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“As obras plásticas são sempre uma meia-verdade”

fotografia-22Metade do sentido é dado pelo artista, a outra metade por quem vê. Théodore Mesquita, artista goês em residência em Macau, é um autor figurativo cuja obra tem o corpo como tema central. Cada quadro, diz, oferece uma narrativa de símbolos e sinais interpretáveis, onde entram objectos comuns e alguma religião.

Maria Caetano

Théodore Mesquita é um dos artistas plásticos convidados pelo festival literário Rota das Letras para uma residência que culminará com a apresentação de novas obras na galerias instalada no piso térreo da Casa Garden, da Fundação Oriente. “Um Diálogo de Cores” é o nome da exposição integrada no festival, na qual serão apresentadas as obras de Mesquita e também do artista chinês Chen Yu, que chegará mais tarde a Macau. A exposição será inaugurada dia 14 de Março.

Mesquita está actualmente a preparar dez telas para exibição na exposição deste mês, cuja simbologia se desdobra desta vez para acolher imagens e significantes chineses, como alguns caracteres que o artista explora semântica e visualmente. O goês pretende também incorporar a paisagem como elemento.

“Queria vir pintar e experienciar Macau”, diz o pintor, curioso em relação a um passado de presença portuguesa em que Goa e Macau se cruzaram e mesclaram de alguma maneira. “Tem que ver com construir uma ponte, preencher um vazio, perceber diferenças e semelhanças, e como estas influenciarão o meu trabalho”, explica.

Théodore Mesquita, formado em Belas Artes nas universidades de Bombaim e Baroda, está representado em várias colecções de arte na Índia, na Polónia, no Japão, no Egipto, no Brasil, na Grécia, na Roménia e nos Estados Unidos, bem como em Portugal, na Fundação Oriente. Mantém a Fundação Vice-Versa, em Campal, no estado de Goa, que apoia artistas através da atribuição de bolsas e residências.

O corpo é o tema que trabalha há duas décadas, na pintura, na litografia, desenho e ilustração. Acredita que “tudo está relacionado com o corpo e com as acções dos indivíduos”.

“Sou um pintor muito figurativo. Não consigo pensar para além deste espectro. De alguma forma, sigo a tradição antiga embora também trabalhe com novas tecnologias. Tenho impressões, como uma extensão da gravura, mas não faço instalações ou vídeo-arte. Acredito muito numa prática que é essencial ao meu trabalho, que é a de ter um contacto com ele”, conta.

O criador destaca ainda outra “linha consciente” do seu trabalho, a exploração de símbolos e sinais, de algumas marcas religiosas que absorve do seu quotidiano, mas vê a cultura de Goa como algo apenas “latente” na sua obra. As figuras que desenha e pinta, defende, são globais – memórias de corpos que imagina universais e que diz trabalhar com algum academismo.

“O mundo é mais circular. Houve um tempo em que era linear como o mar. Foi Copérnico que provou que a terra é redonda. Agora é um círculo e é possível encontrar imensas semelhanças em todos os cantos do globo. É bastante complicado, é tentar procurar coisas que podemos preservar”, explica.

São também recorrentes objectos mundanos – “como um copo, que é um recipiente comum”. “Agora estou a tentar explorar algumas coisas diferentes. Um dos elementos que estou a tentar incorporar nos meus trabalhos é a paisagem e caracteres chineses comuns. Folheio as revistas, tenho várias notas, e tento explorar alguns caracteres”, descreve sobre as obras que tem em mão.

O caracter aparece como símbolo de linguagem e imagem gráfica. “Há diferentes níveis. E acredito que as obras plásticas são sempre uma meia-verdade. Metade da verdade é dada pelo artista e a outra metade pelo público”, defende. “É esta a grandeza da linguagem visual, ter uma vida própria”.

As figuras, desenhadas ou pintadas, não têm cultura, terra, nome. “Vêm da minha memória. São posturas do corpo, são pessoas. Não procurei um tipo comum ou racionalizei perfis, no sentido de serem corpos portugueses, chineses ou de Macau. Isso nunca me passou pela cabeça. Actualmente, limito-me sobretudo a desenhar, pinto minimamente, há menos uso da cor e mais uso do traço”, explica Mesquita.

“Pinto de uma forma bastante académica, em termos das proporções, mas agora faço-o de uma forma mais global – na forma como pinto, como olho para as pessoas, como experiencio as coisas ou rememoro o que vi (o que sei, o que não sei e o que não quero saber). Há camadas de sentido”, sublinha.

O autor procura também estruturar narrativas em cada peça, salientando cada elemento figurado. “As pessoas constroem os seus sentidos. Tento criar um contexto e ligações, permitindo a identificação de tudo o que é visível”.

Para Théodore Mesquita, quem vê oferece a segunda metade da verdade à obra, que para o autor nasce cheia de um significado que “esvanece depois”.

A exploração dos temas religiosos, outra faceta, resulta de um “contexto muito católico, bastante repressivo”. “A igreja católica era muito poderosa em Goa, ainda é, embora não tanto como há 30 anos, e tem um influência forte no quotidiano”, explica, juntando que “há ainda imensos símbolos e sinais que são manifestações da igreja e que têm um papel no dia-a-dia”.

Agnóstico, mas crente em deus. Não-devoto, mas frequentador de baptizados, casamentos e funerais, Mesquita descreve-se com a história de Goa. “Parte de mim é hindu, aquilo quer éramos há 500 anos, e a outra parte é católica. Tento criar pontes entre este Oriente e este Ocidente. Há também um distante passado animista. Por outro lado, com alguma pesquisa, descobri que também tenho ascendência persa do lado da minha avó materna. Da parte do meu pai, porém, sempre acreditaram que eram muito arianos, que a linha de sangue era muito pura. Há imensas coisas, raças e culturas”. conta.

O autor podia ter um discurso sobre Goa na sua obra, mas rejeita o toma que considera “paroquial”. “Não pinto nem escrevo poemas a chorar pelo passado de Goa. Vivo em Goa e na prática faço coisas em Goa, não abandono o lugar. Temos um ditado: ‘Goan, going, gone’. É o que acontece com muitos goeses: vão embora e nunca mais voltam. Isto acontece há cem anos”.

Na Fundação Vice-Versa, Theodore Mesquita conserva e mantém antigos casarios goeses, de outro modo abandonados, entregues a residências artísticas e outros programas que, anualmente, acolhem criadores da Índia e de muitas outras paragens – estudantes e artistas estabelecidos em técnicas como a pintura, escultura ou gravura. Para este ano, os programas abrem-se à escrita criativa – a condição é a de que os autores recebidos escrevam sobre Goa.

O pintor é também defensor de um movimento para que o governo indiano legisle no sentido de a compra de terrenos no estado de Goa ser acessível apenas a goeses. “Há um grande movimento que está a ser agarrado por muitos políticos”, conta.

“Sabemos que dentro de 50 anos já lá não estaremos. Há muitos factores. Por exemplo, os goeses falam imensas línguas, excepto a sua própria língua. Têm vergonha de falar konkani. Não queremos fechar Goa, mas também não queremos que se perca”, afirma.

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