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Luxo do avesso

aiMeHDAcima da marca, o luxo é sonho, criatividade, inovação, qualidade. Pelo menos assim o crê Laurence Picot. A francesa quis captar a essência dos objectos de luxo mais icónicos do mundo e para isso submeteu-os ao mesmo tratamento que é dado às pessoas que guardam algo imperceptível ao exterior: fotografou-os com um raio-X. “Lux Inside – Traces of man” mostra-nos o interior de peças como um sapato Louboutin, uma câmara Leica e uma guitarra de Les Paul. Para ver no One Central Macau a partir de hoje.

Inês Santinhos Gonçalves

– O que pretendia dizer ao captar imagens de objectos de luxo com uma máquina de raio-X?

Laurence Picot – Há 25 anos que estou muito envolvida com produtos de luxo, conheço bastante bem a indústria e principalmente a sua história. Com o passar dos anos o mundo do luxo mudou completamente, o consumo de produtos de luxo mudou e a produção mudou. Nos últimos dez anos essa mudança tornou-se mais evidente. O meu objectivo era dizer que perdemos a ideia do que é o luxo. Foi criado em França, onde existe há 350 anos. Foi inventado pelo rei Luís XIII em 1665 – na altura, ele queria criar um pólo de excelência porque desejava ter ali os melhores produtos alguma vez criados. Para isso, colocou debaixo do mesmo tecto todas as pessoas que podiam criar estes produtos: os artesãos, os engenheiros, os criadores. Assim nasceram as indústrias do luxo e assim se mantiveram até ao ano 2000.

– O que mudou?

L.P. – Demorei algum tempo a perceber o que se estava a passar. Na década de 1980 sugiram empresas de marketing para produtos de luxo. Existiam para outros produtos mas não para os de luxo – o conceito de luxo implicava não se falar disso, não se publicitar, não se usar logótipos. O marketing mudou a forma como o público encara estes produtos. Agora, cada vez mais é a marca que importa e esquecemo-nos mais do produto. E esquecemo-nos completamente das qualidades do produto, que fazem com que seja considerado luxo. Esquecemo-nos totalmente de como é produzido e por quem. A maioria das vezes o conhecimento era passado de pai para filho, durante séculos. Hoje, a meu ver, perdeu-se o lado humano, é algo completamente materialista. Esta dimensão humana desapareceu por detrás da marca, do logótipo. Quando vim ver o espaço da exposição, conversei com algumas pessoas e perguntei-lhes ‘O que é para si o luxo?’. A resposta foi sempre a mesma: CD [Christian Dior], LV [Louis Vuitton], etc. ‘Mas sabe o que é LV?’. Precisavam pensar algum tempo: Louis Vuitton. ‘Ok. Mas sabe quem é Louis Vuitton?’ Não. Nem sequer sabiam que era um homem. ‘Sabe porque é que fazem malas?’ Não. ‘A história do produto interessa-lhe?’ Não, de todo. ‘Interessa-lhe onde é que o produto é feito?’ Não.

– Mas as pessoas podem querer um produto por o acharem belo, sem saberem da sua história. Ou acha que o desejam pela própria marca?

L.P. – Claro que as nossas personalidades nos fazem gostar mais disto ou daquilo. Mas eu tenho filhos e sei bem como é que crianças e adultos escolhem as coisas.

– Porque os outros as têm?

L.P. – Exacto. Quero trazer de volta a capacidade de as pessoas escolherem por elas próprias aquilo que é o seu sonho. O luxo sempre foi sobre sonhos. Queria chamar a atenção para isto. Quis usar a imagem. Um dia conheci um médico que trabalhava com raio-X. Olhei para aquilo e pensei ‘É exactamente isto que quero! Quero mostrar o que está por dentro’. O projecto começou quando já estava certa do conceito e conheci as três pessoas necessárias para o projecto: um radiologista muito famoso em França chamado Jean-François Paul, o criador de software para investigação médica chamado Sylvain Ordureau e o artista americano Ricardo Escobar. Comecei com alguns objectos que já tinha, mas descobri que o processo funciona com alguns objectos e não com outros, por causa dos materiais. Ao fim de dois anos tinha 14 objectos que queria mostrar por dentro, por os considerar icónicos na indústria do luxo. Como o sapato Louboutin, ou a máquina fotográfica Leica. Acompanhei a produção de todos eles, o que foi difícil porque o luxo está ligado ao segredo e ninguém quer revelar os segredos. Queria partir do objecto material para o objecto filosófico.

– Procurava a essência dos objectos?

L.P. – Exactamente. E mais que isso, queria procurar os vestígios do homem. Quando sabemos exactamente como os produtos são feitos, sabemos onde procurar.

– Mas essa dimensão humana também se encontra em muitos produtos que não são considerados de luxo, ou pelo menos não são caros.

L.P. – Não é uma questão de preço. Claro que a maioria dos produtos são caros, mas esta investigação levou-me a uma definição de luxo: inovação pura. Um produto de luxo, um verdadeiro, é sempre o melhor que pode ser feito. Por exemplo, os saltos altos. Existem só desde 1957 porque não era possível fabricá-los. A ideia de colocar uma mulher em cima de sapatos com salto existia há séculos mas não era possível ao salto resistir ao peso da mulher. Mas durante a II Guerra Mundial, a indústria de aviação criou uma nova mistura de metais. Este novo metal conseguia que uma pequena área fosse incrivelmente resistente. O designer Roger Vivier teve a ideia de utilizar este metal para transformar os sapatos. Foi assim que fez o primeiro sapato de salto alto. Se analisar um sapato vai continuar a encontrar este metal, que ainda se usa nos aviões.

– Todos os saltos altos têm esse metal?

L.P. – Não. É por isso que os maus sapatos são muito perigosos, são mais para andar. A estrutura não está selada ao salto de forma correcta, o salto não é forte o suficiente. Não é o tipo de coisas que digo às minhas amigas, mas a maioria das vezes os sapatos partem-se. Não são feitos para andar. É por isso que este tipo de produto é caro. São inovadores e têm de ser experimentados. Paga-se por isso.

– Que papel deve o luxo ter na vida das pessoas?

L.P. – Respeito muito as pessoas ricas que compram coisas incrivelmente caras, porque estão a contribuir para a evolução do mundo.

– Mas isso só funciona se o fizerem com a compreensão do que são os produtos.

L.P. – Esse é o conceito. Não é possível inovar sem conhecimento. Por um lado, estas indústrias inovam, por outro preservam o conhecimento transmitido ao longo dos anos. Por exemplo, a sela da Hermès. Quando a vemos no raio-X, vemos uma estrutura muito complexa. Demoraram dois séculos a desenvolver uma coisa completamente nova. A estrutura é feita de fibra de carbono, o que foi uma revolução para quem monta a cavalo. Não é preciso quebrar a sela, como habitualmente com outras, para se moldarem. Quando essa moldagem fica mal feita é um pesadelo. A Hermès tem esse conhecimento há 200 anos e para tornar o produto luxuoso, envolveu-o numa pele clássica.

– Como vê o interesse crescente da China em produtos de luxo?

L.P. – A China não teve a oportunidade de conviver com esta indústria durante 350 anos. Quando descobriram as indústrias de luxo não tinham o contexto para as compreender. Aquilo que conheceram foi a marca. E a imagem da marca tornou-se desejável. De momento, o que me parece que acham mais interessante é o preço.

– É uma questão de estatuto?

L.P. – Sim. Há uma categoria em marketing para isso, chama-se “prestígio de massa”, são produtos direccionados à manutenção de um estatuto. Por mim tudo bem, mas não percebo o que é que as pessoas ganham. Quando uma pessoa já está coberta de marcas, o que é que lhes acontece? Os franceses sabem que não acontece nada, fica-se vazio por dentro. E mais grave que isso: os chineses não acham que há luxo no seu próprio país. Acham sempre que tem de vir de fora. Isso é triste, porque este tipo de indústrias são um bom pretexto para salvaguardar a cultura de um país. Cada país tem legitimidade para criar os seus próprios produtos de luxo.

– O criador da Shanghai Tang, David Tang, disse que Macau tinha falta de gosto. Concorda?

L.P. – Há, sem dúvida falta, de personalidade. Toda a gente tem direito a misturar uma saia vermelha com uma camisola cor-de-rosa. Não acho que seja falta de gosto, mas falta de confiança no gosto que têm. Macau tem de ser confiante e saber de onde vem. Consigo imaginar Macau a desenvolver o conceito de luxo, porque há uma história muito rica, com a mistura de culturas, e há uma personalidade forte que tem sido mantida de lado. É preciso misturar. Visitei o Wynn e o MGM e fiquei tão desiludida. Andava a sonhar com a Macau dos casinos. Mas destruíram a história dos casinos de Macau, havia aqui um espírito, uma cultura.

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