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Análise do ritmo original

foto-3A visão do homem integrado nos ritmos da natureza e do indivíduo adulto reequilibrado com os ritmos da infância estão na base da Ritmanálise, base do pensamento de Lúcio Pinheiro dos Santos, filósofo modernista que ia passando despercebido, por não se conhecer uma única obra publicada. Pedro Baptista apresentou em Macau a sua investigação sobre um português escondido pelo Estado Novo mas venerado em França, a partir de onde foi catapultado para a montra da filosofia europeia e mundial.

 

Paulo Rego

 

Pedro Baptista, doutorado em filosofia pela Universidade do Porto, descobre em Lúcio Pinheiro dos Santos uma das mentes mais brilhantes da escola modernista portuguesa que, nos anos de 1920, rompe a partir da ‘Invicta’ com o classicismo da rija mente coimbrã. Pedro Baptista, ensaísta e investigador, divulga em “O Fisólosofo Fantasma” a relevância e a originalidade de um português que, sem nunca ter editado um livro, revelou-se um dos pensadores mais importantes do mundo, merecendo honras de citação e vénia intelectual de um mito da cultura modernista francesa, Bachelard, que 20 anos mais tarde entroniza a reflexão de Pinheiro dos Santos, globalizando a Ritmanálise e o Complexo de Orfeu como contraponto da Psicanálise e do Complexo de Édipo. Pedro Baptista, antifascista de escola, formado na extrema esquerda e mais tarde graduado deputado pelo socialismo católico de António Guterres, denuncia o bloqueio ideológico que, ontem como hoje, justificará que tanta gente menorize Pinheiro dos Santos, um génio quiçá escondido por ser de esquerda e republicano. Pedro Baptista, residente inquieto de Macau, diletante e perturbador, observa no tai shi da madrugada, nas festas populares e nos rituais religiosos chineses, a alma profunda de um ritmo original de ser e de estar. Pedro Baptista, o sonhador, vislumbra ainda na terra o tempo e o espaço para pensar e repensar: o homem, a sua natureza, e o facto de ser português; vislumbrando até o momento de repor o hábito de pensar. Pedro Baptista, o comunicador, solto no verbo e no gesto largo, lembra que o “filósofo não é aquele que tem um canudo”, coisa que hoje se arranja “em qualquer Universidade Lusófona”; mas sim aquele que, “vindo da matemática, da física…”; venha ele de onde vier, venha com essa “tendência para pensar”.

 

Contestatário e coerente

 

A apresentação do livro “O Filósofo Fantasma”, quinta-feira passada, na Galeria da Fundação Rui Cunha, não se tratou da revelação de uma obra agora editada; mas sim de uma surpresa renovada. Lúcio Pinheiro dos Santos “tinha o bom hábito de não gostar de consensos”, lembra Pedro Baptista, citando quem diria que “coerência, não é estar sempre de acordo com o que se pensa; porque isso pode até ser teimosia ou caturrice, mas é antes o acordo entre o que se pensa e o que se faz”. Pinheiro dos Santos era assim. Por isso, quando o Governo republicano cedeu ao conservadorismo de Coimbra, arranjando “a solução salomónica” de desistir de uma reforma educativa global, e criando em alternativa a Faculdade de Letras do Porto, onde o modernismo podia ter mais encanto, o jovem Pinheiro dos Santos demitiu-se do cargo de coordenação que lhe deram nesse reformismo feito de compromissos. Passou então por Goa e, nos anos trinta, refugia-se no Brasil, virando definitivamente costas ao Estado Novo. Faleceu em 1950, sem que a sua obra tivesse alguma vez chegado ao prelo – ou pelo menos às livrarias, pois há indícios de que chegou a entregar uma obra para publicação, embora não haja um ao﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽rte do filósofono viu8caçtos, quando jicaçuma, simplesmente subsidiºte parceiro do debate europeu e mundial; na partirúnico livro seu conhecido. Pedro Baptista conta uma história que espera “não ser verdade”, segundo a qual a viúva de Pinheiro dos Santos terá feito uma fogueira com os manuscritos, quando já depois da

morte do filósofo viu recusada a sua edição na Imprensa Nacional. “Prefiro pensar que um dia destes esses manuscritos serão encontrados perdidos num qualquer alfarrabista” por aí. “Provavelmente o seu pensamento chegou às Pinhe amigos” circular entre meia dda por Bachelar tivesse alguma vez chegado ao prelo. “ro e estudou o seu pensamento a partirà mãos de Bachelar através de um manuscrito, que à época era comum circularem entre meia dúzia de amigos”, resume o investigador.

O contexto político da época, frisa Pedro Baptista, “é importante” para entender o perfil modernista e o carácter contestatário de Pinheiro dos Santos. Pedro Baptista investiu na busca de pistas, documentos e testemunhas, contribuindo decisivamente para recuperar o pensamento de um filósofo “quase por milagre trazido à luz do debate europeu e mundial”. Compilou uma ou outra entrevista, um texto guardado por um sobrinho de Pinheiro dos Santos, e estudou o seu pensamento a partir do resumo apresentado em 27 páginas que Bachelar lhe dedicou.

 

Infância e natureza perdidas

 

O que pensa, afinal, Lúcio Pinheiro dos Santos? Qual é a sua real importância e originalidade? Resumidamente, o filósofo português expõe os limites do humanismo socrático – conheça-se a si mesmo – e do racionalismo de Descartes – penso logo existo. A sua tese sobre a Ritmanálise, explica Pedro Baptista, recusa o homem como senhor do universo e reenquadra-o nos ritmos da natureza. “Os ritmos perdidos da infância fazem parte do equilíbrio do homem”, e “aquilo a que muitas vezes chamamos ingenuidade deve ser vista como um elemento de equilíbrio e de criatividade”. Ou seja, a tese do “criacionismo”. No fundo, a leitura de Pinheiro dos Santos lança a dúvida sobre a separação entre homem e natureza, recusando ainda a idade adulta como sinal exclusivo de maturidade.”É aliás uma lógica mais fácil de perceber depois da descoberta da física quântica”, diz Pedro Baptista, quando a razão descobre que a matéria tem frequências e é ritma”, ou ainda “quando olhamos para a homeopatia e percebemos que a prescrições têm sobretudo a ver com as quantidades e as proporções”. Nesse sentido, a Ritmanálise sustenta a necessidade do recuo histórico para o reequilíbrio do homem na sua relação, por um lado, com os ritmos da natureza e, por outro, com os ritmos da sua própria infância”.

Com a Ritmanálise de Pinheiro dos Santos, explica Pedro Baptista, recupera-se um conceito profundo de saudade dos bons velhos tempos de criança; e a infância deixa de ser o momento pecaminoso em que a criança quer matar o pai para estar com a mãe, passando a ser um elemento criativo e de reequilíbrio”.

Manuel Afonso Costa, doutorado em Filosofia, lançou a partir da assistência a dúvida sobre a originalidade da filosofia portuguesa, contestando mesmo a sua relevância na história do pensamento. Mas Pedro Baptista é peremptório. Lúcio Pinheiro Baptista, “e para falarmos só do século XX, faz parte de um grupo de pensadores originais e relevantes, que era claramente parceiro do debate europeu e mundial; não eram, de maneira nenhuma, simplesmente subsidiários daquilo que se pensava em França, em Itália ou na Alemanha”.

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