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“O que tenho na cabeça são romances”

paragrafo114-1Do Brasil para Macau são 11 horas de diferença e é com essa distância que falamos com Alexandra Lucas Coelho – lá, onde vive há dois anos, é ainda noite, enquanto cá já é manhã do outro dia. Faltam dez dias para a jornalista chegar a Macau, onde participa no festival Rota das Letras – a vinda ao território serviu de pretexto para uma viagem e um livro sobre a China. Em paralelo, trabalha no seu segundo romance, “Deus dará”, sobre o Rio de Janeiro.

Inês Santinhos Gonçalves

– Já tem livros de reportagem no Egipto, em Israel/ Palestina, no Afeganistão, no México. A China pode vir a ser o cenário de um livro seu?

Alexandra Lucas Coelho – Sim, sim, eu vou mesmo fazer uma viagem por causa deste festival. O convite do festival desencadeou a ideia de fazer uma viagem pela China, que é um lugar onde nunca estive. A norte, o mais oriente a que estive foi em Novosibirsk, na Sibéria. A sul foi em Lahore, no Paquistão. Esses acho que foram os lugares mais a oriente que estive. Não conheço absolutamente nada do Extremo Oriente. Embora tenha vivido e trabalhado muito no Médio Oriente. Mas para mim sempre foram orientes muito diferentes. Literalmente, esse Oriente para mim era próximo, a todos os níveis. Talvez tenha que ver com a literatura, mas também com a geografia, com o Mediterrâneo. Daí vem tudo, as oliveiras, o azeite, o pão, o vinho, todas essas coisas que nos aproximam. Enfim, aconteceu que me fui interessando por várias zonas do mundo diferentes, umas por acaso, umas porque umas levam a outras, umas por causa dos livros. A China é um território absolutamente enigmático para mim. Li mais prosa japonesa, por exemplo, e isso aproximou-me do Japão. Há uma zona da China que tem que ver com aquela zona da Ásia Central, com o Afeganistão, que até já estudei um bocadinho. O cinema talvez seja a arte que me fez ter um pé ténue na China. Mas é um território absolutamente estranho, no sentido de ser invisível para mim. Durante muito tempo achei que era tão grande e tão imenso que já não era para esta vida, ia desistir da China porque já não tinha tempo. Deixei isso ao acaso. E então apareceu este convite para ir a Macau. Não sou religiosa mas acredito nos acasos, têm uma forma desencadeadora que podemos aproveitar ou não. Há muitas coisas que são postas no nosso caminho, algumas aproveitamos, outras não. Neste caso achei que sim, que podia ser um ponto de partida para uma viagem.

– Por onde será, então, essa viagem?

A.L.C. – Não é um plano muto ambicioso tendo em conta o tamanho do território. Além do festival, vou estar um mês a viajar. Quero ir a Hong Kong, Xangai, Pequim, Shenzhen. É um pequeno plano de viagem. É um território tão imenso e complexo, em mudança acelerada, para mim é impossível pensar que consigo sequer preparar a viagem. Entre a história milenar e as mudanças aceleradas, acho que é respirar fundo, começar e ver o que é que acontece. Na verdade ainda não preparei nada. Costumo ler antes de ir e marcar uma série de conversas. Ainda não consegui fazer isso, estou mergulhada na escrita do novo livro. E ainda por cima, estou aqui no Brasil, estou quase nos antípodas, estamos a falar com 11 horas de distância. Estou tão noutro ponto da Terra que pensei ‘Não, vou pôr o pé em Macau e a partir daí vou começar a procurar’.

– Para os outros livros fez muita pesquisa e partiu com muitas entrevistas agendadas. Vai fazer isso também?

A.L.C. – Sim, sim. Escrevi a várias pessoas e tenho já uma lista grande de contactos na China. Vai ser uma viagem bastante diferente de outras que fiz. Primeiro porque já não estou a trabalhar a tempo inteiro para um jornal, sou freelancer. Não tenho essa obrigação de fazer uma série de reportagens. Vai ser uma viagem mais livre, nem sei bem que tipo de coisa é que quero escrever. Penso fazer um texto de viagem mas nem sei bem como é que isso vai ser. Não quero que seja nada repetindo as experiências que tive, quer no “Caderno Afegão”, quer no “Viva México”. Talvez esta seja uma viagem menos jornalística que as outras. É muito difícil para mim ter sequer uma ideia do que me espera.

– Não vem, então, em busca de uma história em particular que queira contar.

A.L.C. – Não. Tenho ideias, tenho pistas vagas do que me interessa. Interessa-me sempre conversar com as pessoas, tanto quanto possa. Há a questão da língua – mas no Afeganistão também, embora eu dominasse algum vocabulário. E, enfim, eu sabia muito mais sobre o Afeganistão, eu tinha lido uma biblioteca, dezenas de livros, 20 ou 30 livros sobre o Afeganistão. Já sobre o México, não foi assim, mas o México tinha a vantagem de eu perceber tudo o que acontecia ao meu redor. Temos sempre de saber um pouco do lugar para onde vamos. Isso é evidente porque isso nos protege e nos defende, e porque é o respeito mínimo por quem está à nossa frente. Portanto, é óbvio que tentarei fazer esse trabalho, não quero ir totalmente em branco.

– Macau fará parte do livro?

A.L.C. – Sim. Nunca tive esta oportunidade de começar uma viagem com este condensado de gente à minha volta, muito interessante e disponível durante uma semana. Quero aproveitar essa semana em Macau para conhecer os artistas chineses que vão aí estar. Gostava de os entrevistar, se possível a todos. Acho que já vão ser muitos pontos de partida. Quero aproveitar muito o festival, acho que poderá ser um início – não necessariamente do livro.

– Não será cronológico?

A.L.C. – Não sei. Os outros são. Mas acho que só vou decidir isso quando voltar – se o livro vai ser construído numa lógica de progressão, de um viajante viajando no território, de A a B, ou se vou construir o livro de outra forma. Não sei até que ponto poderá ser um registo híbrido, que seja meio romance. Tudo é possível. Vou tirar muitas notas, escrever muito durante a viagem e depois vou decidir isso. Estou no meio de outro livro e esta viagem, na verdade, vai cortar a escrita sobre um romance sobre o Rio [de Janeiro].

– É de ficção, então.

A.L.C. – Sim. Em termos de estrutura é muito complexo, são sete personagens, figuras muito diferentes umas das outras. A viagem da China vai cortar isto ao meio durante uma boa temporada. Não sei sequer se, depois de voltar da China, vou escrever sobre a China, se vou deixar a China à espera e quando acabar o romance do Rio volto a ela de uma maneira diferente. Não sei absolutamente nada.

– Em que fase vai o livro?

A.L.C. – É um livro que implica muita pesquisa por isso está muito estruturado, sei exactamente o que vai acontecer em cada parte. Mas tenho ainda muitas coisas em bruto. É uma experiência totalmente diferente das anteriores. Em termos de escrita definitiva tenho muito pouco. Ainda estou na primeira parte e são sete partes.

– Viaja muito e já viveu em países diferentes, dedicou-se a reportagens de fundo, por vezes com um registo literário, e agora tem-se concentrado nos livros. Como jornalista, nos dias de hoje, como é que se consegue fazer tudo isso?

A.L.C. – Bom, não sei se isso ainda se aplica. Saí do jornal [Público] onde trabalhei 15 anos, hoje sou freelancer, não tenho a menor ideia de como vou viver. É uma opção de vida. Olhando de repente para os livros e para tudo, pode dar a impressão que a minha vida foi isso, mas sou jornalista há muito tempo. Não me queixo, viajei, conheci o mundo, gosto muito do que faço e gostei sempre muito. Tive muita sorte e muitos acasos fantásticos que me levaram a lugares. Mas passei muito tempo na redacção, fui editora, passei muito tempo a escrever notícias, fiz muitas conferências de imprensa. Passei certamente mais tempo dentro da redacção do que fora dela. De repente pode parecer que foi sempre uma vida muito excitante, de um lado para o outro, mas não foi assim. Num ano podia fazer duas coisas desse tipo. Por outro lado, também é verdade que a minha geração – tenho 45 anos – apanhou um boom económico, na imprensa, apareceram as televisões e rádios privadas, apareceu o Público. Eu nem sequer apanhei a fase mais extraordinária do Público, que foi uma altura em mandava gente para todo o lado do mundo. Também trabalhei muitos anos na rádio, onde fiz muita reportagem, tive experiências maravilhosas, toda a fase da Rússia, por exemplo. Isto para dizer que as circunstâncias eram outras e isso me beneficiou muito. Claro que hoje é muito mais difícil para quem comece a fazer jornalismo, sem dúvida. Mas também é muito difícil, agora, para a minha geração. Tenho 45 anos e decidi tornar-me freelancer. Estou na mesma situação que tantos e tantos jornalistas, que não sabem bem como vai ser o seu próximo mês.

– Mas também foi preciso arriscar.

A.L.C. – Sim, eu podia ter tomado outras decisões. Podia ter continuado no jornal. Desisti de ser editora, o que financeiramente é mais compensador, e voltei a ser repórter porque era isso que queria fazer. Mas isso são decisões que se tomam. Ser editora é uma experiência interessante num jornal mas acho que se esgotou para mim. Isso tem que ver com aquilo que nós queremos fazer, que nos vai movendo. Assim como a certa altura se tornou difícil trabalhar as coisas num curto espaço de tempo. Deixou de me interessar tanto isso. Interessa-me cada vez menos ir fazer uma reportagem a correr e escrever cinco mil caracteres. E o que tenho agora na cabeça são romances, há vários que quero fazer.

– Como é que vê a redução das secções internacionais, de conteúdo próprio? O mundo está a ficar mais pequeno?

A.L.C. – O internacional sempre teve importância na imprensa portuguesa e em particular no Público, era uma secção nobre do jornal. Para mim, chegar ao Brasil e ver o espaço que o internacional ocupa na imprensa brasileira foi uma coisa impressionante. A nossa percepção do mundo quando vivemos num país continental é necessariamente diferente. Porque é que isto é assim? Porque de alguma maneira, o Brasil é auto-suficiente, basta-se a si próprio. Por isso tem relativa pouca curiosidade em relação ao exterior. Tem relações de fascínio com os Estados Unidos, com as grandes cidades europeias. Mas a nossa disponibilidade, na Europa, para olhar para fora é muito maior, a nossa curiosidade é muito maior, aquilo que sabemos é muito mais, a nossa compreensão dos fenómenos é maior.

– Mesmo hoje em dia?

A.L.C. – Sim, acho que sim. Mas em relação a deixar de haver reportagem, isso é um empobrecimento óbvio porque  a compreensão dos fenómenos complexos vai-se tornando cada vez mais pobre. O mundo vai-se tornar cada vez mais a preto e branco, as lógicas maniqueístas vão vingar, os maus são maus, os bons são bons, o claro é claro e o escuro é escuro. O trabalho do repórter é justamente acrescentar nuances, mostrar que no bom há o mau e no mau há o bom. As coisas nunca são só uma coisa, são muitas coisas. Os brasileiros exumaram o corpo de (para eles) D. Pedro I, o homem que deu o grito do Ipiranga. Ele tem este lado de herói mas ao mesmo tempo espancava a sua primeira mulher, a Imperatriz Leopoldina, até enquanto ela estava grávida. Estava a ler um texto de uma historiadora que dizia, a certa altura, ‘Se querem conservar os heróis talvez convenha não os examinar muito de próximo’. Isto é válido para tudo. Se as pessoas querem conservar as suas ideias feitas, os seus preconceitos, o senso-comum, então não precisam dos repórteres para nada, têm as suas doses de realidade em 30 segundos nos telejornais, que lhes vão continuar a dizer tudo aquilo que elas já sabem. Não lhes vão ajudar a compreender nada, o que está a acontecer no Magrebe, no Mali, na Síria ou aqui nas favelas do Brasil.

– E as pessoas querem mesmo saber o que se está a passar no Mali?

A.L.C. – Essa é a pergunta clássica que se faz em relação aos livros, também. Tem de haver um equilíbrio entre o que é o interesse do leitor e o que do interesse do leitor saber. Eu acredito, e essa tem sido a minha experiência, que se um jornalista procurar, vai encontrar formas interessantes de contar uma história. Como é que eu vou pegar em qualquer coisa que é complexa e torná-la simples? Como é que vou pegar em qualquer coisa que está gasta, como o conflito israelo-palestiniano e fazer as pessoas lerem ainda mais uma história? Esse é o desafio do repórter. Acredito que se as coisas forem bem trabalhadas, serão interessantes. Em todas as histórias é possível encontrar alguma coisa que vá de encontro a quem me está a ler, que vai fazer soar uma campainha. Mas o repórter tem de ter noção de que as pessoas têm três milhões de coisas para fazer, para ler, abrem a Internet e podiam ficar ali infinitamente a ler coisas. Porque é que hão-de ler o texto que ele escreveu? Ele tem de lhes dar razões para isso – tendo ele próprio condições para isso, sendo apoiado para o fazer. Porque muitas vezes, pobre do repórter, tem cinco coisas para fazer ao mesmo tempo, no mesmo dia, e esses são os que têm trabalho. Os jornais deviam continuar a dar argumentos aos leitores, a dizer-lhes que não vão encontrar aquelas histórias no Facebook, nos blogues. Mas isso significa que é preciso investir em singularidade, qualidade de escrita, em investigação, em formação. Eu não acredito nessa coisa que hoje em dia qualquer pessoa é repórter, só porque tira uma foto com o iPhone. Não é isso que faz o repórter, é o tempo que ele perde para tornar aquela história completamente única, é a forma como ele investiga, como ele a conta. A diferença é que faz a diferença. Só essa coisa única é que pode ter leitores. Não vejo como possa ser de outra forma. Se não qual é a alternativa? Vamos fechar os jornais e desistir? Aí é o grande caldeirão em que é muito difícil distinguir seja o que for. Cada um vai à pesca do que quiser.

– Mas parece que é para aí que caminhamos.

A.L.C. –  Para mim, que saí de um jornal, o caminho dos jornais não é tornarem-se mais leves e frescos mas, pelo contrário, tornarem-se mais densos. Porque o que as pessoas não encontram nas redes sociais é especificidade, um ponto de vista de quem foi treinado e preparado para aquilo.

– Quando é que percebeu que iria ter, de certa forma, uma vida itinerante?

A.L.C. – Sempre quis. Desde que me lembro que sempre quis escrever e viajar.

– E isso é fácil de gerir?

A.L.C. – Em que aspecto? Neste momento estou em mudança e não sei onde vou morar no próximo mês. Claro, há dificuldades práticas, burocráticas. Não sei, literalmente, onde vou viver quando voltar da China. E sim, os meus amigos estão em Lisboa e tenho amigos aqui no Brasil que quando for embora eles ficarão aqui. Tenho amigos noutras partes do mundo. Mas aí entra a Internet. Há pessoas com quem falo todos os dias, todos os dias uso o Skype e o Viber. Tenho um namorado em Lisboa. Para mim isso faz parte. É uma escolha. O que não quer dizer que seja assim sempre. O Rio é uma cidade tão envolvente, é tão difícil uma pessoa sentir-se sozinha, é tão rápido para conhecer gente. O mais difícil é resistirmos a sair todos os dias, porque todos os dias há coisas para fazer, há alguém que chama. É uma cidade extraordinária por muitos motivos e também por isso, porque é muito easygoing, as coisas são muito desdramatizadas. Essas angústias típicas dos desenraizados são muito desdramatizadas aqui. É uma cidade onde é muito difícil as pessoas ficarem angustiadas, tristes, deprimidas. É uma cidade que está sempre em luta com essa natureza. É uma boa cidade para os portugueses. Mas por exemplo, vivi em Jerusalém e era uma cidade de onde, chegado o fim-de-semana, tinha de ir embora para respirar. É uma cidade sufocante porque há uma tensão contínua. Mas é uma cidade onde adorei viver, foi inesquecível. As cidades dão-nos energias diferentes para fazer coisas diferentes. A grande arte é tentar, em cada lugar, fazer aquilo que o lugar engendra em nós. Na nossa luta com o lugar, no nosso envolvimento com o lugar, aquilo que existe, que se cria no nosso choque com o lugar – essa eu acho que é a grande arte.

– Como surgiu esse interesse pelo Médio Oriente?

A.L.C. – Surgiu por causa de Alexandria. Li “O Quarteto de Alexandria”, do Lawrence Durrell. Depois disso fui ler Kavafis, que é o poeta grego mais importante de Alexandria. A partir daí criei uma relação muito forte com a cidade. Acontece que em 2002 ia inaugurar a nova biblioteca de Alexandria, e propus ao Público ir um mês para lá – eles davam-me o tempo, eu pagava as despesas, e fazia textos sobre a inauguração. Mas quando aterrei no Cairo ligaram-me do jornal para dizer que Israel tinha começado a maior operação nos territórios palestinianos nos últimos anos. Pediram-me que fosse imediatamente para Jerusalém. Não fazia ideia do que eram os territórios palestinianos. Era completamente ignorante, não sabia nada de nada, não sabia o que era Ramallah, o que era Gaza. Mas disse que ia. Apanhei um avião do Egipto para Israel. Aterrei em Jerusalém sem saber nada, com uma mala com roupinha de quem vai ficar um mês numa cidade a escrever sobre literatura, quando estava a aterrar no meio de uma guerra. Fiquei um mês e meio e não me queria vir embora, o jornal teve de me obrigar. Foi uma experiência de total enamoramento. Ao fim de uma semana parecia que já estava ali há um ano. Foi muito intenso, um mês e meio a escrever todos os dias. Escrevi 45 textos. E a viajar de um lado para o outro. Foi alucinante, com coisas muito intensas a acontecer. Ao fim desse mês e meio estava completamente metida naquela história, só queria continuar a cobrir aquilo. A vez seguinte que fui a Israel e aos territórios palestinianos foi na véspera da morte de Yasser Arafat. Quando voltei pensei que queria ir viver para Jerusalém. Foi uma relação que durou de 2002 e 2009.

– Como é que olha para o conflito israelo-palestiniano? Consegue ver-lhe o fim?

A.L.C. – Existem resoluções das Nações Unidas e essas resoluções deviam ser cumpridas, pelo menos como ponto de partida. São a nossa única base possível de consenso. Essas resoluções não foram aplicadas nunca. Vejo as coisas cada vez piores. Só vejo mais colonatos, o Governo israelita cada vez mais à direita. O escritor libanês Amin Maalouf, durante a primeira eleição do Obama, dizia que esperava que Obama fizesse muito pela paz no Médio Oriente. Eu nunca esperei isso. Talvez agora no segundo mandato, como já não tem de ganhar os votos da comunidade judaica americana, vá fazer alguma coisa. Mas não vejo nenhum sinal disso.

 – Estreou-se, no ano passado, na ficção. Queria desprender-se do real ou buscava maior liberdade no registo?

A.L.C. – Não quero afastar-me do real, o real é o que me interessa. Estou agora a escrever este romance no Rio e sobre o Rio para tentar captar o momento que o Rio vive agora. Passa-se todo em sete dias, no final de 2012. A forma como estou a fazer isso é o romance. Tenho sete personagens  – cinco brasileiros e dois portugueses – que foram inteiramente criados, não há nada de autobiográfico. É uma experiência radicalmente diferente do romance anterior, que era deliberadamente muito colado à minha própria experiência. Mas o que me interessa é sempre o mesmo, captar o real, tentar dar o pulsar da vida num determinado momento.

– As parecenças, realmente muito óbvias, entre si e a personagem principal de “E a noite roda” foram, então, intencionais?

A.L.C. – Claro, se não teria disfarçado. Aquela história tem que ver comigo, são experiências que tive e queria transportá-las para um território que não é o do realismo, porque é inteiramente livre. A fronteira entre o jornalismo e a literatura não é entre o real e a ficção, para mim a fronteira é a liberdade. No jornalismo estamos condicionados por uma série de regras e nunca somos inteiramente livres, não posso fazer com aqueles materiais aquilo que eu quiser. Na literatura, posso fazer o que quiser. É sempre uma diferença de liberdade. No primeiro romance, tratava-se de pegar em materiais que eram da minha vida, que me eram muito próximos, e trata-los com uma liberdade que o jornalismo não permitia. Aquela personagem não sou eu. O ponto de partida sou eu, o ponto de chegada já não sou eu. Há um momento em que nos separamos e ela é um ser que vive lá, no livro. Já este livro, é outra experiência. A linguagem é uma questão decisiva neste livro. Tenho diálogos em português de Portugal e em português do Brasil. Não é um livro que um carioca escreveu, nem é uma portuguesa a fingir que é carioca. É um livro que só um português poderia escrever, mas um português que tivesse vivido no Rio.

– Às duas personagens principais separam-nas não só as circunstâncias mas também o espaço – estão quase sempre em países diferentes. É por isso que a noite roda?

A.L.C. – No final do livro há uma explicação literal, que tem que ver com um poema. Mas usei o título, que vem desse poema, porque me pareceu que sim, que a noite roda e eles já vão ser outras pessoas, e a vida segue. É noite aqui e de manhã na China. Temos sempre a hipótese de viver outra vida na manhã seguinte. É uma declaração optimista de alguma coisa.

– Essas mudanças geográficas constantes acabam por tornar o livro num romance sem pátria. Isto apesar de a personagem principal ser catalã e uma parte do livro se passar em Barcelona.

A.L.C. – Ela tem com Barcelona a relação que eu tenho com Lisboa, de base, de sítio onde se volta. Também nesse aspecto o livro do Rio vai ser totalmente diferente.

– “E noite roda” é um livro cheio de referências musicais e de poesia. São suas – reflectem os seus gostos – ou inventou um perfil musical para a personagem?

A.L.C. – São referências minhas. O livro do Rio também vai ter muita música. Vai estar cheio de canções. Isso faz parte do que é esta cidade, está em todo o lado.

– Quando espera publicá-lo?

A.L.C. – Sei quando é que queremos publicá-lo – eu e a editora – que é no final deste ano.

– E o da China?

A.L.C. – Se tudo correr conforme o meu plano inicial, o romance seria publicado em Novembro e o livro da China na Primavera de 2014. Mas poderá ser ao contrário. De qualquer forma, este ano vai sair, em Maio, um livro de crónicas que publiquei no Público. Vai chamar-se “Livros com bolso – de Bombaim ao Rio de Janeiro”. No Outono sairá outro, que em princípio será o romance.

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