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“A literatura não é acomodação, a literatura é inquietação”

agualusa2Do sonho à história, e desta à mudança – de cada leitor, de países e do mundo em geral. José Eduardo Agualusa, escritor angolano sobretudo reconhecido pela sua crónica e pelo romance histórico, acredita no poder de transformação pela palavra. É com ela que vai ao encontro dos outros e os veste como uma pele, sem medo.

Maria Caetano

 

– Como é que recebeu o convite para participar num encontro literário em Macau?

José Eduardo Agualusa – Já tinha sido convidado o ano passado, e não era mesmo possível porque tinha outros convites e outras ocupações. Mas fiquei com muita vontade de ir – e este ano assim foi. Tenho muita curiosidade porque é um território que não conheço de todo. Já viajei um pouco pela Ásia, viajei pela Indonésia, estive em Timor, na Malásia também, em diferentes ocasiões. Mas nunca fui a Macau. É o único território de língua portuguesa que não conheço. Também estive em Goa, na Índia. Realmente, falta-me Macau.

– Tem essa travessia pelas presenças portuguesas na Ásia em duas obras suas. Até aqui ainda não lhe tinha surgido um projecto, eventualmente, para poder vir até esta parte do mundo.

J.E.A. – Exactamente, nunca aconteceu. Estou bastante curioso.

– Das vezes em que esteve em Goa, e também na Indonésia e em Timor, resultaram obras suas. Vem com alguma expectativa em relação a Macau?

J.E.A. – Quando viajei para a Indonésia e Timor, e antes disso para Goa, ia já com o projecto de escrever. No primeiro caso, um livro de viagens [“Na Rota das Especiarias”], e no caso de Goa a intenção era escrever um romance [“Um Estranho em Goa”]. Em Goa fiquei quatro meses. Infelizmente, não vou estar tanto tempo em Macau e não vou com essa intenção. Agora, sou um escritor, e os escritores acabam por aproveitar todas as experiências. É natural que possa surgir alguma coisa em resultado dessa viagem em Macau. Mas não há nada previsto.

– O José Eduardo Agualusa tem um triângulo geográfico curioso, unindo Angola, Portugal e Brasil, como a língua portuguesa. Tem trabalho à margem da actividade de escritor, com uma editora no Brasil…

J.E.A. – Não tenho. Ajudei a criar uma editora, mas não tenho mais nenhuma ligação neste momento.

– Desde quando é que deixou a editora?

J.E.A. – Eu nunca tive formalmente uma editora. Eu ajudei a criar esta editora, a Língua Geral, que é uma editora vocacionada precisamente para a edição de autores de língua portuguesa. A ideia era dar conhecer no Brasil autores africanos e Portugueses. Entretanto, também as grandes editoras apanharam um pouco essa ideia e estão hoje publicando autores portugueses e africanos – e publicando bem. Então, acho que foi um triunfo, essa ideia venceu. Hoje, nos grandes festivais de literatura do Brasil, há sempre a presença de autores portugueses e de autores africanos, e às vezes com grande destaque. Essa ideia acabou por triunfar no Brasil, creio.

– Foi, não sei se mantém a mesma posição, um defensor do acordo ortográfico da língua portuguesa. Não sei se a evolução do processo de implementação do acordo o levou a reconsiderar a posição.

J.E.A. – Eu sempre fui a favor de um acordo ortográfico. Sempre fui a favor de uma ortografia comum dentro deste território linguístico, nunca entendi que houvesse vantagem em ter mais do que uma ortografia. Sim, sou a favor de um acordo.

– Mas como vê a situação de implementação do acordo?

J.E.A. – O acordo está a ser implementado. Em Portugal, já está, e no Brasil também, tranquilamente. Acho que como os problemas que houve e que há, e com erros que foram feitos, foi um processo que avançou. Mas também acho que não tem grande relevância. Há coisas mais importantes a fazer no âmbito da língua.

– Nos países africanos de expressão portuguesa – nomeadamente, em Angola – este acordo não foi relevante.

J.E.A. – Creio que [Angola] é o único país que ainda não o subscreveu. Mas Julgo que em Angola há tanta coisa por fazer que, em termos públicos, não houve grande discussão. Conheço alguns autores a favor, como é o caso de João Melo, ou contra, como é o caso de Ondjaki, que escreveram sobre isso. Mas não houve grande discussão. Mas, realmente, em Angola há coisas mais importantes para discutir do que o acordo ortográfico.

– Tem programada a sua participação no Rota das letras? Há algumas ideias que gostaria de passar?

J.E.A. – Ainda não sei exactamente o que vou fazer.

– O seu último romance, “Teoria Geral do Esquecimento”, aborda a questão da independência angolana, da identidade na experiência colonial, também relevante para Macau. É possível estabelecer paralelismos?

J.E.A. – Não conheço bem Macau, e não gosto de falar de situações que conheço bem à partida, mas imagino que a questão da língua seja completamente diferente. Não creio que haja muita gente a falar português em Macau, sobretudo enquanto língua materna. No caso de Angola, uma percentagem muito considerável da população fala português como língua materna. Aliás, o português expandiu-se muito depois da independência. São situações muito diferentes. Mas acredito que haja elementos que possam ser semelhantes. Estou curioso. Não sei muito bem o que esperar.

– Esta sua personagem que aparece em “Teoria Geral do Esquecimento”, Ludovica, traz consigo uma narrativa muito diferente para falar sobre a aceitação da mudança.

J.E.A. – O livro é um livro sobre o medo do outro. E isso, realmente, é uma coisa universal. Situações como essa, de pessoas que se fecham – neste caso concreto, esta mulher tranca-se, empareda-se na sua própria casa durante quase 30 anos –, são uma metáfora do medo do outro. Vemos isso em diversos lugares do mundo, de forma mais ou menos trágica. O livro é sobre este absurdo que é o medo do outro, porque o outro somos nós também, sempre. É realmente uma situação universal. Passa-se em Angola, mas podia passar-se em qualquer lugar do mundo.

– Disse numa entrevista, após a publicação, que recebeu mensagens de muita gente que relatava situações exactamente desse fechamento.

J.E.A. – Acontece muito isso. A gente escreve um livro e começa a perceber que aquelas situações podem acontecer ou aconteceram. Neste caso também. Comecei a ler notícias de pessoas que viviam isoladas dentro de casa. Esse terror do outro, do desconhecido, é universal. Achamos que ele é diferente de nós e, depois, à medida que nos aproximamos percebemos que essa diferença afinal não existia. As pessoas são pessoas em qualquer lugar do mundo, têm os mesmos sentimentos, têm as mesmas preocupações, têm os mesmos terrores, têm os mesmos objectivos. O homem, afinal, é muito mais semelhante do que muitas vezes tendemos a imaginar.

– Diz que escreve para chegar ao coração do outro… É um processo de identificação? De solidarização?

J.E.A. – Escrever é isso. É sempre um exercício de autoridade, tem de se estar a colocar na pele do outro permanentemente. Enquanto escrevemos somos aqueles personagens sobre os quais escrevemos. Temos de acreditar nisso. Temos de fazer essa transposição. Isso é também, penso, um exercício de humildade. Ajuda-nos a compreender o funcionamento das outras pessoas, a forma como pensam, e os pequenos erros, ou os grandes erros, de cada um de nós.

– Essa forma como vê a escrita e as personagens, quando a sua obra mistura a história com a ficção – sendo que a história tem eventos traumáticos e tem personagens das quais podemos gostar, mas que também podemos odiar –, é difícil?

J.E.A. – É, às vezes não é fácil. É sempre um desafio. É como um actor, a quem se exige um pouco a mesma coisa. Um actor só é um bom actor se acreditar que é outra pessoa enquanto representa aquela pessoa. Tem de acreditar nisso. Com o escritor acontece algo semelhante. Os personagens só ganham alguma verdade se nós acreditarmos neles durante o tempo em que estamos dentro daquela pele. Esse é um exercício às vezes doloroso, à vezes difícil. Não é sempre fácil, não.

– A sua relação com o poder político em Angola tem sido mais conflituosa nos últimos anos…

J.E.A. – Eu sempre me bati pela democracia e continuo a bater-me pela democracia em Angola e em qualquer outro lugar do mundo. Portanto, às vezes isso traz-me problemas porque Angola ainda não é um regime democrático. Não é que eu procure problemas. Continuo a bater-me pelos mesmos princípios pelos quais me batia há 20 anos ou 30 anos. Infelizmente, as coisas ainda não se alteraram a esse nível em Angola. Algumas coisas mudaram, algum caminho foi percorrido. Pelo menos, a linguagem oficial já é uma linguagem de aceitação e de defesa da democracia. Mas ainda não temos em Angola um regime realmente democrático.

– Fala do medo como instrumento do poder político. É o medo da guerra que impede que as coisas mudem?

J.E.A. – O fantasma da guerra também já foi agitado. De vez em quando ainda continua a ser agitado. O partido no poder usa um pouco esse espantalho: ‘atenção que tivemos um guerra longa, terrível, e essa guerra ainda pode voltar’. Mas, na verdade, acho que a maioria das pessoas não acredita nisso. Sobretudo, a juventude angolana que já não viveu sequer esse período de guerra, não acredita nisso. É do tipo de linguagem que começa a cair em desuso porque as pessoas já não acreditam nele.

– Procura traduzir essa realidade actual de Angola nas suas obras ou recua mais quando escreve?

J.E.A. – Depende. Tenho diversos romances históricos. Mas o romance histórico continua a ser uma tentativa de reflexão sobre o presente a partir do entendimento de um passado. Acho que, não sabendo o que era Angola no século XIX, dificilmente se entende o que é Angola hoje. Imagino que o mesmo aconteça em Macau ou em qualquer lugar do mundo. Quando escrevemos um romance histórico, no fundo estamos a tentar também entender o presente.

– Assume ao mesmo tempo uma tarefa que não é só literatura, que também é cívica e política. Isso não é uma constante.

J.E.A. – Acho que a literatura é isso. A grande literatura, ao menos, é também isso. É inquietar, é provocar inquietação, levar as pessoas a discutir e a pensar. É o que toda a literatura gostaria de conseguir. A literatura não é acomodação, a literatura é inquietação.

– E com ela espera de alguma forma contribuir para a transformação de alguma forma?

J.E.A. – Espero, se for capaz de levar as pessoas a discutir, a discordar inclusive, a debater. Todo o debate é positivo. O debate é pensamento. Reflectir leva sempre a avanços. Acredito que a literatura é capaz de fazer isso. Se o faz mais ou menos, depende do alcance do livro. A literatura é reflexão e a reflexão é essencial para qualquer processo.

– Preocupa-se mais com uma transformação de Angola ou com uma transformação universal, do leitor?

J.E.A. – De uma forma geral, sim. Até porque os meus livros são traduzidos. Se são traduzidos, é porque as pessoas encontram neles alguma coisa que tem que ver com a sua vida. Se não, os livros nunca sairiam desse espaço angolano. Acho que passa para além disso. Eu também trabalho com temas que são temas universais.

– E sente-se lido em Angola?

J.E.A. – Infelizmente, Angola é um país onde se lê muito pouco. A esmagadora maioria das pessoas não tem acesso ao livro. Por um lado, falta fazer um trabalho enorme de alfabetização das populações e de criação de uma rede de bibliotecas públicas, de uma rede de livrarias. Falta levar o livro aos seus leitores em Angola. Isso ainda não foi feito. Nós temos muito, muito poucos leitores em Angola.

– Além dos romances que tem escrito e livros de contos, tem também trabalho na literatura infantil e ilustrações.

J.E.A. – Ah, não… As ilustrações são uma brincadeira. Fiz uma vez um livrinho com ilustrações [“Fui para sul”] a partir de uma viagem de um livro, que é um romance de viagem – “As Mulheres do Meu Pai”. É um livro com ilustrações da protagonista. É um divertimento. Desenho, mas é um divertimento.

– Foi um caso isolado então?

J.E.A. – Foi. Eu gosto de desenho. Sei lá. Não quer dizer que não venha a… Se der, posso publicar mais. Mas é um divertimento…

– Quando é que decidiu explorar o lado da escrita para crianças?

J.E.A. – Comecei por escrever um diário de paternidade quando estava à espera do meu primeiro filho, para uma revista chamada Pais&Filhos, precisamente. Depois, o meu filho nasceu e a directora da revista, que era a Laurinda Alves, convidou-me a escrever histórias. Eu nunca tinha pensado em escrever histórias para crianças e fiquei um pouco assustado. É uma responsabilidade grande, entre outras coisas, porque escrever para crianças é atrair novos leitores, é formar novos leitores. Depois, porque as crianças são muito inteligentes, muito argutas e lêem com muita atenção. Mas, depois, comecei a escrever e aquilo encantou-me. Diverti-me muito enquanto escrevia esses contos para crianças. Acho que também é uma forma de a gente regressar à nossa própria infância. É uma coisa que gosto de fazer. Tenho continuado a fazer. O ano passado publiquei mais um livro para crianças [“A Rainha dos Estapafúrdios”].

– Diz que quando começa a escrever tem algumas ideias e que essas ideias lhe surgem em sonhos. É sempre assim?

J.E.A. – Não é sempre assim, mas acontece com alguma frequência. Sonho às vezes com frases, às vezes com personagens, às vezes com enredos – frequentemente, com enredos inteiros. Evidentemente, nem sempre são grandes ideias. Mas é possível explorar algumas.

– Confia assim as suas histórias um pouco ao subconsciente, desperto quando está a dormir?

J.E.A. – No fundo, enquanto dormimos continuamos a trabalhar. Certas ideias, que seria difícil que nos ocorressem quando estamos despertos, é mais fácil tê-las enquanto dormimos. Comigo tem resultado assim. Não sei se resulta com outras pessoas.

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