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“O meu exílio voluntário em Macau foi sempre um tempo feliz”

Volodine ©Hermance TriayAntonine Volodine é um dos muitos heterónimos de Jean Desvignes, escritor francês, casado com uma portuguesa, que se define como pós-exótico e escreveu um novo romance inspirado nesta terra que habitou e lhe encheu a alma. “Macau” anda à volta de um personagem, já falecido, que regressa ao território em busca da sua história, também ela enterrada na dramática transformação dos anos que passaram. Entrevista a um dos escritores convidado para o Rota das Letras, que este ano, para além das línguas portuguesa e chinesa, traz a novidade da escrita francesa no contexto da China.

­– O que o fez escrever “Macau”? Ou melhor, o que o trouxe cá em primeiro lugar? E o que o fez agora regressar como autor, dedicando-lhe um romance a que deu o nome desta terra?

Antoine Volodine – Cheguei a Macau pela primeira vez em 1992 com a minha mulher que fora nomeada para a Universidade de Macau (e que foi depois a tradutora de “Macau” em Português). Vivi na Taipa dois anos, numa época em que ainda não havia por lá muita construção. Morávamos na Universidade, num apartamento que dava para uma clínica psiquiátrica e zonas cobertas de árvores e pequenos pântanos. Ao longe havia uma fábrica de panchões, desactivada, e uma parte de um antigo cemitério. Na Avenida Dr. Sun Yat Sen viam-se muito poucos prédios, e as obras futuras ainda se estavam a definir. Esta paisagem hoje desapareceu de todo, substituída por novos edifícios e uma vida urbana.

Macau tornou-se para mim uma terra familiar e acolhedora, uma terra que sempre me trouxe prazer de vida e prazer de escrita. Foi um sítio onde vivi momentos essenciais tanto ao nível da vida privada quanto ao nível da escrita. Mais de vinte anos depois desses dois anos que vivi em Macau (1992-1994), creio poder dizer que o território teve um papel crucial na minha existência. Voltei muitas vezes para curtas ou mais longas estadas, e permaneci em Macau ao longo de 2008-2009, um ano magnífico para mim. Foi aqui que escrevi vários romances, muito diferentes uns dos outros, e com assinaturas por vezes heteronímicas (Manuela Draeger, Lutz Bassmann). Mas sempre romances escritos com a mesma energia, pois o meu exílio voluntário em Macau foi sempre um tempo feliz.

O facto de me sentir longe das referências europeias, próximo da China e da Ásia, o enquadramento urbano, menos esmagador do que em Hong Kong, o clima… foram sempre coisas me inspiraram e me deram uma energia de escrita absolutamente excepcional. Escrevi assim alguns textos especificamente ligados a Macau: Le port intérieur, Fim (que acompanhava  fotografias de Paulo Nozolino), Macau sem regresso (texto do filme de Michale Boganim), e Macau (com fotografias  de Olivier Aubert para a edição francesa). Le port intérieur, por exemplo, é uma ficção muitíssimo marcada por certa tonalidade autobiográfica e pelas minhas experiências de vida em Macau no início dos anos 90. Macau, esse já é  um livro cuja acção decorre cerca de vinte anos mais tarde, com o mesmo personagem central que vai morrer e revisita a cidade onde o seu passado também já morreu.

– Nota-se, em várias passagens do livro, um grande desconsolo pelos efeitos do desenvolvimento em Macau, que chega a descrever como um “subúrbio medonho” à mercê dos especuladores. Um certo pessimismo perceptível nesta obra é uma marca forte na sua escrita?

A. V. – O romance Macau acompanha as últimas horas de um homem minado pela doença e que vai ser executado por um gang mafioso. O texto termina efectivamente com essa execução. A atmosfera é pois bastante sombria. Contudo, essas poucas horas representam também para o herói, Breughel, a oportunidade única de rever interiormente horas luminosas associadas a um encontro amoroso, vinte anos antes, com uma mulher mentalmente perturbada, mas magnífica, Gloria Vancouver, e também com a cidade de Macau, o porto interior, as ruelas e os bairros pobres. Ao longo da sua deambulação sentimental por Macau, Breughel revê a sua vida vinte anos antes, e evoca-a como a aventura inesquecível da sua juventude (e que de facto está contada no meu livro, Le port intérieur).

Fazendo desfilar diante de si mesmo o filme da sua vida, Breughel constata a modificação da paisagem em Macau. Confrontando as suas recordações de vinte anos mais cedo e a cidade contemporânea, constata que tudo mudou radicalmente. É por isso que procura prioritariamente as imagens da velha cidade, os vestígios dos bairros chineses em vias de extinção, em suma, as marcas do seu passado, marcas essas que na realidade se estão a apagar. O personagem agarra-se assim muito mais a sonhos e fantasmas do que a uma verdadeira descrição da realidade.

Ao longo do livro acompanho Breughel, de quem me sinto muito próximo tanto em Le port intérieur como no Macau. E acompanho-o mergulhando com ele na memória de um lugar que foi totalmente transformado. É pois natural que o personagem viva a deambulação como uma experiência triste e com algum pessimismo. Este  pessimismo também se explica pela ausência de perspectivas para Breughel que sabe que vai morrer. Mas em tudo isto intervém também o humor, que vem dar uma coloração muito diferente ao que parece ser só desespero e negrume. Para Breughel, por exemplo, a beleza da coreana que o vai eliminar é motivo de divertidas considerações e fantasmagorias pessoais. Breughel conta também de forma quase cómica o modo como se encontrou naquela situação inesperada, amarrado e amordaçado num junco à espera de ser executado.

– Não deixa também de referir que Macau é uma terra de acolhimento, um “lugar de exílio ideal”. E diz que “é preciso continuar a amá-la”, apesar do que lhe tem sido feito.  Existe então uma ambivalência na sua relação com Macau?

A. V. – Eu gostei profundamente daquele Macau onde se chegava num jetfoil que atracava num cais de madeira, com ventiladores coloniais, uma gare marítima que hoje, pensando bem, era de facto minúscula. Um território onde só existia uma ponte de ligação à Taipa, um território sem os NAPE, com uma espantosa baía que corria ao longo da Avenida da Amizade, e onde o Hotel Lisboa e o Casino flutuante eram praticamente os únicos estabelecimentos de jogo. Sinto imensa saudade desse Macau, mas já vim e vivi tantas vezes no Macau de hoje que esta nova cidade acabou também por se me tornar familiar. Não há pois ambivalência na minha relação com o território, acontece simplesmente que a versão dos anos 90 é para mim muito mais literária e portadora de imagens que posso inserir nos meus romances. Além disso Macau foi, e continua a ser para mim, uma porta de entrada natural, extremamente prática, para a China continental, Taïwan, Japão e de um modo geral para toda a Ásia.

– Grande parte da acção deste livro passa-se no Porto Interior, que é também o título do seu primeiro romance dedicado a Macau. Por que é que esta zona da cidade o fascina em particular?

A. V. – O Porto Interior (e os bairros adjacentes) era uma zona onde se concentrava e subsistiam os vestígios de Macau de antes da Segunda Guerra mundial com o seu passado de profissões e ofícios humildes, com uma população industriosa e pobre, mas também um lugar de histórias ocultas, às vezes sórdidas. Era um mundo em que, pelo menos nos anos 90, ainda se estava em contacto com a China milenar, com o povo anónimo. Era também a época das minhas primeiras estadas em Macau, um mundo então sem turistas, que virava as costas ao exterior e às mudanças que estavam a chegar. No início dos anos 90 a modernidade ainda não se fazia sentir, as ruas e ruelas ainda não estavam cheias de motas. Creio que a imobilização no tempo era a característica principal do lugar. Para personagens como Breughel, ir e vir no Porto Interior, era uma maneira de virar radicalmente as costas ao Ocidente, aos discursos do Ocidente, uma maneira também de entrar num sonho, numa ficção. E igualmente uma forma de se integrar na cidade, de maneira íntima, fraterna. Com o correr dos anos este mundo foi-se reduzindo e Breughel descobre-o, desconsoladamente. Os casebres do Beco do Tarrafeiro, onde decorrem muitas das cenas do Port intérieur, foram demolidos. Mas também é verdade que há em Breughel como que uma espécie de fascínio diante do desaparecimento rápido de lugares míticos (a Baía da Praia Grande, por exemplo). E esse é um sentimento que todos podemos experimentar também.

– Porquê a opção por uma narrativa fragmentada em pequenos quadros onde vamos encontrar ora o personagem, ora a cidade entregues às suas aflições?

A. V. – Escrever curtos capítulos permite dividir a história em pequenas sequências cinematográficas ou oníricas. E isto coaduna-se perfeitamente com a situação do personagem, com o seu estado mental, isto é, com a obrigação em que Breughel se vê de apelar para recordações, no meio da urgência e da desordem, a fim de preencher o melhor possível os últimos instantes de vida que lhe restam. O romance acompanha a agonia de Breughel, é-se testemunha do tal famoso processo que constitui o desenrolar em acelerado de toda uma vida que desfila diante da consciência de quem vai morrer. E tudo se organiza em torno de direcções que acabam por se entrecruzar e confundir: o presente lúgubre dentro do junco, o passado imediato, a errância pela cidade à procura da recordação de Gloria, a própria evocação de Gloria na clínica psiquiátrica, em suma o balanço de uma vida fortemente ligada a Macau.

A tolerância religiosa é um aspecto que sublinha nalguns desses frescos  sobre Macau e a cultura chinesa. É problema com que se debata frequentemente na sua actividade criativa?

A. V. – Em Macau, e de um modo geral na Ásia, sempre me chamou particularmente a atenção, a tolerância religiosa e a ausência de conflitos religiosos entre as diversas crenças. É um aspecto da vida social imediatamente perceptível e que impregna a vida quotidiana aqui. E é também um portador de paz. Neste sentido, isto é mais um argumento para se gostar de viver em Macau, longe das guerras de religião que na Europa e no mundo tornam a atmosfera cada vez mais sufocante. O culto dos antepassados e o budismo inspiram-me mais simpatia do que as religiões monoteístas, e correspondem muito mais à minha visão do mundo e das relações humanas.

Os meus livros, entretanto, são muito mais atravessados pela política do que pela religião. Neles, são quase sempre antigos revolucionários que tomam a palavra. Contudo, um dos temas recorrentes em muito dos meus romances (e também em Macau), prende-se com o budismo tântrico e, mais precisamente com o Bardo Thödol, o Livro Tibetano dos Mortos. Ponho em cena os ensinamentos desse livro para criar ficção. Os meus personagens continuam, por exemplo, a existir depois da morte, vagueiam no mundo flutuante do Bardo. Revivem as suas vidas numa espécie de sonhar acordado durante o qual se encontram sempre sós. As suas aventuras e os cenários onde elas acontecem dependem deles mesmos. Escusado será dizer que estes não são temas habituais na literatura ocidental.

– Ao contrário de outros autores, que fogem a arrumar-se em classificações muito rígidas, o Antoine Volodine define-se como escritor pós-exótico.  O que o leva a fazê-lo?

A. V. – O termo nasceu de um mal-entendido. Depois de ter publicado vários livros que se inscreviam mais ou menos no domínio do fantástico, tive de estar sempre a explicar que o que eu escrevia não era ficção científica, não pertencia ao género do fantástico, mas que era sim algo à parte. A seguir fui publicado numa editora de vanguarda (Minuit) e passei então a ter de batalhar para explicar que não, não pertencia a nenhuma vanguarda e que os meus livros tinham características muito próprias. Cansado de ter sempre que dizer e explicar o que eu não era, inventei o termo pós-exotismo para definir a minha própria literatura: o pós-exotismo era aquilo que eu escrevia e nada mais. Ao princípio o pós-exotismo era uma etiqueta vazia. Mas ao cabo de alguns anos, com muitos livros já publicados, com o meu nome de autor ou com o de outros autores pós-exóticos, o termo acabou por se impor. É muito prático pertencer a uma literatura imaginária de que se é o único representante vivo.

– Quais são os escritores que mais o inspiram? Algum por quem sinta especial afinidade e que descreva também como pós-exótico? E há também autores lusófonos e chineses entre os seus preferidos?

A. V. – Os autores pós-exóticos são todos imaginários : Lutz Bassmann, Manuela Draeger, Elli Kronauer, Antoine Volodine. A bibliografia deles reúne cerca de quarenta títulos, todos publicados. É algo de considerável, mas é também um espaço literário heteronímico e fechado. Por via da regra, nenhum outro autor vivo pode entrar neste espaço. À excepção da poetisa russa Maria Soudaïeva, que conheci em Macau em 1993, e de quem traduzi, em 2004, o livro Slogans. Trata-se de uma autora à parte, cuja poesia extraordinária e apocalíptica responde à inspiração pós-exótica.

Quando me fazem uma pergunta acerca dos autores que mais me inspiraram, respondo sempre que por um lado seria injusto se falasse apenas de alguns escritores e esquecesse os outros. Por outro lado, digo sempre também que fui muito mais marcado por realizadores de cinema do que por escritores ou poetas. Mas prefiro não começar aqui uma lista que seria deveras longa. Digamos pois que em matéria de literatura mundial como de cinema descobri os clássicos ao longo da minha juventude e com o decorrer dos anos, como toda a gente aliás. Mas mais recentemente, desde o início dos anos 90, li muita literatura chinesa contemporânea e vi também muito cinema chinês, de Hong Kong e da China continental.

­– A sua obra desdobra-se por assinaturas de vários heterónimos. Porquê a necessidade dessas diferentes identidades artísticas?

A. V. – A ideia em torno da qual se constrói o pós-exotismo consiste em dar a palavra a uma comunidade imaginária de autores encarcerados, homens e mulheres. Todos partilham o mesmo destino e a mesma ideologia revolucionária, igualitarista. E é isso que vai dar uma orientação narrativa coerente ao conjunto geral, um pouco à maneira de um coro. Mas certas vozes são mais fortes que outras e suficientemente fortes para encontrar lugar no mundo editorial concreto, real. Certos autores pós-exóticos tornam-se autores independentes, publicados, e perdem assim uma parte da sua dimensão imaginária. Têm aliás maneiras diferentes de conduzir a ficção, temas pessoais distintos. Elli Kronauer constrói por exemplo as suas ficções, adaptando poemas épicos russos vindos da Idade Média. Manuela Draeger, por seu turno, é sensível ao tema do maravilhoso nos contos para crianças, é mais surrealista e, ao mesmo tempo, nota-se nela a nostalgia da União Soviética. Já Lutz Bassmann é mais áspero em temos de escrita, o que não o impede de introduzir nos seus romances toda uma série de pesquisas formais, haïkus, listas, etc. Todas estas personalidade se completam, mas todas têm também vozes originais.

– Uma das suas primeiras obras intitula-se “Lisboa, a última margem”. O que o levou a interessar-se pela cultura portuguesa e pelo idioma, que fala hoje fluentemente, quando é também falante e tradutor de russo?

A. V. – Sou casado com uma Portuguesa. Os meus laços com Portugal, Lisboa, com a cultura portuguesa e a sua língua são pois muito fortes. Gostaria de poder falar português muito mais ‘fluentemente’ e sem erros, mas nunca tive tempo de o trabalhar a sério para deveras o aprender.

– Finalmente, um comentário à sua participação no Festival Literário de Macau – Rota das Letras. Com que expectativas parte para este encontro?

V. – A ideia de ser convidado para vir a Macau falar dos meus livros é absolutamente extraordinária. Até aqui associei Macau à escrita, pois, como já disse, este é um lugar onde enquanto escritor sempre trabalhei espantosamente bem nos últimos vinte anos. Deste Segundo Festival Literário de Macau espero assim encontros fecundos com outros escritores convidados, descobertas intelectuais e humanas, mas também a possibilidade de explicar ao público de Macau o meu estatuto no seio das letras francesas (o de um escritor que “escreve em francês uma literatura estrangeira”). Terei igualmente o prazer de apresentar a tradução em chinês do meu livro Ecrivains (Zuojiamen), recentemente publicado em Taiwan pelas edições Maitian Chuban.  E como conheço bem Macau e a região será também para mim uma deliciosa ocasião para rever amigos e os lugares de que tanto gosto aqui.

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