sucesso de PSY também não é isolado: o filme “The Thieves”, parcilamente rodado em Macau, é o maior campeão de bilheteiras da história da Coreia do Sul e está a internacionalizar-se cada vez mais.

“As pessoas estão surpreendidas – estupefactas, na verdade – com a sua popularidade no estrangeiro. Há pessoas a dizer ‘temos todos estes rapazes e raparigas bonitas que tentaram entrar no mercado dos EUA e tiveram pouco sucesso. Porquê o PSY?’ Mas claro que estão a acolher isto totalmente, e isto está a causar renovado interesse e respeito pela sua música”, diz ao Wall Street Journal Susan Kang, directora do site Soompi.com, dedicado ao K-Pop.

Apesar do sucesso internacional, o vídeo, a coreografia e a música de PSY são totalmente apontados ao público sul-coreano. E talvez esteja aí o segredo do sucesso: PSY não fez música sul-coreana que tenta a agradar a audiências estrangeira. Fez K-Pop sul-coreano para sul-coreanos e os estrangeiros adoram-na.

“O meu lema é ‘sê engraçado mas não estúpido’”, disse PSY à agência de notícias sul-coreana Yonhap. As opiniões dividem-se na hora de qualificá-lo como uma coisa ou outra. O sucesso, esse, é certo.

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