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“O livro continua a ser um objecto de luxo em Timor”

1 luís cardosoLuís Cardoso é considerado o maior autor da literatura de Timor-Leste, país onde o livro é ainda um bem de acesso difícil. O contador de histórias, antigo representante do movimento independentista timorense, estará no território no próximo mês para participar no festival Rota das Letras. Vem à procura de uma história de Timor em Macau.

Maria Caetano

 

– A última obra que publicou, “O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação”, é descrita com o uma obra generosa, que inclui todos aqueles que participaram na construção de Timor-leste. Isto, numa altura em que o país tomou plena posse de si, com a saída da missão das Nações Unidas no final do ano passado. O seu livro procura marcar esta transição com um espírito de reconciliação e esperança?

Luís Cardoso – É uma leitura que se pode fazer. Quando escrevi o livro foi apenas com a intenção de contar uma história. Ou melhor várias histórias  que se encadeiam umas nas outras. A começar pela mítica viagem de circum-navegação. António Pigafetta o cronista italiano relatou com minúcia a passagem por Timor da nau Vitória.

– Com base nos recursos petrolíferos, a economia do país vem mantendo um crescimento elevado, segundo os dados do Banco Mundial. Tem receio de uma excessiva dependência de Timor dos fundos petrolíferos?

 L.C. – Não. Tenho receio é da má utilização desse fundo petrolífero.

– Lamenta também a corrupção? O que a pode impedir?

 L.C. – Creio que a corrupção é uma questão cultural. No dia em que o país estiver dotado de boas leis e sobretudo de uma consciência cívica do que deve ser o bem público, como nos países nórdicos, a corrupção deixa de existir.

– Há hoje mais oportunidades para os timorenses?

L.C. – Há mais oportunidade para alguns timorenses.

– O Luís Cardoso, hoje radicado em Portugal e impossibilitado de viajar até Timor, tem pena de não estar a assistir à reconstrução do país?

L.C. – Não. Participo de outra forma. Participo na construção de uma identidade timorense através da literatura. Teria pena se não tivesse feito nada por Timor na sua luta pela independência. Quando era necessário e pouca gente se interessava pela causa. Quando era apenas uma causa perdida.

– Fora de Timor, empenha-se na divulgação dos autores e das narrativas orais do país. O que devemos conhecer das histórias e escritores do país, que esteja acessível e que o Luís Cardoso recomende?

L.C. – Vou dando a conhecer alguns autores que vão passando por Lisboa. Creio que está tudo muito incipiente dada a falta de apoios de instâncias governamentais.

– Foi primeiro editado no Reino Unido, com “The Crossing”, numa altura particularmente difícil da história timorense. Foi uma oportunidade para a divulgação da sua obra? Há muito mais quem escreva em Timor e há oportunidades para a poesia e a prosa timorense encontrarem um circuito editorial?

L.C. – Tive a sorte de ter uma receptividade muito grande dos meus trabalhos sobretudo em meios universitários. Sou convidado a participar em colóquios em várias universidades como a Sorbonne. Há muito estudantes que fazem doutoramentos e mestrados com base nos meus livros. Ser traduzido em várias línguas foi uma consequência da aceitação dos meus livros no meio universitário.

– Conta que a Bíblia e um livro de disciplina militar foram os primeiros livros que leu. Continua a ser difícil o acesso ao livro em Timor?

L.C. – O livro ainda continua a ser um objecto de luxo em Timor. Poucas pessoas têm disponibilidade financeira para comprar livros. Abunda o dinheiro em poucas mãos que não o cidadão comum. Há muita falta de emprego.

– Quais os autores de que mais gosta hoje?

L.C. – Gosto de muitos escritores de língua portuguesa. António Lobo Antunes, Hélia Correia, Maria Teresa Horta, Pepetela, Agualusa, Paulina Chizane, Mia Couto, Luis Rufato, Ondjaki, etc.

– Diz que lhe custou ser o representante da resistência timorense em Portugal, como também não se vê como o representante da literatura timorense? Porquê? Vê esses rótulos como um fardo?

L.C. – O papel de representante é sempre um fardo. Creio que a única pessoa que pretendo representar bem, sou eu mesmo.

– A política de reintrodução da língua portuguesa em Timor está a ser bem sucedida?

L.C. – Não. Há muitos constrangimentos de ordem histórica, política e regional. Talvez com o tempo se fale uma língua portuguesa dos timorenses. Não aquela que se pretende reintroduzir e que está muito conotada com o passado colonial. Uma outra que se constrói lado a lado com o tétum.

– O que é que o conceito alargado da lusofonia diz aos timorenses?

L.C. – O conceito da lusofonia foi construído numa base muito saudosista. Numa disputa europeia pelos anteriores domínios. Prefiro os países de língua portuguesa. Quando a língua foi de facto uma escolha, consequência da auto-determinação dos povos.

– O que espera da sua participação no festival Rota das Letras no próximo mês? Tem planeada alguma intervenção em particular junto dos outros escritores convidados e do público?

L.C. –  Não tenho agenda. Cumprirei o que a organização pretende que faça. Irei a Macau também à procura da história de um conterrâneo meu que um dia se tornou um dos homens mais poderosos de Macau: Bernardino Lobo.

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