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Uma borboleta dentro da borboleta

paragrafo116-1Zheng Danyi acredita que a nação se constrói dentro da linguagem. O autor, da geração que assistiu a Tiananmen nas universidades, estará na próxima segunda-feira no espaço da Creative Macau para declamar poesia.

Maria Caetano

Zhuangzhi sonhou que era uma borboleta, uma borboleta que não sabia que era Zhuangzhi sonhando. Zhuangzhi, ao acordar, não sabia se era uma borboleta sonhando que era Zhuangzhi. Zheng Danyi sonha com uma borboleta que sonha que é uma borboleta, apenas. “Wings of Summer”, poema do autor de Sichuan radicado em Hong Kong, é um de muitos em que Zheng verte a formação clássica para a linguagem chinesa contemporânea – nos temas e imaginário, levando alguma crítica literária a acreditar que a língua simplificada não deita a perder o idioma.

Zheng Danyi será um dos autores presentes numa sessão dedicada à declamação de poesia, marcada para a próxima segunda-feira, 18h30, no Centro de Indústrias Criativas (Creative Macau). A organização da sessão, a cargo de Luciana Leitão, reúne o autor de “Wings of Summer”, Steven Schroeder, professor de Estudos Clássicos Asiáticos na Universidade de Chicago, e m. chow, entusiasta local das artes, com poemas antologiados na colecção “just a coin’s worth of blue”.

“Eu era o mais jovem de entre os dez novos maiores poetas”, conta Zheng Danyi. A China atravessava a década de 1980, período de ilusão e de grande entusiasmo cultural. Zheng fazia parte de uma ‘Nova Geração’ na literatura, idealista, passada a revolução e a refrega. Depois, veio o 4 de Junho de 1989. Diz-se que a poesia chinesa ficou mais cínica. Zheng Danyi não fala sobre o assunto, simplesmente.

Em 1999 chegou a Hong Kong, vindo de Pequim. Ficou. “A minha ex-mulher era de Hong Kong. Tenho o direito de ficar em Hong Kong”, responde quando se lhe pergunta porque não volta ao Continente. As referências disponíveis descrevem-no como estando em exílio.

“Wings of Summer” é a sua única obra traduzida – para inglês, pelo académico Luo Hui, que também publicou o poeta. Trata-se de uma antologia de poesia escrita entre os anos de 1984 e 2004. Na introdução da sua única obra traduzida, Zheng explica-nos o que é a sua terra-natal, com “Homeland”: “A nossa terra tem de ser construída lentamente, através da linguagem. Não tem uma pré-existência geográfica. É um produto”, acredita.

“O sangue da cultura”

Zheng Danyi nasceu em Sichuan, há 50 anos. A infância foi passada aos cuidados da avó, no campo. A idade escolar levou-o para uma fábrica de açúcar, na cidade de Zigong. “Escrevo poesia desde os anos 1970, quando estava na escola, tanto ao estilo clássico como contemporâneo”, diz nas poucas palavras que usa para responder.

Não sabemos se tem pressa – organiza uma sessão de poesia amanhã, em Repulse Bay, Hong Kong – ou se evita algum dos temas. Salta perguntas nas respostas ao PARÁGRAFO.

“Depois, a Revolução Cultural parou com a morte de Mao, em 1976. As pessoas da China queriam conhecer o mundo, ter uma vida melhor e cuidar do futuro do país. Havia movimentos literários e culturais na China durante os anos de 1980, a poesia era um dos motores”, recorda.

Com a reabertura das universidades no pós-revolução cultural – conta o tradutor Luo Hui –, Zheng foi estudar Química, fascinado pelo mundo natural – a mesma natureza omnipresente nas artes clássicas chinesas e nos poemas do autor. Apreciava o ambiente vibrante do campus universitário, escrevia. A poesia circulava em edições artesanais, passadas de mão em mão.

Os primeiros poemas de Zheng Danyi foram publicados numa revista literária, a Shanghai Literature, em 1989. Passava um mês do esmagamento da contestação juvenil em Pequim. E, depois, deu-se a debandada. O poeta também salta perguntas sobre Tiananmen.

Zheng Danyi ficou entre os nomes da corrente da Nova Geração, seguindo a tradição lírica chinesa, onde ainda hoje se insere, embora a linguagem entre no discurso moderno. O uso de alguma linguagem vernacular, reabilitada para leituras individualistas e contemporâneas do poeta e dos seus leitores, é uma marca assinalada pela crítica.

“A tradição é o sangue da cultura dentro de nós”, diz o poeta. “É a forma como vivemos e podemos alcançar a felicidade. São mitos, sabedoria, pensamento, diálogo, trabalho, escrita. Passam de geração em geração, pelo software, sistema educativo e livros”, explica.

Liu Xiaobo por acaso

A tradução do autor para o inglês conserva algumas marcas de expressividade dos poemas de Zheng: a extensão do verso sem pontuação final e o retomar da frase como se fosse um início, em muitos dos casos, explica Luo Hui. Os efeitos musicais, o ritmo e os padrões de palavras – vocabulário clássico e de rua – estão inacessíveis aos não falantes de chinês, sendo considerados essenciais na sua poesia.

Fica, para estes, o sentido das imagens – profusas em todos os poemas do autor. E são essas imagens que remetem para o universo referencial clássico da literatura e do pensamento chineses, actualizados. A linguagem constrói-se, e com ela a nação, como afirma Zheng Danyi.

Em 1991, dois anos após a primeira edição dos seus poemas, o autor recebia o prémio de poesia da revista literária nova-iorquina First Line. Mais dois anos, 1993, integrava a antologia “Os Dez Maiores Poetas Actuais” lançada pela Shanghai Literary and Art Press, e passados outros dois a Foreign Language Press, de Pequim, editava “Gold in Blue Sky”, do autor. Em 1999, uma editora nova-iorquina, Hanging Loose Press, seleccionava também Zheng para a colecção “New Generation: Poems from China Today”.

O poeta, que também escreve alguma prosa, leccionou Literatura Chinesa, tendo sido professor assistente na Universidade de Pequim e no Instituto de Ciências Sociais da China, até ter trocado o Continente por Hong Kong.

Em 2010, Zheng participou, com Shirley Lee e Martin Alexander, na tradução de poesia de Liu Xiaobo, prémio Nobel literário e activista político detido desde 2009, acusado do crime de subversão do poder do Estado chinês. “Traduzi os poemas com amigos por acaso, quando me encontrava no Reino Unido a participar num projecto de tradução de poesia”, conta. Da sua tradução, conta-se “You Wait for me With Dust” (1999), dedicado por Liu Xiaobo a Liu Xia, mulher do activista.

Actualmente, Zheng é protagonista em várias sessões de divulgação de poesia, declamando, tal como sucederá na próxima segunda-feira. “Estou a escrever um livro para crianças. Pratico o Zen na caligrafia e na tinta-da-China. Procuro encontrar a via para ensinar às pessoas como pintar e caligrafar”, revela.

Poesia de Zheng Danyi

(tradução de Luo Hui)

Wings of Summer

Why aren’t you the grand dream of a spider, all your life

Wearing ill-fitting clothes? Why aren’t you a butterfly

Within a butterfly? In your warm body, there is sadness like water

Hot will turn cold. Ah, in the glimmer of your fire, I want to put on

A pair of summer wings! Following you like a fireball

Collecting all the fleeting rays of the summer day, to make a song

Oh, my wings, see me leave the ground, elevate, chose a

Direction. Why do I find in your name the moon of my life?

Pomegranate

Pomegranate, oh sorrowful pomegranate

Summer wants to destroy

The torch in your heart

Dignity

No one suffers, no, never, only funerals being held on Schedule

No one cries, only criers consoling each other

No wounds, no, only bloodstained hands forever sewing

No sea, only waves… tearing their hearts out?

When the summer of naked brides awakens in the sand

In the heat of the poisonous sands, no one runs, except foam…

But Love…

but love loves only the three-minute drunk in drunkenness, for abandonment
has nothing to do with wine, or how the survivor’s cup holds reflections
of sword and dagger, and less to do with moonlight

with milky white passion, squeezing in from the south window, then out
from the north, leaving nothing but the dense aroma of sweat and joy, and
even less to do with fish shuttling in the bay nearby, and

the canoe in your heart

braving a Sunday of wind and waves, yet having nothing to do
with wind and waves–and, beside you

the stranger with a cracked heart

muttering in his dreams—

I loved last night, for love’s sake, loved even

the dream of your floral tablecloth, and

how reluctant it was to wake up–but love

always arrives on time, if love is only a distant view with nothing to do with the viewing

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