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África contada em imagens

p071212Dos Camarões a São Tomé e Príncipe e a Marrocos, do continente negro ao Norte branco e muçulmano, das crenças religiosas à vida de todos os dias. “África: Ver-se e Dar-se a Ver” habita o Museu de Arte de Macau até Fevereiro. Fernandes Dias esteve na génese da ideia para a exposição fotográfica. Inês Gonçalves e Kiluanje Liberdade fazem parte dos artistas representados. Todos vieram a Macau ajudar a mostrar as muitas faces de um continente em ebulição.

Hélder Beja

Awam Amkpa, curador da exposição “África: Ver-se e Dar-se a Ver” e professor de arte na Universidade de Nova Iorque (ver entrevista nestas páginas), estava no seu país, a Nigéria, quando viu passar um “Mammy Wagon”, nome dado aos camiões de mercadorias que correm as estradas de muitos países africanos. No camião estava a frase “See you, See me!”. Muitos anos depois, Amkpa recuperou aquela miragem para dar nome à mostra que junta 35 autores de 14 países e que apresenta as várias caras de um continente em mudança.

A exposição, que fica no Museu de Arte de Macau até 17 de Fevereiro, revela as escolhas do curador mas, na sua génese, tem também a vontade de José Fernandes Dias, director do Africa.cont, projecto português dedicado à arte africana e que também previa a construção de um Centro de Arte Africana Contemporânea no Palacete Pombal e em três edifícios contíguos, em Lisboa, mas que foi cancelado.

“O resultado final é obra do curador. A única coisa que eu gostava que acontecesse era que houvesse na exposição fotógrafos africanos e não africanos, que trabalhassem sobre o continente. Interessava-me ter esses dois olhares, um interno e um externo”, diz Fernandes Dias, que está em Macau a acompanhar a exposição.

Desta vontade nasceu uma selecção de fotógrafos da Nigéria, Senegal, Marrocos, Moçambique, EUA, África do Sul, Itália, Portugal, Moçambique, Etiópia e vários outros países. “O curador apresentou o projecto e eu gostei muito, porque é uma exposição muito inovadora, um olhar muito fresco sobre a fotografia africana. No Africa.cont, os autores dos nossos projectos são sempre africanos, esse é um dos princípios que nos distingue das semelhanças que há com outras instituições francesas ou inglesas, mas que são depois sempre muito neo-colonialistas nesse sentido. Nós não fazemos isso”, acrescenta o também professor universitário.

Fotografia em três actos

A exposição –  que já passou por Pequim, Lisboa, Roma e Florença, várias cidades africanas e que se prepara para rumar aos EUA –  tem três momentos, como explica Fernandes Dias. “Um primeiro grupo é a fotografia colonial, do século XIX e XX, e que é fotografia etnográfica, com uma preocupação de ‘objectividade’ para mostrar usos, costumes e físicos diferentes; ou com o objectivo um pouco proto-turístico, aquela coisa das imagens exóticas.” De acordo com o professor, na maioria dos casos, estas imagens “têm um lado subliminar que é a carga erótica e sexualizada muito forte”.

O segundo momento da exposição é composto por fotógrafos africanos que se apropriam da técnica fotográfica para construírem a sua própria imagem de África. “Aqui já há um diálogo entre o fotógrafo e o fotografado que não havia na fotografia etnográfica, em que se fotografavam as pessoas como se fossem objectos. Aqui, os fotografados passam a ser sujeitos da fotografia e isso é muito interessante, porque há uma auto-representação dos africanos”, aponta.

Finalmente, num terceiro momento, o curador Awam Amkpa foi buscar fotógrafos não africanos, que trabalham sobre África mas já influenciados pela fotografia africana. “São fotógrafos que seguem uma linhagem que pode ser reconduzida à fotografia africana.” É neste terceiro momento que se inscreve o trabalho de Inês Gonçalves e Kiluanje Liberdade, que fotografaram personagens de um espectáculo de teatro em São Tomé e Príncipe.

Dupla criativa

“Eu e o Kiluange trabalhamos os dois juntos e já fizemos vários trabalhos em África. Este trabalho fizemo-lo em São Tomé e é muito influenciado pelos fotógrafos de estúdio africanos, nomeadamente o Seydou Keita”, começa Inês Gonçalves, que também viajou até Macau. “Estas personagens do teatro que fotografámos usam objectos que são roupas, que têm que ver com a peça e que são do século XVIII e XIX. Nós queríamos que a roupa tivesse algum simbolismo, para além de fazer parte do cenário. É um bocado como o Seydou Keita faz nos retratos dele.”

Neste caso, o simbolismo que a dupla de artistas busca é o do confronto África-Europa. “Como na fotografia em que há um homem com uma gravata, que usamos na Europa, mas que ele usa à volta da cabeça. Há uma espécie de desconforto com a roupa europeia que é interessante e que nesta peça se evidencia muito. Por exemplo, nesta peça de teatro os homens vestem-se de mulheres porque não existem personagens femininas, mesmo na roupa interior. Houve esta relação com o guarda-roupa, como é tradição na fotografia contemporânea africana, sobretudo nos retratistas”, acrescenta a autora.

O retrato de estúdio é uma das escolas mais importante da fotografia daquele continente, lembra Fernandes Dias, ao apontar que “a fotografia moderna africana começa por ser sobretudo fotografia de estúdio, especialmente na África francófona”. Esse hábito de ir a estúdio para deixar-se fotografar está intimamente ligado com qualquer coisa de muito particular que o professor e também Inês Gonçalves dizem encontrar no povo africano. “Há como que uma vaidade, um desejo de se mostrar, acho que isso existe em África. Sou antropólogo e tenho a experiência de trabalhar com índios na Amazónia e não existe essa coisa da auto-exibição, que é muito africana, mas que também não se pode generalizar. Se formos para a África do Norte, as pessoas são muito mais tímidas, essa disponibilidade não existe da mesma maneira.”

Inês Gonçalves reforça que “há uma tradição de os africanos se fazerem fotografar em estúdio. Obviamente que hoje em dia isso está tudo muito alterado com o digital, mas sempre houve essa coisa de se quererem mostrar de uma forma específica. Outro dia o Awam Amkpa dizia que o próprio Seydou Keita contava que as pessoas punham perfume antes de serem fotografadas.”

Essa vontade de deixar-se fotograr acaba por poder ser benéfica para quem trabalha. “A experiência que tenho, e que não é África toda, é que as pessoas são muito receptivas a serem fotografadas e filmadas, querem sempre dar o seu testemunho e mostrarem-se. Há sempre uma negociação, mas desde o momento em que as personagens que fotografamos ou filmamos percebem que vão ser olhadas com respeito, facilita muito, não temos muitos problemas.”

Kiluanje Liberdade acrescenta que o factor língua e das suas diferentes nacionalidades ajuda a que o trabalho e a relação com os outros possa fluir. “A curiosidade deles sobre nós também é grande. Eles próprios nos levam às suas casas e nos perguntam muitas coisas, fazem-nos em primeiro lugar um inquérito. Depois desse inquérito estabelecem-se pontos de confiança, que nos permitem mergulhar e entrar na vida dessas pessoas. Acho que é uma das nossas mais-valias e um dispositivo muito forte.”

A dupla não trabalha à caça das melhores imagens e isso sente-se na hora de comunicar com os povos locais. “Planificamos muito, vamos falar com as pessoas, estamos, conversamos. Muitas vezes são eles próprios que sugerem o cenário, como é que se deve fazer. As ideias que estão nas fotografias nem sequer partem só de nós, também partem das personagens que fotografamos”, continua Inês Gonçalves. “Há pessoas que têm dificuldade em fotografar em África, mas são pessoas que vão à caça das fotografias e isso é muito agressivo, as pessoas não reagem bem. É violento.”

Viagem a África

Além dos autores não africanos presentes na exposição, outra das características da mostra apontada por Fernandes Dias é o facto de a maior parte das fotografias serem feitas por fotógrafos de outro país que não aquele que aparece nas imagens. “Aqui percebe-se que os africanos viajam muito. Fotografias de Moçambique feitas por um queniano, fotografias do Senegal feitas por um angolano, e por aí fora. Na Europa liga-se sempre os africanos à diáspora, aos imigrantes, e uma coisa que o Awam Amkpa quis mostrar foi que essa coisa da viagem, de andar de um lado para outro, não é recente e não é só para a Europa. Os africanos viajam muito no seu continente.”

Autores, curador e organizadores – que em Macau incluem o Instituto para os Assunto Cívicos e Municipais, o Museu de Arte de Macau, a Associação Angola-Macau e o Africa.cont – esperam que a mostra que está a correr o mundo ajude a que a imagem da África pós-colonial possa ser mais próxima da realidade hoje vivida no continente. Fernandes Dias: “Na China, África é o petróleo e os diamantes. Na Europa, é a guerra, a corrupção, ou então a África da girafa e do pôr-do-sol, da cubata e da máscara tradicional. Nesse sentido, esta exposição é uma surpresa para as pessoas. Foi a exposição mais visitada de sempre do Museu da Cidade em Lisboa e as pessoas ficaram muito surpreendidas, porque é uma África que não nos é familiar. É a África das pessoas que vivem todos os dias, que também se divertem e amam e sofrem. Nesse sentido, acho que muda o olhar. É um desafio aos clichés que temos sobre África.”

3 PERGUNTAS A

Awam Amkpa, curador da exposição “África: Ver-se e Dar-se a Ver”

 

– Qual é o significado para si de fazer a curadoria de uma exposição que junta tantas Áfricas diferentes?

Awam Amkpa – Essa é a história da minha. Sou um artista africano e professor de artes visuais e performativas africanas. Conheço todos estes fotógrafos, são meus amigos. E aqueles que já morreram souberam quem eu era. Quando o professor Fernando Dias me pediu que organizasse uma exposição para o Africa.cont, disse-lhe que já estava a pensar nessa exposição e ele encorajou-me a ser tão ambicioso quanto possível. Aos meus estudantes de arte nos EUA, o que lhes digo é que as histórias que eles ouvem são diferentes da realidade. África é um continente muito optimista. Temos mais jovens que idosos, os jovens conhecem todas as partes do mundo. Estou mais optimista em relação ao século XXI em África e por isso quis juntar fotografias que ajudassem a contar essa história. Foi assim que chegámos aqui.

– Na exposição também é possível perceber um pouco da evolução da fotografia africana. Quando visita estas salas com mais de uma centena de fotos, consegue sentir essa evolução?

A.A. – As imagens de África são tão antigas quanto a história da fotografia. Além de as fotografias contarem as suas próprias histórias, também tentamos mostrar a história da fotografia e como é que os africanos se apropriaram do uso colonial da câmara. Trabalhamos com a primeira geração de africanos que começaram a usar essas tecnologias, e depois a geração mais jovem, que está agora a usar essa tecnologia. Depois, mostramos a velha geração de fotógrafos coloniais, que na verdade não contavam a história completa, porque as pessoas sentiam-se como que forçadas a estar diante da câmara.

– Em relação aos fotógrafos contemporâneos, há africanos que fotografam o seu próprio continente e autores de outros continentes que também têm fotografado África. Consegue ver diferenças nas abordagens de uns e de outros?

A.A. – Estes fotógrafos conhecem-se, partilham informação. Antes, os fotógrafos europeus não comunicavam com os fotógrafos africanos, mas esta nova geração de fotógrafos não africanos está a fazer exactamente o mesmo que os seus pares africanos. É por isso que não se notam muitas diferenças, porque eles estão a usar as mesmas tecnologias, o mesmo estilo e os mesmos corpos. A declaração que tento fazer é de que África pode contar a sua história por si só, mas todas as pessoas que não são africanas têm de ser parte desta história. Foi por isso que encontrámos fotógrafos que partilham do mesmo sentimento, que querem contar histórias de África através da fotografia moderna.

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