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“Somos um bocado extraterrestres”

paragrafo111 k-1Os Dead Combo chegam a Macau no próximo mês de Março, com cinco álbuns de originais na bagagem. Mas também trazem temas novos, garante Tó Trips, cara-metade de Pedro Gonçalves naquele que é um dos projectos musicais portugueses mais reconhecidos no estrangeiro.

Pedro Galinha

Tó Trips e Pedro Gonçalves são os Dead Combo. Um duo “extraterrestre” com uma década de existência, cinco álbuns de originais editados e uma legião de fãs capaz de esgotar salas nas mais diferentes geografias.

Em Macau, a estreia do grupo está marcada para os dias 15 e 16 de Março, incluída no programa do Festival Literário – Rota das Letras, que conta ainda com a presença do fadista Camané. Curiosamente, um dos convidados do último álbum dos Dead Combo, intitulado “Lisboa Mulata”.

É ainda com este registo na bagagem que os dois músicos chegam ao território. Mas Tó Trips garante que o público local também vai poder escutar novas canções.

Nós, neste Oriente longínquo, agradecemos. Porque com os Dead Combo temos autorização para viajar até ao imaginário de Carlos Paredes, regressar a becos soturnos de uma Lisboa que já não existe ou entrar numa espécie de “western spaghetti” lusitano, cujos personagens poderiam ter nomes como “Anadamastor”, “Pacheco”, “Mr. Leone” ou “Mr. Eastwood”. Nem mais, nem menos do que títulos de músicas da banda lisboeta, que nos últimos dez anos tem somado prémios, como “Melhor Álbum da Década” (distinção do jornal Expresso a “Lusitânia Playboys”).

Mais recentemente, o grupo ainda viu três dos seus discos entrarem para o “top10” do iTunes norte-americano. Feito incomum no panorama português, ainda mais para dois tipos que se juntaram quase ao acaso, depois de um convite do radialista Henrique para fazerem parte de uma homenagem a Carlos Paredes.

 

– Não deixa de ser interessante ver um grupo conhecido por fazer música sem palavra (há excepções, como “Ouvi o Texto Muito ao Longe”) num festival literário. Nunca sentiram vontade de incluir uma voz nas vossas canções?

Tó Trips – Nunca sentimos esse tipo de vontade! Quando começámos os Dead Combo, fizemos uma jura em como não metíamos vocalista! Aliás, a nossa música não precisa disso. O caso do Camané [que dá voz ao tema “Ouvi o Texto Muito ao Longe”] é um caso diferente. É um texto lido, tipo ‘spoken word’, e é um amigo que admiramos bastante com uma voz lindíssima.

– A portugalidade é uma marca visível e os Dead Combo assumem-na. Já pensaram fazer um disco com menos alma lusitana?

T.T. – Penso que a nossa diferença reside aí, no facto de sermos portugueses e fazermos as coisas aqui. É aquilo que podemos dar de diferente, lá fora, a quem não conhece a nossa cultura.

– É difícil agarrar o público estrangeiro?

T.T. – (Pausa) Bom, vou dar um exemplo. Estivemos em Budapeste, onde apareceram alguns portugueses. Mas a maior parte do público era da Hungria. Posso dizer que tivemos boa reacção. Mas, depois, estivemos numa cidade universitária chamada Pécs – é como fosse a Coimbra deles. Tocámos num auditório para 600 pessoas e a maior parte do público foi ao concerto porque havia um rapaz que tinha um bar nessa cidade que passava Dead Combo. Toda a gente nos aplaudiu de pé e ninguém tinha ligações a Portugal.

– O fado continua a ser o género português mais conhecido por esse mundo fora?

T.T. – Sim, sem dúvida.

– E costumam descrever os Dead Combo como um grupo de fado?

T.T. – Falam muito do Carlos Paredes, do fado e da cena do western.

– Não se conseguem livrar dessa imagem do western…

T.T. – Temos vindo a tentar deixar isso para trás porque a nossa música tem outras coisas.

– O último disco, “Lisboa Mulata”, prova isso?

T.T. – Mesmo nos outros álbuns já tínhamos tentado variar um pouco. Creio que somos bastante eclécticos. Se há coisa que queremos fazer é explorar o que ainda não fizemos. No “Lisboa Mulata” foi esse lado africano, que, ao fim ao cabo, Lisboa também tem. Quando fazemos discos, temos em conta duas coisas. Primeiro, gostar daquilo que ouvimos. Depois, não pensarmos muito no lado comercial, até porque fazemos música instrumental, que não passará nas rádios. Além disto, também deixamos clara a nossa identidade, que é a de dois gajos que vivem aqui [lá], em Lisboa. Isso tem de estar reflectido nos discos.

– É de estranhar que, em Portugal, só os Dead Combo peguem neste conceito de música tradicional a lembrar o fado embrulhando-o em contemporaneidade?

T.T. – De facto, somos um bocado extraterrestres (risos). Bom, mas o que não faltam por aí são bandas portuguesas. No principio deste século, os músicos de Portugal começaram a ligar cada vez mais às nossas raízes. Temos B Fachada, Diabo na Cruz, Deolinda, A Naifa, OqueStrada. Não nomeei todos os nomes, certamente. Ou seja, há cada vez esse lado de pegar nas raízes, naquilo que é nosso, para fazer música. Nos anos 1990, por exemplo, o pessoal não ligava muito a isso.

– Quando é vamos poder escutar o próximo trabalho dos Dead Combo?

T.T. – Estamos a pensar em começar as gravações do novo disco ainda este ano. No meu caso, toco guitarra todos os dias. E é assim que se vão arranjando e guardando coisas. Depois, analisamos o que temos. No caso da onda africana que apresentámos no “Lisboa Mulata”, era algo que já vinha do tempo do “Lusitânia Playboys”. Na altura, ficou para trás porque não fazia sentido naquele álbum. Quando pensamos em discos, somos um bocado ‘punks’. Deixamos que as coisas fluam como elas são. Só tentamos mesmo é que sejam um pouco diferente das anteriores.

– Parece que já devem ter material preparado para o novo álbum.

T.T. – Nós andamos sempre com palhetas e malhas nos bolsos.

– Será possível ouvir novas canções em Macau?

T.T. – Sim, será possível!

– Ainda não há indicação sobre o local onde vão decorrer os dois espectáculos. Têm preferência por algum tipo de sala ou é-vos indiferente?

T.T. – O tamanho não é algo que nos interessa. O que nos interessa é o facto de as pessoas que vão irem para nos ouvirem. Muitas ou poucas, damos o litro na mesma. Mas é lógico que queremos que a nossa música chegue ao maior número de pessoas. No entanto, isso não implica deixarmos de tocar em sítios pequenos.

– Há alguma possibilidade ou teriam interesse em colaborar com músicos locais?

T.T. – Se há coisa que os Dead Combo fazem mais é tocar com outras pessoas. Por nós, estamos sempre abertos a apreender com os outros.

– A China, logo aqui ao lado, é um país que gostariam de desbravar musicalmente?

T.T. – Sim! É um país que nos atrai bastante. Por nós, já que estamos aí, é de tocar por aí. Mas depende do nosso manager e da nossa agência.

– Há alguns meses, o programa “No Reservations” ajudou a estender o conhecimento que o mundo tem sobre a vossa música. Foram uma espécie de guias de Anthony Bourdain em Lisboa. Esta aparição já se capitalizou?

T.T. – Sim! Arranjámos uma agência na Alemanha e outra nos Estados Unidos, onde vamos dar uns concertos este ano. Hoje, é um facto, temos imensa gente nos Estados Unidos que nos manda mensagens pelo Facebook para lá irmos.

– Tanto o Tó como o Pedro Gonçalves têm projectos musicais paralelos. São para continuar, até por uma questão económica e criativa?

T.T. – É sempre bom as pessoas terem outras aventuras criativas. Ficamos sempre mais ricos, mais sábios e descomprimimos mais, não estando sempre com a mesma banda.

– Continua a ser difícil viver da música em Portugal?

T.T. – Sempre, ainda mais agora! Por acaso, nós até somos uns sortudos e temos tido trabalho nos últimos anos. Para 2013, também temos boas perspectivas. Os Dead Combo são uma banda que até faz festivais, mas tocamos mais em espaços intimistas, como auditórios. O que se passa cá é que essas salas mais pequenas estão sem dinheiro. No ano passado, fomos ao Teatro das Figuras, em Faro, e disseram-nos que não teriam dinheiro para programação em 2013.

– Há dez ou 15 anos, Portugal começou a reabilitar a rede de cine-teatros. Agora, não são utilizados por falta de dinheiro. Assim fica difícil?

T.T. – Sim. Estamos tão bem de cine-teatros como de auto-estradas. Muito bem servidos! O problema é que não há dinheiro. Além disto, Portugal nunca olhou para a cultura como um investimento, uma indústria. Persiste a ideia de que a produção artística é feita por um punhado de tipos porreiros que fazem umas coisas. Malta que não quis estudar ou que até estudou, mas esteve em cursos de música que é um tipo de formação que a sociedade não valoriza. Ou seja, não é levada muito a sério. Isto é um erro. A cultura é exportável e há milhares de pessoas que trabalham neste sector, desde a senhora que nos vende um café até aos hotéis que nos recebem.

– Em algum momento pensou abandonar o país?

T.T. – Sinceramente, se não tivesse filhos e a banda – e se os Dead Combo não estivessem a dar –, sairia de Portugal. Um país que diz à malta nova para emigrar é um país sem futuro.

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