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“Gosto muito de música, mas nunca fui um prodígio”

paragrafo119-1Njo Kong Kie é um dos convidados do Festival de Artes de Macau, no próximo mês. O pianista e compositor local, radicado no Canadá, apresenta “Piquenique no Cemitério”, um concerto encenado no espaço XL da Live Music Association.

Maria Caetano

 

– Traz até ao festival o repertório do seu projecto de música de câmara, Day-OFF, em colaboração com alguns músicos locais. As músicas de “Picnic in the Cemetery” estão gravadas em álbum de 2006. Como pretende agora trabalhá-las para a apresentação ao vivo em Macau?

Njo Kong Kie – É algo que ainda está em evolução. É a primeira vez que faço esta combinação. Já executei o repertório no Canadá, mas num ambiente de concerto. Foi bastante simples, subimos ao palco e tocámos. Mas, uma vez que tenho vindo a trabalhar com a comunidade teatral local, tenho um grupo de amigos que são artistas, desde designers a actores e encenadores. Tinha que dar um nome ao concerto e ao chamá-lo de “Piquenique no Cemitério”, as pessoas são também levadas a pensar que não se trata de um concerto convencional. Por isso, começámos a pensar em como integrar elementos dramáticos no espectáculo. Estamos a trabalhar nisso. Escolhemos propositadamente o espaço da Live Music Association (XL) porque queremos passar lá muito tempo. Será como um pequena residência na qual podemos brincar um pouco com a iluminação, com algum tipo de instalação. Normalmente, há um palco e o público observa-nos de fora. Aqui vamos pegar no espaço e transformá-lo. Esperamos eliminar a barreira entre os músicos e o público. Haverá alguma teatralidade no design, na iluminação e na forma como vamos apresentar a música. Haverá algo relacionado com piqueniques e cemitérios, mas é algo que está mais ligado à vida do que à morte. É o ponto de partida.

– Mantém o trio de instrumentos original?

N.K.K. – Sim, o piano, o violoncelo e violino. Mas acrescento uma guitarra eléctrica em algumas das peças de forma a introduzir mais alguns elementos contemporâneos no repertório. Isto apesar de não ver a minha música como assumidamente clássica, de qualquer forma. Mas quando as pessoas pensam num trio de piano, violino e violoncelo tendem a imaginar uma formação muito clássica. Não deixa de ser verdade. É a minha base. Mas aquilo que crio está sempre a meio caminho de alguma coisa, a guitarra vem apenas fazer com que penda mais para um determinado lado, mais contemporâneo. Assim, serão quatro músicos. São pessoas com formação clássica também, mas com experiência noutros registos, que se adaptarão mais facilmente à minha música.

– Quando compôs as suas músicas e as gravou em álbum, porque escolheu o tema “Piquenique no Cemitério”?

N.K.K. – Não tive essa ideia ao mesmo tempo que compus as músicas. O concerto também não vai ter apenas músicas desse álbum, vou apresentar alguns temas novos dos últimos dois anos. Quando compus os temas de “Picnic in the Cemetery” estava em digressão com outros músicos de uma companhia de dança. Passámos dois anos na estrada. Tínhamos muito tempo em mãos, em sítios estrangeiros. Além dos ensaios e espectáculos sobrava-nos tempo. Acabaram por inspirar-me para que compusesse alguma coisa, apenas para diversão. Escrevi um tema, tocámos, gostaram. Escrevi outro, e outro e outro. Acabei por compor uma data de música para tocarmos sem esperar muito mais. Aliás, há pouco tempo que sou compositor profissional. Nem sei se neste ponto me consigo chamar compositor. Mas foi nesta fase que comecei a passar as minhas ideias para papel quando antes me limitava a improvisar. Foi o incentivo para anotar as músicas e imprimi-las para que alguém as pudesse tocar. Foi bastante encorajador. Depois da digressão, achei que valia a pena gravá-las. Quanto à parte do cemitério, efectivamente, vivo ao lado de um cemitério enorme e muito bonito no Canadá. Passo lá muito tempo. Levo o meu chá e algum petisco e vou para lá, sozinho ou com amigos. Por outro lado, muitos dos temas são um pouco melancólicos. Na altura estava a tentar desenvolver uma história sobre piqueniques em cemitérios. Está ainda latente na minha imaginação, mas não está finalizada. Talvez faça alguma coisa no meu trabalho operático, ainda pode ser um libreto. Para já, fica assim.

– Apesar de não se considerar um compositor profissional, tem dois trabalhos de ópera. Pode falar-me um pouco sobre eles?

N.K.K. – Tenho duas óperas mais longas e outras um pouco mais curtas. Uma das mais longas é uma história sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo. Foi escrita quando o Canadá se preparava para legalizar o casamento de pessoas do mesmo sexo. Não tem nada um tom sério. Chama-se “Knotty Together” e é uma perspectiva divertida sobre o que efectivamente significa estar casado. Brinca um pouco com o sistema político e com a oposição à legalização do casamento homossexual. Acaba por ser uma espécie de comédia romântica com alguns contornos políticos. Depois, tenho outra ópera que foi escrita para um cabaré político que é organizado pela comunidade teatral de Toronto. Temos uma semana para preparar um libreto que fale sobre temas da actualidade. Este é encenado ao final da semana. O tema do trabalho acabou por ser o tráfico de órgãos humanos, explorando sobretudo o lado de quem tem meios para comprar neste mercado negro com vista a salvar alguém que ama ou a si própria. A questão que colocamos é se o fará ainda que sabendo que a fonte é ilegítima. Estamos agora a desenvolver este projecto para uma peça mais longa. Tenho ainda uma outra peça, uma opereta, sobre o envelhecimento e a inevitabilidade da degradação mesmo das coisas mais bonitas. Nesta peça sou uma espécie de DJ numa festa.

– Para além das colaborações que tem tido, esta é a primeira vez que dá a conhecer o seu repertório individual em Macau?

N.K.K. – É a primeira vez que aqui apresento o meu trabalho, sem estar como parte de um ensemble. Enquanto estudante tive alguns recitais aqui, mas de standards de música clássica.

– Quando saiu de Macau?

N.K.K. – Da primeira vez que saí de Macau foi imediatamente após terminar a secundária, há muito, muito tempo… Foi no final dos anos 1970. Fui para o Canadá e fiquei lá a estudar até meados da década de 1980. Depois voltei para Macau para trabalhar. Dava aulas na Academia de Música S. Pio X, a escola de música do padre Áureo. Fui lá aluno e ao regressar dei lá aulas durante três anos. Em 1989 fui para Portugal como bolseiro para estudar língua portuguesa. Acabei também por me inscrever na Escola Superior de Música, onde estive três anos. Depois voltei ao Canadá. Portanto, quando saí de Macau a primeira vez tinha por volta de 17 anos.

– Que importância é que a Academia de Música S. Pio X teve na sua formação?

N.K.K. – Virei-me para a música muito naturalmente por mim. Não era algo que a minha mãe me forçasse a estudar. Na verdade, a minha irmã é que estudava música e eu decidi que também queria fazê-lo. Quando fui para a escola, fiquei muito envolvida. Queria fazer o máximo de coisas que pudesse. Além das aulas de piano e de toda a teoria musical, procurava outras coisas para fazer. A escola tinha uma colecção de LP bastante grande para a época. Passava a vida na biblioteca a ouvir música.  A escola era bastante aberta a que os alunos tivessem acesso às coisas. O padre Áureo foi também uma grande influência devido à paixão que tinha pela música. Mas todo o ambiente era muito favorável a que nos deixássemos imergir na música. Não se tratava de ter uma hora semanal de piano. Havia uma pequena comunidade de pessoas que partilhava música. Tocávamos também muito regularmente. Quando lá dei aulas foi um pouco a mesma coisa.

– No seu percurso tem vindo a trabalhar sempre com grupos teatrais.

N.K.K. – Sou bastante teimoso. Gosto muito de música, mas nunca fui um prodígio. Naturalmente, porque há poucos (risos). Mas, de qualquer forma, quando se estuda um instrumento clássico em criança, recebe-se pouco encorajamento a menos que se demonstro capacidades muito prometedoras, acaba por ser um pouco um hobby. A música é boa para cultivar o carácter, mas não é uma opção viável de carreira. Fui encorajado a procurar o máximo possível de alternativas para preencher a minha educação musical. Isso permitiu que tivesse noção de todo o tipo de possibilidades. Quando fui para o Canadá, não fui logo estudar música. Na verdade, estudei ciências computacionais e sou formado em Matemática. Mas ao mesmo tempo estudava piano. É curioso. Nunca demonstrei grande virtuosidade ou algo do género. Mas sou um ser sensível e acho que isso é bom para quem toca. Cheguei a trabalhar num banco e numa seguradora, mas mantive-me sempre determinado em encontrar forma de ganhar a vida com a música, fosse acompanhando cantores, tocando para grupos teatrais comunitários, em receitais de estudantes e também em acompanhamento de dança na escola do Bailado Nacional. Tocava em vários estúdios de bailado e às tantas deparei-me com um anúncio de emprego para uma companhia de dança onde acabei por trabalhar. Sinto que faço aquilo que devo fazer e aquilo em que sou melhor, de alguma forma.

– Acabou por se criar uma relação entre as suas obras e a performance.

N.K.K. – Acho que quando perseveramos, as coisas acabam por acontecer. Pode não ser o que esperávamos, mas cumpre as nossas exigências pessoais aos poucos.

– Mas gosta especialmente desta relação? Quando compõe, já pressupõe a encenação?

N.K.K. – Quando me encomendam uma peça, seja para dança seja para teatro, as ideias vêm das instruções que me são dadas. Há um ponto de partida para pensar. Mas se estiver a compor de forma mais abstracta para o meu trio, não tenho esse apoio. Tenho de criar mais parâmetros, começar com uma pequena célula. Se tudo estiver em branco, não sei por onde começar. Gosto muito de trabalhar com outras pessoas, isso ajuda-me muito. Por outro lado, em termos práticos, este tipo de trabalho tem outro tipo de tempo, que acompanha as frases da dança ou certo momento de clímax, anda em torno do que se passa no palco e tem de responder às necessidades de outros criadores. Quando trabalho sozinho, a estrutura obedece a considerações musicais apenas. O truque de trabalhar para outras artes é que as peças têm que parecer que é suposto que sejam assim, musicalmente, por si próprias. Mas até Tchaikovsky teve de alterar as suas peças para os bailados. Não sou o único (risos).

– Saiu há vários anos de Macau. O que é que faz que esteja sempre a voltar e a ter estas colaborações com grupos locais?

N.K.K. – Acho que é a idade. Enquanto jovens, queremos fugir, deixar tudo para trás, encontrar um mundo novo. É comum. E quando deixei Macau também não havia as actividades culturais que há hoje – também estava sobretudo a aprender, a absorver coisas, ansiava por possibilidades de trabalhar como músico. O Canadá permitiu-me isso. Mas, com a idade, comecei a regressar mais vezes e a pensar que devia fazer algo cá porque tenho a ligação natural ao sítio. Sinto também agora que posso contribuir com alguma coisa, quando antes ainda não tinha grande coisa para dar.  Acabei por ir a todos os sítios de que me lembrei que tinham actividades culturais ao nível da música e apresentei-me às pessoas no sentido de saber se havia algo que pudesse fazer. Envolvi-me com o grupo do “Playing Landscape”, que tem tido várias reincarnações, e acabei por ir alargando as colaborações. Gosto de ter este novo equilíbrio, há mais um mundo para mim para além do Canadá. Além disso, gosto do carácter familiar do que se faz em Macau e gosto de poder falar cantonês regularmente.

“Folga gaang”

25, 25 e 26 de Maio,  20h

Live Music Association

Njo Kong Kie é o director musical da companhia de dança canadiana La la la Human Steps, de Montreal, mas não é raro encontrá-lo em Macau, local de onde partiu na adolescência para estudar e ao qual tem regressado assiduamente nos últimos anos, quase sempre em projectos de colaboração com grupos de artistas locais. A música de Njo tem sido usada nas produções de várias companhias de dança contemporânea, incluindo Nederlands Dans Theater, Hubbard Street Dance Chicago, Ballet BC, Silesian Dance Theatre e Singapore Dance Theatre, bem com no trabalho do colectivo local Playing Landscape. O compositor mantém também um projecto de música de câmara contemporânea, Day-OFF (http://www.musicpicnic.com), cujo repertório será parcialmente interpretado no Festival de Artes, desta vez recebendo o nome de “Folga gaang” – expressão coloquial local para um turno de trabalho extra atribuído ao pessoal de segurança em dia de folga. A expressão traduz o espírito das visitas do compositor e pianista a Macau: de férias, mas com um turno extra.

Na agenda de Njo Kong Kie

1 – “FAR” – Wayne McGregor |Random Dance – 1 e 2 de Junho

2 – “Despedida: O Corpo em 16 Capítulos” – Singapore Drama Box e FAM – 18 e 19 de Maio

3 – “Der Goldene Drache” – Teatro Horizonte – 18 e 19 de Maio

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