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“A câmara é o meu corpo”

DSC_8404Isaac Pereira mostra “Akhromatopia” no Albergue SCM. Uma exposição preparada exclusivamente para Macau, que reúne 13 obras fotográficas a preto e branco, com um sentido comum: “Criar espaços de reflexão e pensamento”.

Pedro Galinha

“Akhromatopia” é uma cidade imaginária, nascida dentro de uma galeria. Cada parede é um subcapítulo da história que Isaac Pereira vai contando através de 13 obras fotográficas a preto e branco.

“Digamos que é a síntese de todos os lugares por onde tenho passado”, começa por explicar ao PARÁGRAFO o autor de 46 anos, que desde 2010 reparte a vida entre Portugal e Macau.

A exposição agora patente no Albergue SCM, até ao final do ano, é o resultado de viagens pela Ásia, Europa e África. Desta imensidão, Isaac Pereira pretende “criar espaços de reflexão e pensamento”.

“Vou fotografando por aí e não trabalho a partir de um conceito prévio. A câmara é o meu corpo e, por onde estou, ela está comigo. Tenho tentado questionar qual é a identidade dos lugares, até que ponto podemos tirar as suas referências e identificações para fazermos deles nossos”, conta.

Isaac Pereira assume que a “natureza ficcional” dos trabalhos que expõe é “muito forte” e o conteúdo das histórias que tenta narrar “altamente subjectivo”. No entanto, a carga emocional é concreta, assume. Talvez por isso tenha optado pelo preto e branco: “Vejo a cores, mas sinto e penso a preto e branco. Porquê? Porque num tempo em que consumimos demasiadas imagens, acho que há que reduzir a imagem àquilo que ela nos pode dar. Depois também há um lado plástico, no qual me revejo melhor”.

À imagem, Isaac Pereira juntou a palavra – a exposição é acompanhada por textos da sua autoria – e alguns cuidados com a luz. “Em função das condições que tinha para montar esta instalação, tive de optar por uma luz mais quente. As fotos são a preto e branco e assim cria-se uma maior proximidade entre o objeto e a imagem”, justifica.

Todos os trabalhos presentes no Albergue SCM – imagens isoladas, mas também um tríptico, um quadríptico e três dípticos – foram revelados em película fotográfica, no laboratório caseiro de Isaac Pereira. “Uma imagem destas duras mais de 200 anos, mesmo expostas a um sol intenso. Escolhi este suporte porque tenho a preocupação de proteger a fotografia, numa altura em que a imagem está um pouco banalizada”, conta.

Carreira em crescendo

Isaac Pereira sempre foi um entusiasta da fotografia, mas há 15 anos começou a ver este passatempo com “outros olhos”. Ainda que garanta que está longe de nomes consagrados, deixa antever que persegue o seu lugar como autor.

“Estou a construir um caminho pessoal, que será longo, mas que não me assusta e dá imenso prazer”, diz.

Até ao momento, o fotografo já realizou quatro exposições em Portugal e conta no currículo com residências artísticas na Índia, em Marrocos e Singapura. “Também criei peças de autor para teatro experimental. Algumas das imagens que tenho [no Albergue] foram captadas na Índia e exibidas numa peça, num lavadouro público”, confessa.

Em Macau, a história de Isaac Pereira começou a ser escrita em 2000, quando chegou pela primeira vez. Por cá, trabalhou como jornalista, mas a prioridade actual passa por projectos na área da fotografia: “Realizei dois workshops em Janeiro e Fevereiro, antes de ir a Singapura, com jovens locais chineses. Foi uma experiência fantástica, a todos os níveis. Desses workshops nasceu uma associação de fotografia. Agora, gostaria muito de poder realizar outros projectos e pensar em novas iniciativas. Tenho algumas ideias e há coisas a avançar”.

: DESTAQUE :

“Vou fotografando por aí e não trabalho a partir de um conceito prévio. A câmara é o meu corpo e, por onde estou, ela está comigo. Tenho tentado questionar qual é a identidade dos lugares, até que ponto podemos tirar as suas referências e identificações para fazermos deles nossos”, conta o autor de “Akhromatopia”.

“É importante que as imagens deixem de estar escondidas no computador”

O apelo é de Isaac Pereira e serve de motivação para os milhares de fotógrafos amadores que existem em Macau. “É importante que as imagens deixem de estar escondidas no computador”, sugere o autor de “Akhromatopia”. “Não é relevante se trabalhamos em digital ou analógico. As imagens são para serem vistas”, acrescenta. O fotógrafo admite que o advento do digital abriu a porta a mais potenciais autores. No entanto, deixa um alerta: “Da mesma forma que uma caneta de bico de ouro não escreve o melhor romance, na fotografia, não é a melhor câmara que faz um fotógrafo”.

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