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“A nossa música impõe-se por ter algo de exótico”

paragrafo117-1A Naifa estreia-se em Macau no próximo dia 13, no Grande Auditório do Centro Cultural (20h). Na bagagem, traz quatro discos e a promessa de repassar uma carreira que já leva quase uma década de existência, com um pé na tradição e outro na música moderna.

Pedro Galinha

Luís Varatojo apresenta A Naifa “como uma banda de rock, com guitarra, baixo, bateria e voz”. Mas, se tudo fosse assim tão simples, não teríamos estado à conversa com o guitarrista, responsável pelo nascimento do projecto em 2004, juntamente com João Aguardela.

A Naifa até tem tudo aquilo que Varatojo referiu. Mas a guitarra não é uma guitarra qualquer. É portuguesa e faz a cama à poesia musicada do grupo.

“Queríamos criar uma coisa de raiz mais lusa, com um toque de fado e música ligeira”, confidencia o músico, conhecido por ter passado pelos Peste & Sida, Despe & Siga e Linha da Frente.

Neste último grupo, Varatojo inicia uma amizade com Aguardela, outra cara mediática da música portuguesa que liderou os Sitiados. Juntos, e na companhia da voz de Maria Antónia Mendes (Mitó) e da bateria de Vasco Vaz, editam “Canções Subterrâneas”, em 2004. Segue-se “3 Minutos Antes da Maré Encher”, dois anos depois, e “Uma Inocente Inclinação para o Mal”, em 2008.

Durante cinco anos, A Naifa passeia originalidade, combinando a tradição com a música moderna. Mas no início de 2009 dá-se um revés: a morte de Aguardela, vítima de cancro, a poucos dias de completar 40 anos.

Sem um dos fundadores do projecto, que tinha escrito todas as letras de “Uma Inocente Inclinação para o Mal” – sob o pseudónimo de Maria Rodrigues Teixeira –, o grupo pensa em desistir. Só o desejo de continuar um legado musical foi mais forte para, em 2010, dar nova vida ao projecto. Agora, com nova formação, que inclui Sandra Baptista (antiga companheira de Aguardela) no baixo e Samuel Palitos na bateria.

“Não Se Deitam Comigo Corações Obedientes”, editado em 2012, foi o último capítulo desta história. E Macau vai poder escutá-lo no próximo dia 13, no Grande Auditório do Centro Cultural (20h).

– Prestes a completar uma década de edição de discos, A Naifa está mais afiada que nunca?

Luís Varatojo – Pelo menos, está tão afiada como no início. Nós mantemos a mesma vontade e a mesma ideia. Basicamente, essa ideia é fazer sempre alguma coisa nova numa personalidade musical que tentámos descobrir. Enquanto mantivermos esse espírito, A Naifa vai continuar afiada.

– Foi difícil encontrar essa personalidade própria ou o projecto Linha da Frente, que o juntou ao João Aguardela, facilitou as coisas?

L.V. – Talvez nos tenha ajudado a termos um conhecimento mais aprofundado um do outro, enquanto músicos. Tivemos dois anos a fazer esse disco, como Linha da Frente. O João, no final desse processo criativo, até disse uma frase que não esquecerei. “Tu nunca vais fazer algo na música que eu não goste e eu também não vou fazer nada de que tu não gostes”. Portanto, gerou-se uma cumplicidade. O passo para A Naifa foi uma ideia diferente, mas com um “link”  de continuidade que é a poesia portuguesa. Neste caso, mais contemporânea porque como Linha da Frente cantámos coisas de Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Manuel Alegre.

– Essa contemporaneidade traz maior actualidade às palavras cantadas pela Mitó?

L.V. – As pessoas que vão aos nossos concertos identificam-se com aquilo que é dito porque a Mitó canta histórias, a maior parte de amor, que estão sempre na primeira pessoa e são coisas do quotidiano. Acho que os textos são simples, escritos por quem escreve hoje em dia. São mais do que actuais e espelham aquilo que vimos e sentimos.

– O que vê e sente, hoje em dia, em Portugal?

L.V. – A vida das pessoas alterou-se economicamente. Continuamos a ser os mesmos portugueses, de há três ou quatro anos atrás, mas agora sente-se que Portugal é uma tristeza profunda. As pessoas pensam que não têm futuro, andam cabisbaixas. Não há alegria, não há um sentido de esperança e isso sente-se, nitidamente, na rua.

– O actual contexto influencia a vossa produção enquanto autores?

L.V. – Influencia toda a gente e a nossa produção também. Nenhum de nós consegue ficar indiferente ao que se passa. Por mais que queiramos fechar-nos numa concha e ficar imunes àquilo que se está a passar, é muito difícil porque nós vivemos aqui. Sentimos as coisas e, enquanto artistas, isso reflecte-se inconscientemente.

– A música deverá voltar a ter um papel de contraponto?

L.V. – A arte é sempre um contraponto, uma reacção. É impossível que uma pessoa com os cinco sentidos activos não sinta as coisas que se estão a passar, filtrando isso para o seu trabalho. Isso faz parte da nossa natureza.

– Apesar de tudo, a música portuguesa parece dar sinais de vitalidade, com A Naifa, Dead Combo, Norberto Lobo ou Filho da Mãe. A guitarra com tradição lusa veio para ficar ou é uma moda com prazo de validade?

L.V. – Acho que não é moda. Há pessoas que estão a trabalhar há algum tempo, como os Dead Combo. O Tó Trips [guitarrista dos Dead Combo, que junta ainda Pedro Gonçalves] teve bandas nos anos 1980 e já toca há muito. Creio que, nos últimos anos, muitos músicos – não é o meu caso, nem o do Tó Trips – procuraram uma expressão mais própria e uma identidade musical nas referências portuguesas. Começou a deixar-se de lado o preconceito que havia, especialmente nos anos 1990, em relação àquilo que era português. Ouvia-se pouca música cantada em língua portuguesa, até nos canais de rádio de serviço público. Ainda no início dos anos 2000, pensava-se que a música portuguesa deveria seguir os parâmetros da música que vinha de fora. Só assim era possível vencer.

– Criou-se um estigma?

L.V. – Sim. Mas acho que, nos últimos anos, isso foi posto de lado e há muita gente que faz música com referências portuguesas. Já não há vergonha de abordar o assunto. As bandas indicadas há pouco estão a produzir e a fazer muitas experiências à volta da ideia de música portuguesa. Voltámos aquela fase do início dos anos 1980, em que houve uma grande expansão, sobretudo com o Rock Rendez-Vous. Houve muitas bandas a fazer muita música, com uma marca mais portuguesa. Agora, estamos outra vez nessa fase.

– As rádios pegam mais nestes discos ou continua a haver alguma resistência?

L.V. – No meu ponto de vista, pegam sempre pouco (risos). Mas pegam mais do que nessa altura. Aqui há tempos, estava a falar com alguém sobre uma entrevista para um canal de televisão, com o Rui Unas. Abordámos muitas coisas e tinha ido lá porque estava a ser lançada uma colectânea dos Peste e Sida. Por essa altura, havia uma programação na Antena 3, uma rádio pública, que destinava um dia aos portugueses. Era a “Quinta dos Portugueses”. O Rui Unas perguntou-me se eu achava bem essa iniciativa. Respondi-lhe que achava bem se houvesse a “Quinta dos Espanhóis” ou “a Quinta dos Ucranianos”, não a “Quinta dos Portugueses”. Era pavoroso haver um dia em Portugal para se escutar só música portuguesa. Mas, agora, as coisas estão mais abertas. Ouve-se mais música nacional e em português e também há mais variedade. Estou a falar da rádio pública porque nas privadas continuamos com as playlists “chapa sete”. A Naifa ou os Dead Combo não passam na Comercial ou na RFM. Só se for em horários da madrugada.

– “Não Se Deitam Comigo Corações Obedientes”, o último disco d’A Naifa, foi considerado o melhor álbum português de 2013 pela Sociedade Portuguesa de Autores. Algum sentimento especial por terem recebido este prémio?

L.V. – Quando o trabalho é reconhecido, os autores ficam sempre contentes. O júri deste prémio foi composto por autores e isso, para nós, é muito importante. Mais até do que ganhar aqueles prémios dos Globos de Ouro ou de revistas – não estou a dizer que não têm importância.

– Este álbum, o primeiro depois da morte do João Aguardela, acabou por ser o mais difícil da vossa carreira?

L.V. – Não foi um processo fácil, até porque não há discos fáceis. Mesmo aqueles que fizemos com o João foram difíceis de pôr cá para fora. Mas também dão muito prazer. É um misto de ansiedade, prazer, dor. Neste caso, foi mais difícil do que os outros porque o fizemos sem o João. De qualquer forma, pelo menos comigo, ele esteve sempre presente. Trabalhei com ele muitos anos e habituei-me a um certo diálogo em relação às opções que fazíamos. Muitas vezes, tive dúvidas a fazer este disco e quase que o consultava. “Se o João estivesse aqui, o que é que ele acharia disto?”. Isso ajudou-me a tomar muitas decisões. De qualquer forma, foi um trabalho difícil porque não o tínhamos.

– Com dois novos membros, o processo de produção alterou-se ou a responsabilidade recaiu mãos sobre si?

L.V. –  Neste disco, ainda não mudou muita coisa e grande parte do trabalho recaiu sobre mim. Mas tentámos que o processo de integração se faça de forma a que todos tenham uma palavra a dizer. Ainda agora trabalhámos no tema “Inquietação”, do José Mário Branco, para o aniversário do Canal Q. O trabalho que fizemos e que pensamos fazer no futuro é tentar que as pessoas que entraram consigam ter um espaço criativo dentro do grupo. Só assim A Naifa se pode renovar.

– Antes desta ideia de renovação, pensaram terminar o projecto devido à morte do João Aguardela?

L.V. – Sim. Depois de o João ter ficado muito doente, pensámos nisso. É claro que ficámos sempre à espera que houvesse cura e que as coisas melhorassem. A doença foi feita de avanços e recuos, vários tratamentos e operações. Nessa altura, ora pensávamos que ia tudo acabar, ora pensávamos que havia esperança. Depois do João falecer, decidimos não falar sobre a banda. Foi durante esse período que percebemos que ainda queríamos fazer mais coisas. Eu queria continuar a fazer música com A Naifa, queria continuar a fazer música com a Mitó a cantar. Tínhamos a ideia de fazer mais discos e achámos que isso seria o que o João iria querer. Não faria sentido ficarmos sem ele e sem A Naifa. Foi a partir daí que tomámos essa decisão e, depois, convidámos a Sandra [Baptista] para tocar baixo porque também não queríamos que quem substituísse o João fosse alguém muito exterior à família. Queríamos alguém que estivesse próximo, compreendesse e estivesse dentro disto. Quando a Sandra aceitou, levámos as coisas para a frente.

 –  A presença da Sandra Baptista ameniza a perda que sentiram?

L.V. – Sim, sim. Nos primeiros espectáculos, foi muito difícil porque eu olhava para o lado direito e ele não estava lá. Mas estava a Sandra. Isso foi muito bom, até para ela, que acabou por encarar as coisas de frente e de peito aberto. Foi substituir o João e passou a tocar as canções que ele tocava e compunha. Foi muito positivo. Passado três anos, estamos muito contentes com a decisão.

– E já estão a trabalhar em material novo para editar?

L.V. – Estamos sempre a fazer qualquer coisa. Neste momento, temos uma ideia que é gravar uma série de canções que não são nossas e que temos tocado ao longo dos anos. São versões de música portuguesa e pensamos que é a altura certa para registar esse trabalho, antes que nos esqueçamos delas e deixemos de ter vontade de tocá-las. São umas nove ou dez canções. Por exemplo, temos uma versão de uma música dos Três Tristes Tigres, que é muito pouco conhecida, e um fado da Amália, gravado nos anos 1950. Também estamos a produzir material novo para, no ano que vem, termos algo original.

– Será possível ouvir novas canções em Macau?

L.V. – Ainda não há novas canções, só esboços. Em Macau, vamos fazer um espectáculo assente nos quatro discos e vamos escolher as canções que achamos mais adequadas desses álbuns. Também vamos tocar algumas daquelas versões sobre as quais falei há pouco.

– A vinda a Oriente segue-se a outras experiências mundo fora, como África. É apetecível e rentável tocar no estrangeiro?

L.V. – Não sei se é rentável porque não saímos muitas vezes. Fizemos uma tour em África, outra no Leste da Europa. Já fizemos umas coisas em Espanha e estivemos em Marrocos. Não foram vezes suficientes para dizer que é rentável, mas é todo um mundo, muitos palcos, salas. O que tem sido mais interessante quando tocamos fora de Portugal é ver uma parte da plateia portuguesa – há portugueses em todo o lado – e outra que não é. Dessas pessoas, a maior parte nem fala português, mas a nossa música, que assenta tanto nas palavras, entra. Acaba por ser compreendida e as pessoas emocionam-se com aquilo que está a acontecer. Isso é o que nos tem despertado mais curiosidade e alegria. Talvez a nossa música impõe-se por ter algo de exótico, como o fado.

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