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“Tem qualidade e é original”

paragrafo118-1Carlos Marreiros revela os detalhes de “PATO•MEN”, que vai representar Macau na 55ª Bienal de Veneza. Trata-se de uma viagem no tempo, através da reflexão sobre o conhecimento. Giulio Camillo, Marino Auriti e Steve Jobs são os cicerones.

Pedro Galinha

Da Arca de Noé até à era cibernética, passando pelo renascimento e tendo como pretexto o Palácio Enciclopédico de Marino Auriti. É assim que pode ser descrita a viagem que Carlos Marreiros propõe no pavilhão de Macau, que assinala a participação do território na 55ª Bienal de Veneza (1 de Junho a 24 de Novembro).

O arquitecto, nomeado por um júri local, no final do ano passado, preparou uma instalação intitulada “PATO•MEN”, em que pontua o desenho a preto e branco e muita História. Uma opção que está em consonância com o desafio lançado pelo director artístico da bienal mais mediática do mundo, aquando da apresentação da obra de Auriti como tema principal do certame. Massimiliano Gioni disse que os artistas devem combinar arte contemporânea com elementos de outros tempos.

A viagem de Marreiros começa no Campo della Tana, às portas do principal complexo da Bienal de Veneza: o Arsenale. É neste local estratégico que o arquitecto vai tentar captar a atenção do público, através das figuras de Auriti, Giulio Camillo e Steve Jobs – uma espécie de “trindade” em que há um “Pai”, um “Filho” e “um Espírito Naïf”.

– Quando o seu nome foi anunciado para representar Macau na Bienal de Veneza, em Dezembro, disse ter “muitas ideias” que só faltavam ser “arrumadas”. Conseguiu fazer isso?

Carlos Marreiros – Arrumei as ideias numa espécie de itinerário. O pavilhão de Macau, como o de Hong Kong, está fora da parte oficial. É um edifício antigo, de dois pisos, com a entrada a ser feita a partir de um pátio muito bonito. Fica mesmo ao lado do Arsenale, que é o núcleo principal da Bienal de Veneza. É um local muito privilegiado, por isso entendi que devia chamar a atenção das pessoas para entrarem. A oferta é muito grande e Macau não tem, propiamente, muito nome na Bienal. Ao todo, participou quatro vezes. Além de utilizarmos o pátio e um muro à entrada, vamos ocupar apenas o primeiro andar do edifício.

– Como pretende chamar o público?

C.M. – O meu projecto chama-se “PATO•MEN”. A ideia é “back to basics”, com um regresso ao desenho puro, à mão, que é digitalizado e impresso. Vou colocar o Marino Auriti no muro – que tem quase três metros – a brincar com o seu Palácio Enciclopédico, tema da Bienal. Na varanda, estará o Steve Jobs a olhar para fora. Existem também outros aspectos gráficos e algumas figuras relacionadas com o tema. A exposição inicia-se com a apresentação de imagens relacionadas com o ordenamento de informação para o conhecimento. A viagem propriamente dita arranca com uma Arca de Noé.

– Porquê a Arca de Noé?

C.M. – Na minha opinião, é a primeira forma de organização do conhecimento. Tem um simbolismo, que passa por manter a espécie animal e humana, no momento em que o dilúvio mataria toda a civilização fundada no mal e no vício. A Divina Providência queria um renascimento universal e a Arca de Noé era uma cápsula do tempo, que continha todo o conhecimento e todas as bases para o renascer civilizacional. Achei que seria interessante explorar este aspecto.

– Como preparou esta parte do trabalho?

C.M. – Li vários textos bíblicos, islâmicos e hebreus. Em todas as descrições da Arca de Noé, o sete é recorrente. Por isso, representei Noé, a sua família e o bestiário com 49 figuras – sete vezes sete. Antes de embarcar na viagem, Deus Nosso Senhor também disse a Noé “entra agora porque, daqui a sete dias, o dilúvio vai acontecer”. Depois, também foram sete dias de espera até ser aberta a porta lateral para a bicharada sair.

– Como será o aspecto da Arca de Noé que vai apresentar?

C.M. – Basicamente, é uma prancha de surf e o dilúvio é representado por muitos chuveiros atados. A peça está pendurada e, por baixo, há um aquário com líquido. Não terá água, por falta de tempo. Em vez disso, vai ter um “mar” de informação, representado por muitas letrinhas transparentes cortadas. Noé estará à frente, com os filhos e as suas respectivas famílias. O bestiário tem figuras com cabeças que podem ser de animais reais ou meramente fantasiados.

– Também há referências ao Palácio Enciclopédico?

C.M. – Sim. O Palácio Enciclopédico, registado em 1955, é representado por uma torre com sete andares. Se fosse construído, ao tempo, seria o edifício mais alto do mundo. Contém todas as invenções a favor da civilização, desde a roda até ao satélite.

– Uma síntese do conhecimento, como a que existe no Teatro de Memória de Giglio Camillo?

C.M. – Quando peguei no tema da Bienal, o Palácio Enciclopédico, cheguei à seguinte conclusão que há um triângulo muito engraçado composto pelo Auriti, o Camillo e o Steve Jobs. Camillo foi um filósofo renascentista que inventou o Teatro de Memória – uma super mnemónica, que se fazia representar por um anfiteatro semicircular organizado por sete níveis horizontais e outros tantos sectoriais – 7×7=49. Esta figura fazia parte do grupo dos filósofos magos, que tinham uma ligação mágica aos deuses. Em teoria, quem bebesse da organização do Teatro de Memórias teria um conhecimento enciclopédico e seria tão eloquente como Cícero. Camillo inventou a forma de aceder ao conhecimento, através dos tais níveis. Ora bem, 500 anos depois, Steve Jobs inventou o computador portátil, que mais não é do que um desenvolvimento aperfeiçoado do Teatro de Memória.

– Mas são duas formas de aceder ao conhecimento de forma diferente.

C.M. – O Homem clássico tinha acesso aos conhecimentos através dos compartimentos do Teatro de Memória. Mas seria necessário ter acesso através do filósofo mestre, através de ligações divinas. Os deuses davam conhecimento através dos filósofos. Modernamente, todos os utilizadores de computadores são deuses. E esta convocação da informação do além é fornecido pelo espaço cibernético. Portanto, há contactos muito engraçados entre o Teatro de Memórias, o actual computador portátil e o Palácio Enciclopédico de Auriri. Por isso, formei uma trindade com estas três figuras que chamo de “Pai, Filho e Espírito Naïf”. O Pai é Camillo, o filho é o Steve Jobs e o Espírito Naïf é o Auriti porque era um “self-made man”, mecânico, que sonhava ser filósofo e arquitecto.

– É por isso que surge com as tais assas?

C.M. – Exactamente. Tinha uma visão avançadíssima para a época, mas a sua génese de autodidacta era naïf.

– A escolha destes temas e a forma como são apresentados tem algum objectivo?

C.M. – As instalações são bastante abstractas. Neste sentido, proponho uma reflexão sobre informação, manipulação, conhecimento e ética. Hoje, pessoas sem ética à frente de um computador sentem-se com um grande poder. Qualquer imbecil pode dominar um conjunto de pessoas, através de salas de conversação.

– Há algum aspecto da exposição em que será possível identificar Macau?

C.M. – O Palácio Enciclopédico, sendo um museu com as melhores invenções, mostra Macau. Quer exemplos? A cozinha de fusão, o mulato branco-asiático ou Sun Yat-sen. Este último, através de Macau, entrou em contacto com os ideais republicanos e, assim, derrubou um regime feudal. Também temos a arquitectura com influência europeia. Enfim, são várias as contribuições desta pérola civilizacional.

– Está confiante numa boa participação?

C.M. – Sou moderadamente optimista. Julgo que o conjunto tem qualidade e é original. Vai chamar à atenção porque é muito “back to basics”, com o recurso a métodos fora das grandes montras e a elevação do desenho a um estatuto mais alto. Na minha opinião, tem sido um bocado esquecido. Os artistas hoje fazem instalações, pintura e o desenho tem sido secundarizado.

– Pensa continuar a trabalhar este tema da informação e do conhecimento?

C.M. – Depois de saber qual seria o tema da Bienal, comecei a fazer pesquisas. Achei muito engraçado e vasto. Por isso, decidi que vai ser o início de uma série de exposições que irei fazer.

 

Quatro meses de trabalho, uma viagem e projectos que não saíram do papel

 

– Quanto tempo demorou a preparar “PATO•MEN”?

C.M. – Fui passar o Natal e uns dias do ano novo a Phuket para pensar nisto. Fiz muita investigação e, só depois, consegui concretizar tudo. Faço muito desenho à mão e, por exemplo, as 49 figuras que apresento na Arca de Noé são de grande minúcia. A parte de produção também foi longa, o que fez com que tudo ficasse pronto em finais de Março. Foi uma loucura.

– Precisava de mais tempo?

C.M. – Um artista profissional, a tempo inteiro, leva nove a 12 meses para preparar a Bienal de Veneza. A escolha do representante de Hong Kong foi feita em Junho.

– A nomeação do artista de Macau deve ser feita com mais tempo de antecedência?

C.M. – Seja nomeação ou concurso, é bom dar mais tempo. No meu caso, há uma agravante. Nas anteriores participações, foram quatro ou cinco pessoas a Veneza e cada uma estava responsável por um elemento, uma peça, uma instalação, um vídeo. Há dois anos, foi assim. Cada sala era ocupada por uma pessoa.

– Tinha referido que o seu projecto iria conter peças de videoarte da autoria de três artistas. O que se passou?

C.M. – Havia um projecto muito interessante, mas não foi avante por falta de verbas.

– Qual foi o orçamento que teve em mãos?

C.M. – Ainda não sei o orçamento final porque faltam viagens e outras despesas. Mas a produção de tudo que está a meu cargo ronda meio milhão de patacas.

– Dada a actual situação económica de Macau, este orçamento deveria ser revisto?

C.M. – Julgo que sim, que esta verba pode ser aumentada. Mas, acima de tudo, o tempo é que tem de ser mais alargado. Estes últimos meses foram terríveis. Dediquei-me quase a 100 por cento e até desapareci por alguns tempos.

– Quantas pessoas auxiliaram-no na produção?

C.M. – Quase 15 pessoas, entre carpinteiros, pintores e arquitectos. É uma equipa muito grande, que costuma trabalhar comigo. Também pus artesãos de Macau a trabalhar.

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