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Artistas sem palavras

Lorence Chan Ka keongNo festival Rota das Letras, há espaço para artes visuais de Macau irem “além das palavras”. O desafio, proposto pela comissária Alice Kok, é o de exprimirem o indizível. Foi aceite por mais de duas dezenas de criadores.

Maria Caetano

A linguagem das artes visuais, para lá de todas as letras, tem parte no festival literário de Macau, na exposição “Beyond Words” (“Além das Palavras”, em língua portuguesa) que dá a ver novos autores e novas obras plásticas no edifício do antigo tribunal, na Avenida da Praia Grande. Inaugura na próxima quinta-feira.

Alice Kok, comissária, juntou 23 artistas e pediu-lhes que transmitissem o indizível ao público do Rota das Letras em pintura, desenho, escultura, instalação, fotografia – abrindo espaço também para uma pequena performance. A condição para a participação foi a de que exibissem obras novas, concebidas de propósito para a exposição ou nunca antes dispostas perante o público.

“’Além das Palavras’ é uma espécie de ‘uau’, um ‘sem palavras’, ou pode ser descrito como o processo artístico, numa imaginação que usa a linguagem das imagens e das formas, em dose maior do que o pensamento literário”, explica a comissária sobre o tema em torno do qual se reúnem as mais de duas dezenas de artistas convidados.

Para Kok, “reconhecer este processo de construção de imagens e formas é o ponto de partida para compreender a linguagem das artes visuais”. “Se Picasso fosse capaz de exprimir totalmente tudo o que queria explorar em palavras, não teria pintado sequer. Bastaria falar”, completa sobre o tema proposto.

A lista de artistas é longa e prima pelo inédito. Há nomes desconhecidos do público de arte, outros com trabalho divulgado em poucas ocasiões, e ainda outros mais experientes, mas que optaram por explorar novos campos. A mostra divide-se em duas alas, em percursos que preenchem duas alas do velho tribunal. À direita de quem entra, há vídeo, fotografia, instalação, escultura e técnicas mistas que metem, poucas, palavras à mistura. À esquerda, pintura, desenho, mais instalação.

Tempo ampliado

Um vídeo de Catherine Cheong abre a mostra num murmúrio cantado, de uma língua indecifrável, apoiado por caligrafia igualmente obscura criada pela artista e designer gráfica de Macau. “Audição Interna e Visão Externa” é projectado na primeira sala.

Lavinia Che e Aquino da Silva, à entrada da segunda galeria, trabalham poesia e folhas de chá. “Outubro” é o nome da peça exibida, homónima de um poema escrito por Che e que Aquino da Silva pintou em caligrafia, chá sobre papel de aguarela, passado conservado e reanimado em fervura no bule como as memorias de um Outono qualquer.

Kei Wong, fotógrafo local actualmente a residir em Pequim, prolonga um instante, um pestanejar numa série sequencial de três imagens de grande escala em “Blink”. “Nunca pensei que o tempo de intervalo de um pestanejo pudesse ser tão longo. É como um segundo ser supostamente curto”, explica sobre as peças.

Ao fundo, Lorence Chan Ka Keong prolonga o tempo em texturas minuciosas que ganham relevo em fotografias nebulosas: plástico amachucado numa imagem de cantos queimados, fios de cabelo espesso e tingido, o mar difuso com a intromissão de uma fio de cabelo na paisagem. “Microscopicamente virtual” é uma instalação acompanhada de sons recolhidos pelos artista, também designer e realizador.

Mike Ao Ieong, também fotógrafo e publicitário, apresenta “O plano de invasão – a destruição da besta”, escultura em papel e fotografia a reboque das teses do fim do mundo, que nunca chegou a acontecer. “A besta do absurdo continua a espalhar-se em diversos locais, sem razão aparente e de um modo extremamente ridículo. Assim, invadir passivamente torna-se um dos melhores modos de resistir”,  apresenta no enunciado da obra.

Cidades enquadradas

Uma outra galeria é reservada para a fotografia, onde expõem Mina Ao, fotógrafa de Macau a residir no Canadá, e Yu Xiao Feng, artista de Chongqing. Ambos reflectem a experiência da cidade – e do imobiliário. “Os Sortudos”, de Ao, traduz tempos de uma prosperidade limitada encontrada em Macau. “Mixed Dacron”, de Yu, sugere uma vivência atemporal do ambiente construído, “antes muito popular, mas perecível”.

A mostra prossegue com “Grafismos de Sombras” de Yves Sonolet, caixas de luz que recriam o recorte de transeuntes sobre néones numa rua da Pequim. “Podemos especular sobre a forma como a soma de passos isolados no espaço urbano compõe uma megapólis”, descreve-se.

O caminho até à última sala é percorrido junto a uma instalação de Rui Rasquinho, ilustrador, animador e, aqui, autor de uma peça que recorre à técnica de mise-en-abîme para que quem entra na obra seja de novo reconduzido ao espaço do tribunal, e de lá, novamente, entre na obra, no tribunal, na obra, no tribunal.

Ao lado, Yukko Chan comanda “Abre os Olhos!”. Instalação, vídeo, som e uma pequena performance conduzem a figuras femininas, imagens sobrepostas sobre o corpo. A artista, de Hong Kong, foi vencedora do Prémio Artista Emergente atribuído pelo Conselho para o Desenvolvimento das Artes da região vizinha, em 2010 e também em 2011.

Imortalidade e matéria

A segunda ala abre com uma série de pintura do artista Sylvie Lei, a explorar o tema do espaço, e com duas telas de Gretchen Ettlie, artista norte-americana radicada em Macau desde 2005. “À Deriva I e II (Princípios Fundamentais do Equilíbrio e do Movimento” reflecte sobre a gravidade dos corpos estelares em pintura em acrílico.

Carol Kwok, fotógrafa, retoma o tema da imortalidade e dos princípios da medicina tradicional chinesa com uma caixa de luz e uma escultura em papel machê. Kwok explora “a forma como a existência persiste para além do seu invólucro e da sua própria decadência”, segundo descreve.

Carmen Tong parte do artesanato e da recuperação de materiais para apresentar um objecto de mobiliário escultórico trabalhado a partir de desperdício encontrado no lixo.

“Vertical”, de Cláudia Yunni Dan, é outro exemplo de reaproveitamento de materiais. A artista, natural de Xian e tradutora jurídica, expõe um tríptico de desenho sobre contraplacado no qual o traço segue os veios da madeira.

“Eu escolho muito pouco ao longo de todo o processo. Ao invés, estas coisas escolhem-me a mim. Em poucas palavras, a diferença de trabalhar em madeira ou em materiais mais nobres, como o papel, a tela ou outros, é que nas últimas desenhamos ou pintamos pinturas e na madeira ‘desenhamos’ ou ‘pintamos madeira’”, descreve sobre o seu processo.

Personagens e emoções

Na mesma galeria estão os desenhos de Fan Sai Hong, autor da obra “Faichikei6floor”. “Flutuação” é uma série de desenhos a lápis, numa narrativa sequencial, onde as imagens procuram exprimir o pensamento.

Ivy Leong Mostra também “Pinto o que Vejo”, carvão sobre papel onde a artista, também designer, procura a fuga à linguagem verbal. “Acredito nos olhos da alma e na afeição causada pelos movimentos do corpo”, conta.

Chystal Chan estreia-se na apresentação de pintura com dois trabalhos: “A tua raiva é rosa” e “A minha tristeza é verde”. São dois retratos onde cores e rostos  exprimem emoções, algo que a artista acredita ser “frontal, honesto e inocente”.

João Tércio é outro dos autores representados, com pintura e acrílico. Três telas apresentam três personagens: “O Fantasma do Rock”, “A Tristeza do Mandarim” e “O Coelho Pensador”.

“Geralmente tento apagar as personagens das pinturas, recusando de alguma forma a lógica da narrativa de que tanto gosto no cinema, e também tento contrariar as minhas obras recorrendo à banda desenhada, mas desta vez deixei as personagens sair. São as primeiras impressões de uma nova terra que não estou pronto para apagar”, explica. João Tércio, artista em diferentes disciplinas, é autor do romance gráfico “Março Anormal”.

“Penso, logo existo. Portanto, estou a pensar” é a obra de Nick Tai, óleo sobre tela, onde o autor volta a explorar narrativas e monólogos em português com os quais reflecte a experiência do período colonial e pós-colonial em Macau.

Ligados e omnipresentes

O centro da ala direita é preenchido com duas instalações. Jeff Wong apresenta “Ligado”, uma escultura produzida este ano com recurso a arame, plástico e utensílios de cozinha com a qual tenta descrever o fenómeno da ligação permanente da era digital e do iPhone. “Olhando para o ecrã durante todo o dia, gradualmente esqueço a importância da experiência de viver. Ao esquecer a vida, esqueço o mundo, esqueço o amor, mas não consigo libertar-me disto”, traduz Wong.

José Dores mostra por seu turno a instalação “Presença Acidental”, com recurso a um sem número de moedas de dez avos, que também reflecte a dormência do quotidiano e a busca de uma experiência original.

A escolha dos artistas recaiu sobre Alice Kok. “Temos uma cena artística bastante pequena. Somos pequenos. Há poucos artistas e poucas obras por comparação com outros lugares. O círculo é bastante reduzido, acontece irmos a diferentes exposições e depararmo-nos com os mesmos artistas e o mesmo tipo de trabalhos”, explica sobre as circunstâncias da cidade. Por isso, diz, procurou a novidade.

“São uma espécie de nova geração, atendendo ao quadro dos artistas locais. estou certa de que muitos deles serão bastante activos nos próximos anos. Somos tão poucos, na realidade, que é bom poder encontrar novas pessoas e trabalhos para criar mais dinamismo”, afirma.

A comissária espera “permitir que haja uma plataforma para os artistas menos expostos se desenvolverem”. O propósito é “estimular a diversidade e a criatividade” depois de a primeira edição das exposição de artes visuais do festival Rota das Letras ter dado a conhecer artistas estabelecidos do território.

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