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“A era das vozes de ouro já deu o que tinha a dar”

paragrafo112 kÉ uma das vozes mais conhecidas do jornalismo e da rádio portuguesa. Mas como o próprio diz, Carlos Vaz Marques contém multidões. Às entrevistas (pessoais mas transmissíveis), junta a paixão pelas viagens e pela literatura, que traduz e edita. Actualmente, pode também ser ouvido, todas as sextas-feiras, na TSF, a liderar a equipa do Governo Sombra, com Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia e João Miguel Tavares. Em Março estará em Macau, para a segunda edição da Rota das Letras.

Inês Santinhos Gonçalves

– Que memórias tem, como jornalista, da transição de Macau para a China? Qual foi a sua percepção, à distância?

Carlos Vaz Marques – Lembro-me que na altura estava a fazer noticiários na TSF e que editei peças de reportagem dos enviados especiais ao território. Eu tinha estado em Macau em 1992, se não me engano, o que fez com que sentisse a questão com um pouco mais de proximidade. A sensação que tive foi a de que aquele terá sido o último acto no desmantelar do império.

– E agora mudando de assunto, mas não totalmente: o que faz um bom comunicador?

C.V.M. – Para ser franco, embirro um bocadinho com a palavra ‘comunicador’. Eu sou jornalista. Comunicadores somos todos, tenhamos ou não acesso aos media. O que faz um bom jornalista – para usar uma fórmula suficientemente genérica e em que caibam todas as vertentes do jornalismo – é saber estar atento e saber despertar a atenção daqueles a quem se dirige, usando o megafone a que tem acesso como algo que não lhe pertence, que lhe foi concedido de forma apenas temporária e para uma utilização com regras a que damos o nome de deontologia.

– No Pessoal e Transmissível entrevistou centenas de pessoas. Sem ter de pensar muito, quais as conversas que mais lhe ficaram na memória?

C.V.M. – Pelas minhas contas já ultrapassei há muito as mil emissões. De vez em quando, a propósito de qualquer coisa, lembro-me de uma dessas entrevistas. Mas são quase sempre entrevistas diferentes. Assim de repente, ter passado uma tarde em casa de Mario Vargas Llosa, em Londres, é uma experiência que não poderia ter tido de outro modo.

– É essencial criar empatia com o entrevistado num programa deste tipo? Como contornar um entrevistado lacónico ou mesmo um tanto aborrecido, em particular quando as entrevistas são feitas à distância?

C.V.M. – Só me lembro de uma entrevista feita à distância: comigo no estúdio da TSF em Lisboa e o Pedro Abrunhosa no estúdio da TSF no Porto. Acho que foi a única excepção a uma regra auto-imposta: a de que todas as conversas têm de ser olhos nos olhos. Claro que, como o Abrunhosa nunca tira os óculos, esse critério estava posto em causa à partida. Agora, a sério: a empatia é de facto essencial. E não há empatia sem proximidade. Quando o entrevistado é lacónico, evidentemente, tenho de ser eu a preencher os silêncios. É um dos ossos do ofício. Lembro-me de uma entrevista em directo, numa edição informativa da manhã da TSF, ao agora presidente timorense Taur Matan Ruak, da primeira vez que ele esteve em Portugal, em que bati com certeza o recorde do Guinness do número de perguntas por minuto. Foi um suplício. Espero que hoje seja mais fácil entrevistar o chefe de Estado do que foi para mim entrevistar o guerrilheiro tímido.

– É um homem da literatura – ou pelo menos trabalha muito sobre ela. Porquê, então, a rádio?

C.V.M. – Posso citar Walt Whitman? “I contain multitudes”. Todos somos vários, não apenas o Fernando Pessoa.

– Acreditamos que, acima de tudo, a rádio é som e voz. Das três pessoas que escolheu para o Governo Sombra, duas têm “defeitos” de voz: um fala ‘com os guês’ e outro tem uma voz ‘de pato Donald’. O conteúdo e o carisma sobrepõem-se a essas dificuldades?

C.V.M. – O que me interessa é o que eles dizem. A era das vozes de ouro já deu o que tinha a dar. Vozes muito bem colocadas sem nada para dizer sempre me pareceram a coisa mais ridícula que a rádio tem para oferecer.

– O Governo Sombra trouxe um género pouco utilizado em Portugal, de comentário da actualidade, político essencialmente, mas também humorístico. O modelo parece funcionar. Porque é que acha que não se faz mais?

C.V.M. – Creio que há outros exemplos de programas com um registo pouco enfatuado. Mas é verdade que em Portugal temos uma tradição de respeitinho que ainda não foi inteiramente debelada.

– Por vezes mencionam que recebem críticas dos ouvintes. O programa gera muito feedback? O que é que é mais apontado?

C.V.M. – Todas as semanas recebemos emails. A maior parte deles é de agradecimento e de elogio e em muitos casos as pessoas que nos escrevem dizem-nos que apoiam o Governo Sombra e até que o Governo Sombra devia concorrer a isto ou àquilo. O que nos faz sorrir, claro, porque não é raro haver grandes discordâncias entre os ‘ministros’. É verdade que isso também acontece no governo autêntico em funções, o que é capaz de explicar essas mensagens. Evidentemente, de vez em quando também há críticas contundentes e emails sem elogios, o que muito apreciamos.

– No início, o seu papel era praticamente só de moderador. No entanto, há medida que o programa foi avançando, tem participado cada vez mais nas discussões. Foi uma decisão consciente ou simples fruto de uma maior química entre a equipa?

C.V.M. –  A minha percepção não é bem essa. Achei desde o princípio que o meu papel não devia ser o do distribuidor de jogo anódino. Sempre que posso, meto também a minha farpa, sobretudo se me parecer que ela pode espicaçar um pouco mais a discussão. A minha função no Governo Sombra não é moderar, é justamente o oposto: estou ali para tornar a conversa o mais imoderada possível.

– Parece haver um grande à vontade entre o grupo, mesmo quando as discussões sobem de tom. Há conversas que continuam, entre vocês, fora do programa?

C.V.M. – Claro. Somos todos muito diferentes e discutimos bastante. Claro que acabamos sempre a rir. Quem se diverte mais com aquilo tudo somos nós próprios.

– Venceu o prémio Fundação Ilídio Pinho, de jornalismo científico. Foi uma excepção, ou interessa-se, habitualmente por ciência? Faz falta mais jornalismo de ciência?

C.V.M. – Os meus interesses são muito variados. Claro que o meu background científico é limitado, não vai além do que aprendi no secundário e do que, daí em diante, li por simples curiosidade. É de facto lamentável o grau de iliteracia científica – com honrosas excepções – da imprensa portuguesa. Estou a incluir-me no rol, evidentemente.

– Já traduziu Francisco Umbral, Peter Carey, Julien Green. A literatura perde quando traduzida? Ou um bom tradutor consegue sempre manter-lhe o ADN? Por outras palavras, acha que escondeu algo dos leitores em português?

C.V.M. – A literatura ganha em ser traduzida. Ganha, logo à partida, novos leitores. Claro que temos de ter consciência de que um livro traduzido é já outra coisa. Evidentemente, quanto mais trabalhada e mais idiossincrática for a linguagem do original mais longe dela se ficará na tradução. O caso mais notório é o da poesia. Acredito, no entanto, que se podem fazer boas traduções. Espero que as minhas o sejam.

– Coordena a colecção de livros de viagens da Tinta-da-china. Como é que isto aconteceu? Como decorre o processo de selecção?

C.V.M. – Sou amigo da responsável pela Tinta-da-china, Bárbara Bulhosa, já tínhamos trabalhado juntos e tínhamos uma vontade enorme de prolongar esse prazer de continuar a ter projectos comuns. Ela desafiou-me a criar uma colecção para a Tinta-da-china e eu lembrei-me da literatura de viagens, de que sou leitor há muito tempo e que junta duas das coisas de que mais gosto na vida: ler e viajar. O nosso entusiasmo pelo trabalho em conjunto é tanto que estamos agora a lançar-nos numa nova aventura, talvez o maior desafio profissional em que já me vi metido: vamos fazer a edição portuguesa da revista literária Granta, que eu vou dirigir. O primeiro número sai em Maio.

– A literatura de viagens tem de ser obrigatoriamente presa à realidade ou pode ser ficcionada?

C.V.M. – No modo como concebo a colecção, a ficção cabe dentro da literatura de viagens. Aliás, alguns dos livros que podemos considerar clássicos do género são pura ficção. O exemplo que me ocorre de imediato é o das Cartas Persas, de Montesquieu, que vamos editar em breve.

– As capas dessa colecção são um dos seus elementos mais distintivos – são grossas, muito bonitas, coloridas, com relevo. Encara o livro como um objecto de colecção – para ser estimado e adorado – ou vê-o como uma extensão do leitor, que vai com ele para todo o lado, que pode ser dobrado e sublinhado sem pudores?

C.V.M. – Estes livros são, evidentemente, peças de coleccionador. O trabalho da Vera Tavares, que é uma artista gráfica notável, deu à colecção uma identidade própria e fez dos livros que temos editado objectos belíssimos. Posso deixar uma sugestão? O ideal era que as pessoas comprassem dois exemplares de cada livro: um exemplar de exposição e um exemplar de trabalho. Assim, podiam sublinhar e amarrotar à vontade um deles e tinham sempre o outro impecável. A nós, dava-nos jeito a duplicação do número de exemplares vendidos, não vou escondê-lo.

– Ainda em relação à literatura de viagens, como explica que, apesar de mais de quatro séculos de presença em Macau, haja tão pouca literatura desse género sobre Macau e sobre a China?

C.V.M. – Boa pergunta. Isso também eu gostava de saber.

– Já pensou em escrever – literatura de viagens ou de outro tipo?

C.V.M. – Não está nos meus planos imediatos editar coisas minhas.

– É um utilizador fiel do Twitter. Fá-lo como jornalista ou apenas como passatempo? Qual é a sua relação com as redes sociais?

C.V.M. – Uso o Twitter e o Facebook como instrumentos profissionais e instrumentos de lazer. Tenho a mania de misturar coisas. Mas quando escrevo no Twitter ou no Facebook, embora não deixe de ser jornalista, não estou a fazer jornalismo, evidentemente.

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