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Antropologia emigrante

É do encontro entre a etnografia e o cinema que surge “De casa em casa”, o livro de Filomena Silvano, que inclui um DVD com dois documentários de João Pedro Rodrigues. Realizador e antropóloga acompanharam uma família de emigrantes transmontanos nas suas viagens entre Paris e a terra natal. Um ensaio para ler e ver.

Inês Santinhos Gonçalves

Quando, em 1997, João Pedro Rodrigues se propôs a fazer os documentários “Esta é a minha casa” e “Viagem à Expo”, não queria traçar “um retrato dos emigrantes em geral”. Era exactamente isso, no entanto, que desejava José do Fundo, o pai da família que o realizador seguiu. A antropóloga Filomena Silvano acompanhou as filmagens, que utilizou como material de estudo, agora reflectido em livro. “De casa em casa” é apresentado terça-feira na Livraria Portuguesa, com a presença de João Pedro Rodrigues.

Tudo começou com a ideia se fazer um documentário sobre as casas dos emigrantes em Portugal. No entanto, esse era um tema que Filomena Silvano já tinha extensamente abordado e quis fazer algo diferente. Interessavam-lhe as deslocações que estas famílias realizavam com frequência. “Queria saber o que é isso de ter muitas casas e viver constantemente entre elas, quando elas estão em países diferentes”, explica. “Queria mostrar que a linearidade em relação ao espaço é uma coisa que não existe, as pessoas estão sempre num sítio e ao mesmo tempo noutro”, especifica a antropóloga.

A ideia agradou a João Pedro Rodrigues e, em conjunto, escolheram uma família que correspondesse a estas características, que tivesse vários tipos de casa que habitava de formas diferentes durante o ano. Foi assim que José do Fundo e Jacinta da Graça Félix, um casal de emigrantes transmontanos radicados em França, se tornaram as personagens principais dos dois documentários, que marcaram o início da carreira do realizador.

“Vendo os filmes agora – tive de os ver porque os restaurei para a edição em DVD – vejo que estava a começar mas que já se abriam determinados temas dos meus filmes, da observação dos corpos dos actores, apesar de neste caso não serem actores”, conta o cineasta.

“O filme não pretendia ser um retrato dos emigrantes em geral”, recorda João Pedro Rodrigues. “É um retrato daquela família. Interessava-nos fazer um retrato daquela família e de uma certa individualidade, que é característica de todas as pessoas. E não dizer ‘a emigração é assim’”, salienta.

Filomena Silvano explica como este objectivo da equipa se encaixou no desejo do pai da família, José do Fundo. “Disse que aceitava ser filmado porque queria que as gerações futuras soubessem o que era a vida do emigrante. Queriam dar-se a ver como uma família que representa a vida dos emigrantes”, conta. Não há aqui contradições, aponta a antropóloga. “Estava interessada em perceber como é que aquelas pessoas em concreto constroem as suas identidades e como é que isso convoca concepções de grupo. Ele, enquanto pessoa, identifica-se com uma categoria global que é a do emigrante – o que eu queria perceber é como é que ele fazia isso”, justifica.

A ideia de conduzir a sua investigação através das filmagens de um documentário foi propositada. “É um trabalho específico de antropologia e bastante inédito, uma antropologia baseada no trabalho de um realizador”, aponta João Pedro Rodrigues. Filomena Silvano explica que a alteração do comportamento das pessoas quando são observadas acontece com ou sem câmaras e que isso, em si, tem interesse de estudo, porque permite observar a forma como as pessoas se querem representar. “Essa performatividade, o que as pessoas fazem quando têm consciência que estão a ser observadas por terceiros, pode ser matéria de investigação”, refere.

Mais de uma década depois, João Pedro Rodrigues continua a encontrar actualidade nestes documentários: “Entretanto perdi o contacto com estas pessoas, mas penso que ainda fazem os mesmos percursos entre o norte do país e França. Penso que manterão os mesmos padrões. Claro que há uma nova geração, os filhos, que têm outras ideias e muitas vezes não querem regressar a Portugal, ao contrário desta geração que quer regressar quando se reformar”.

“De casa em casa” inclui o ensaio de Filomena Silva e um DVD com os dois documentários e João Pedro Rodrigues. Terça-feira, às 18h30, o realizador vai estar à conversa com Edgar Medina na Livraria Portuguesa, para a apresentação do livro.

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