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A vídeo arte de questionar

p301112Fabian Heitzhausen e Maximilian Schmötzer são a dupla alemã vencedora do VAFA – Video Art For All deste ano, com “The Conversation”. As imagens de “2001 – Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, pintam uma discussão sobre o que é a arte. A mostra, que inaugura amanhã às 18h30, na Casa Garden, apresenta vídeos que questionam não só a criação artística como o modo em que vivemos.  Os vencedores, o português Bruno Ramos  e a taiwanesa Liao Chi-Yu falam sobre os seus trabalhos.

 

Hélder Beja

 

Artur C. Clark escreveu o conto “A Sentinela”, Stanley Kubrick dirigiu o já filme de culto “2001: Odisseia no Espaço” e agora Fabian Heitzhausen e Maximilian Schmötzer, dupla de artistas vídeo da Alemanha, fizeram “The Conversation”. É este o trabalho vencedor do festival VAFA – Video Art For All, organizado pela AFA e pela Fundação Oriente. “The Conversation” é um dos 13 vídeos que estarão em exposição na Casa Garden a partir de amanhã.

A obra mostra-nos cenas do filme de Kubrick em que dois astronautas conversam entre si e com o computador que controla a nave, o mítico HAL 9000. Por cima dessas imagens, duas vozes discutem os princípios da arte, o que é e o que não é arte, o que é que torna determinada coisa arte e outra não.

“Ambos admiramos o trabalho de Stanley Kubrick e sentimos que o filme ‘2011’ nos dava o contexto e a ambiência perfeitas para o discurso que ocorre durante o vídeo. Acho também que o trabalho original coloca questões muito gerais, de um modo que nos inspirou a pensar sobe as questões que surgem enquanto fazemos a nossa arte”, explica Fabian Heitzhausen ao PONTO FINAL por email.

Heitzhausen é o representante da dupla em Macau, onde está para receber o prémio, mas Maximilian Schmötzer também comenta a importância do filme do cineasta norte-americano para a criação de “The Conversation”. “Influenciou-nos porque na camada visual apenas lidamos com excertos de ‘2001’ que cortámos e juntámos. O conteúdo do filme de Kubrick pode servir como uma fonte rica de outros significados para o nosso vídeo, mas isso funciona mais como um extra. No filme de Kubrick, o computador enlouquece, por exemplo”, aponta Schmötzer.

A dupla de artistas decidiu partir de uma das obras mais conhecidas do autor de “Clockwork Orange” e “The Shining” porque lhe pareceu que “fazia todo o sentido apropriar Kubrick”, continua Maximilian Schmötzer. “Dois homens e um computador ‘humano’ numa missão pela infinidade do Espaço, numa estação chamada ‘Discovery One’, que se assemelha a um falo enorme. O solo firme, se é que realmente existe, apenas pode ser mantido enquanto a nave for rodando – e essa é a única coisa em que se pode confiar.”

Isto, acrescenta Fabian Heitzhausen, “funciona muito bem a diferentes níveis com o tipo de questões que estão a ser discutidas” em “The Conversation”. Às imagens de Kubrick juntam-se as ideais de Arthur C. Danto, crítico e filósofo norte-americano, para quem o contexto é importante em qualquer obra de arte, revela o autor. Ao escolherem “2001” como background da conversa que têm durante o vídeo, os autores já estão a condicionar e a dizer alguma coisa sobre essa mesma discussão.

Como se responde, então, à grande questão levantada em “The Conversation”: o que é arte? “O vídeo não responde totalmente a isto e eu provavelmente também falharia. Danto apontaria sempre as condições de interpretação que tornam possível que olhemos para algumas coisas como arte. Às vezes prefiro citar o artista germânico Peter Roehr, que disse ‘Não sei se isto é arte, mas que mais poderia ser?’, diz Fabian Heitzhausen

Durante a conversa de “The Conversation”, Claes Oldenburg e Robert Rauschenberg, dois artistas que trouxeram para a arte objectos e abordagens que antes não eram consideradas arte, são várias vezes citados pelas duas vozes. Maximilian Schmötzer elucida que “a inclusão ou a transferência de objectos banais, do nosso dia-a-dia, para obras de arte institucionalizadas é uma abordagem artística que existe agora e só deus sabe até quando vai durar. No nosso vídeo, várias coisas colidem e intervêm: uma fotografia e o seu design dos anos 1960, uma teoria da arte, algumas questões de género, dobragem amadora ao estilo YouTube…”.

Fabian Heitzhausen, que já está em Macau e no domingo partilhará com o público o seu processo criativo, diz-se “muito interessado na cidade, nas pessoas e certamente em artistas que têm a Ásia como base”. “Acho fascinante e maravilhoso que o vídeo que fizemos seja do agrado de outras pessoas com diferentes backgrounds culturais.” Durante a estadia em Macau, o artista não tem qualquer plano específico para filmar a cidade, mas admite que provavelmente tirará um sem fim de fotografias. “Será provavelmente esmagador no começo, e olhar através da câmara é sempre uma boa maneira de aprender sobre o mundo.”

 

A fábrica da vida

 

O júri do VAFA – composto pelo director do festival, José Drummond; Rui Calçada Bastos, artista português com base em Berlim; Bianca Lei, de Macau; João Vasco Paiva, de Hong Kong; António Da Câmara Manuel, curador e fundador dos festivais FUSO e Temps d’Images em Portugal; e Irit Batsry, artista que representa o festival Videobrasil – colocaram o vídeo “The Factory”, de Bruno Ramos, como o segundo mais votado.

O artista português a viver em Londres filmou a vida de um homem que habita uma fábrica que vai desmantelando para vender o ferro-velho e fazer desses ganhos o seu meio de subsistência. “Este vídeo foi feito com o filme documental em mente, mas subvertendo a linguagem. Como filme documental, não tem um determinado número de coisas que está convencionado que o documentário tem de ter, como grandes planos ou mais informação sobre a personagem principal. Normalmente o documentário tradicional que se vê na televisão é filmado de uma maneira ‘point and shoot’ e aqui não”, diz Bruno Ramos ao telefone desde a capital britânica.

Durante um longo período, o artista conviveu com este homem identificado como P. Sylva, um homem “com dependências e que se prostituiu por dinheiro”. “Tive uma fase muito longa para conhecer a pessoa que filmei e só depois é que levei a câmara. A parte filmada já foi muito tarde no meu relacionamento com esta pessoa. Há uma boa dose de fabricação no vídeo. Não no que é dito, mas visualmente. Apesar de ele viver no sítio onde é filmado, todas as aquelas acções foram fabricadas, encenadas. Nesse sentido, subverto a linguagem documental.”

O que interessou a Bruno Ramos não foram tanto as dependências ou o passado daquele homem, mas o modo como vivia, a ideia de alguém que habita um lugar que vai desmantelando aos poucos, para vender e sobreviver. “Ele vende ferro-velho. Durante o dia anda a tentar encontrar ferro, junta-o todo e depois vende. O facto de viver numa fábrica abandonada que foi desmantelando ao longo do tempo: era isso que queria filmar, esse trabalho de desmontar aquela fábrica peça a peça”, explica.

Bruno Ramos venceu a última edição do festival português FUSO com este “The Factory”. A obra tem pouca pós-produção e afasta-se de algumas das correntes da vídeo arte, mais experimentais. “O número de planos que filmei é exactamente o que está no filme. O filme aparentemente é só um plano, mas no fundo são quatro planos editados de maneira a que pareça só um. E foi só o que eu filmei”, continua. Por isso, a pós-produção foi  fácil e sem recurso a quaisquer efeitos. “A música que o vídeo tem é tocada e cantada por uma das personagens, porque eles são dois, aparece um num fim. Aliás, há um diálogo permanente durante o filme e são duas pessoas que estão a falar entre elas. Pensei o filme ao máximo para não ter de trabalhar muito na pós-produção.”

Ramos, que visitou Macau este ano pela primeira vez, diz identificar-se mais com a vídeo arte que com o documentário, apesar de este estar muito presente na sua formação. “Sei que o meu filme não é puramente vídeo arte,  mas acho que há uma tendência geral para haver uma aproximação entre o documentário e formas de expressão mais experimentais. Acho que são dois géneros que caminham para estarem cada vez mais próximos.”

 

De corpo inteiro

 

Há alguns repetenes nesta edição do VAFA e Liao Chi-Yu, artista de Taiwan, está entre eles. Segunda autora mais votada na edição do ano passado, Liao volta a chegar à exposição, desta feita com “Take Care”, um vídeo em que tenta interpretar três papéis: paciente, enfermeira e médica. Através de três canais que nos são mostrados simultaneamente, vemos Liao num cenário estilizado e meio bizarro, interpretando cada uma destas personagens.

“O meu corpo está sempre presente nos meus trabalhos”, começa a artista. Desta feita, “Take Care” “tenta captar e retratar a tristeza inesperada e o sentimento de perda nas nossas vidas. O trabalho é composto de depoimentos e imagens de personagens fictícias, que representam um certo estatuto na vida de cada um.” Flashbacks e fragmentos são introduzidos numa história que quer mostrar-nos que “o bom e o mau da vida podem coexistir”. “Esses incidentes menores e tristezas podem ser uma aflição, mas podem também ser um ponto de partida para descobrir o que é realmente a felicidade.”

Através de cenários pré-seleccionados e de indumentárias “irreais”, Liao Chi-Yu faz por destacar as emoções e as experiências das personagens que incorpora. Desta forma, acredita, é capaz de “realçar os conflitos que existem na vida real”.

A artista foi um dos nomes selecionados para representar o VAFA no último festival FUSO, em Portugal, com o trabalho “Twinkle series- Lydia, Elena, Hina”. “Estou muito contente por poder, enquanto jovem artista, mostrar os meus trabalhos em diferentes exposições de muitos lugares do mundo”, refere.

 

Outros nomes

 

A exposição do VAFA conta ainda com trabalhos como “Urban Scene: Petrol Station”, da sueca Ninia Sverdrup, 12ª peça de uma série sobre o tempo, e a percepção do tempo e do espaço que a autora vem desenvolvendo. A uma câmara fixa que capta momentos do quotidiano, Ninia Sverdrup acrescenta depois uma camada sonora que dá densidade vídeo. Desta feita, as imagens da bomba de combustível que durante a noite recebe todo o tipo de visitantes são depois repensadas durante o trabalho de pós-produção, ganhando novos significados.

Outro dos destaques é “Adiós Amigo”, de Sergio Belinchón, que revisita o imaginário do oeste americano nas planícies de Huesca, em Espanha, onde durante os anos 1970 e 60 foram filmados dezenas de western spaghetti. Ao voltar a este território mítico do oeste, o artista renova também a ideia da busca da terra prometida.

O trabalho de Tatiana Macedo, “Like Picking Leaves In The Forest (or The Museum of Man)”, que se move pelas galerias de arte e o modo como as apercebemos; e “The Fall”, de José Carlos Teixeira, que nos leva para o palco e para todas as questões que levanta o acto de interpretar e estar em cena, são outros dos vídeos patentes na mostra do VAFA. Para ver até 6 de Janeiro.

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