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“As mulheres ainda são animais de estimação”

paragrafo115-1É sobre uma China repleta de homens “provincianamente arrogantes” que escreve Sheng Keyi. A autora, cuja obra gira em torno da condição feminina da classe trabalhadora chinesa, aponta o dedo ao desenvolvimento desregrado do país, que, acredita, está a resultar numa perda da dignidade humana.

Inês Santinhos Gonçalves

O único romance traduzido de Sheng Keyi, “Northern Girls”, chamou à atenção da imprensa internacional e percebe-se porquê. Conta a história de duas adolescentes que abandonam a sua aldeia-natal, em Hunan, para tentar a sorte em Shenzhen. Ainda antes disso, ainda quando a personagem principal, Qian Xiaohong, divide a cama (literal e metaforicamente) com a irmã e o cunhado,  Sheng marca o tom da obra com uma descrição: “Todas as jovens decentes da aldeia vestiam roupas largas e andavam de ombros curvados – proteger o peito era o primeiro passo para protegerem a sua reputação. Apenas Qian Xiaohong andava com as suas curvas atiradas para a frente, pairando sem piedade, como nuvens negras ameaçando uma cidade”.

Ao chegar à grande metrópole, em busca de emprego, Qian encontra acima de tudo, homens. Homens que a querem como moeda de troca, homens violentos, homens gananciosos.

A luta pela emancipação, pela independência, pela libertação do corpo, é travada ao longo de 320 páginas. “Northern Girls” é a China contemporânea, urbana e migratória, e as mulheres que a fazem. E é a China que Sheng Keyi quer que o público internacional conheça.

– “Northern Girls” é um livro que trata muito da condição feminina. Ser mulher é ainda uma desvantagem na China?

Sheng Keyi – O género feminino, per se, está cheio de significados trágicos. Desde os tempos antigos, tanto nas zonas rurais como urbanas, as mulheres sempre tiveram de lidar com o fardo do seu género. O grau de etiqueta e civilização de um país é determinado pela profundidade de compreensão e respeito que os seus cidadãos masculinos têm pelas companheiras. Numa sociedade materialista como é a China, aos olhos dos homens, as mulheres ainda são animais de estimação. Provincianamente arrogantes como são, poucos homens estão dispostos a conhecer as mulheres de forma profunda.

– O livro foca-se muito no valor da feminilidade, que é apresentada ao mesmo tempo uma vantagem e um fardo. Como é feito este equilíbrio?

S.K. – Em “Northern Girls” a liberdade feminina, a independência e a dignidade têm um preço, que Qian Xiaohong [a personagem principal] paga ao expressar a vitalidade da mulher comum. Para apelar a uma sociedade dominada por homens, as mulheres chinesas, que não são como Qian Xiaohong, oferecem frequentemente a sua juventude (ou seja, o seu corpo) em troca de um estilo de vida extravagante. Desde meados dos anos 1990 que o materialismo flagrante se tornou na atmosfera do país inteiro, de tal modo que se tornou francamente vergonhoso. A adoração do dinheiro é prevalecente e persistente, e tornou-se vergonhosa. Na maioria das indústrias e profissões, de norte a sul do país, muitas acções já passaram a linha limite dos padrões morais.

– A sexualidade ocupa uma parte importante do livro. Quão confortável está hoje a literatura chinesa com o assunto?

S.K. – A busca de Qian Xiaohong pela libertação sexual é um acto de rebeldia contra o status quo da altura. Os leitores estrangeiros vêem Qian Xiaohong como moralmente pura, enquanto os leitores chineses têm a opinião oposta. Não há nenhuma descrição deliberadamente exagerada sobre sexo em “Northern Girls”. O livro foi escrito num estilo simples, porque a questão sexual não é a grande preocupação da autora, mas sim as vidas daquelas mulheres.

– É também um livro muito físico. Que tipo de feedback recebeu dos leitores, em relação a isso?

S.K. – Enquanto leitores profissionais podem achar que “Northern Girls” é sobre a libertação do corpo, o problema real que quis abordar é a crise que essa libertação do corpo enfrenta. A liberdade de Qian Xiaohong foi duplamente alimentada pela noção de instinto sexual de Freud e a vontade de poder nietzschiana. “Northern Girls” é o apogeu de vários textos sobre as mulheres, e em muito excede os limites da estética da escrita feminina na China.

– Nasceu em Hunan e mudou-se, mais tarde, para Shenzhen. Partilha algumas das experiências das jovens do livro?

S.K. – As personagens de “Northern Girls” são uma síntese de pessoas, ao invés de uma pessoa real em particular. Elas vivem entre nós, e gosto tanto delas como de mim própria.

– Uma das personagens é forçada a fazer um aborto e a ser submetida a uma histerectomia. Este tipo de coisa ainda acontece com frequência?

S.K. – Sim, e certamente é um problema vai além das questões femininas. Na China, a dignidade de todas as pessoas comuns é constantemente atropelada e humilhada. Na busca por um PIB cada vez maior, os direitos humanos perdem todo o valor e são ignorados. O problema é demasiado complexo para explicar em poucas linhas.

– A violência, e em particular a violência masculina, parece ser uma preocupação sua, como autora. Como olha para a questão da violência doméstica na China? O caso de Li Yan indica necessidade para nova legislação?

S.K. – Há muitos assuntos sobre os quais a China precisa de legislar, como a salvaguarda do património cultural, a protecção dos animais, a remoção forçada de pessoas de propriedades, a segurança alimentar, os direitos de autor, as questões de difamação e chantagem, ataques ‘ad hominem’, etc. Acima de tudo, a sociedade precisa desesperadamente de restaurar a ordem moral, para que as pessoas recuperem a sua sanidade mental, acabem com a exploração, e deixem de ser tão egoístas e presunçosas. As pessoas deviam pensar mais em dar, na reciprocidade, em reavivar o amor nos seus corações. Em comparação com actos de opressão violenta, na aplicação da lei, a violência doméstica parece estar dentro dos limites da ética familiar, e parece ser relativamente fácil de resolver. Confrontados com outras formas de violência, no entanto, sentimo-nos completamente impotentes.

– Escreve muito sobre temas polémicos. Continua a ser difícil ser um escritor controverso na China?

S.K. – Depende do tipo de escritor que se quiser ser, ou dos padrões morais que regem a nossa consciência. Alguns escritores são sofisticados, bem-sucedidos, endinheirados, e vivem rodeados de prosperidade e estabilidade. Os escritores com consciência confrontam-se várias vezes com a dúvida sobre se devem escrever ou não. Produzir literatura séria na China implica grandes exigências ao nível da capacidade artística.

– Escreveu seis romances, mas apenas “Northern Girls” foi traduzido. Porquê?

S.K. – A atenção internacional à literatura chinesa chegou muito tarde. Apenas nos últimos anos é que esta chegou ao palco internacional. “Northern Girls” foi o meu primeiro trabalho, publicado em 2004. Em 2012 foi publicado por uma editora [estrangeira] de renome, a Penguin. O livro ficou graficamente muito bonito e a resposta tem sido muito positiva. Sinto-me muito afortunada. O meu sexto romance, “Death Fugue”, está agora a ser traduzido para inglês e será publicado para o ano que vem.

– Que opinião tem acerca de Mo Yan, o Prémio Nobel da Literatura?

S.K. – Mo Yan é um dos escritores mais influentes da China, e foi um dos primeiros autores de qualidade a saltar para a cena internacional. Aprecio muito o seu trabalho, a vitalidade e imaginação que imprime nas palavras, e que é a sua marca. Acho que a qualidade artística de Mo Yan não pode ser posta em causa. Polémicas subsequentes estão fora da esfera da literatura, tornando-se mais complicadas. Mas, de qualquer forma, as dúvidas e controvérsias ajudam a criar uma atmosfera intelectual e de pensamento – tal deve ser visto como positivo e capaz de despertar consciências.

– Faz parte de uma nova vaga de escritores, mais focados na China urbana. O público ainda prefere uma literatura mais clássica?

S.K. – Sinceramente, não sei o que ainda resta da cultura chinesa. Na minha opinião, está em farrapos. Com o avançar da urbanização, as aldeias estão num estado verdadeiramente assustador. As qualidades poéticas das aldeias estão a perder-se rapidamente, a paisagem está a ser destruída, e quando pequenas cidades são renovadas todo o património com valor cultural é demolido. O Governo está a apagar a nossa história para criar cidades modernas, superficiais e pirosas, todas iguais, um pouco por todo o país. As casas das pessoas – e os seus lares espirituais – estão a ser deitadas abaixo. Os sem-abrigo são deixados a vaguear nesta pátria brilhante de dinheiro. A verdade é que a China já não existe.

– Porque é que acha que há tão poucas mulheres escritoras na China?

S.K. – Os bons escritores sempre existiram em número reduzido. Dentro da esfera feminina, esse número é ainda menor.

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2 thoughts on ““As mulheres ainda são animais de estimação”

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