Uncategorized

“O corpo não consegue resolver a despedida”

Koh Wan Ching and Lam Teng TengO grupo de teatro Singapore Drama Box traz ao Festival de Artes de Macau um espectáculo onde o corpo não é só instrumento, é tema. É ele que sofre e muda com cada separação. “Despedida: O Corpo em 16 Capítulos” leva a homossexualidade ao palco, um tema “real, imediato e actual”, nas palavras do encenador Kok Heng Leun. Uma peça para maiores de 18 anos que “ressoa a situação de Macau”.

Inês Santinhos Gonçalves

Nos dias que correm, estamos sempre em despedida. De lugares, de pessoas. Vamos de cidade em cidade, de relação em relação. As separações são processos interiores, mais ou menos dolorosos, que racionalizamos e tentamos ultrapassar. Mas como é que o corpo resolve uma separação? Nos dias 18 e 19 de Maio, o público de Macau pode encontrar a resposta. Vai estar no palco do teatro D. Pedro V, apresentada pelo grupo de teatro Singapore Drama Box, convidado do Festival de Artes de Macau.

“A peça centra-se em torno de várias personagens que têm de abandonar alguém ou alguma coisa. Hoje em dia, as pessoas dizem adeus a muitas coisas, muitas vezes. As despedidas deixam gostos diferentes, às vezes são doces mas muitas vezes são amargas. Deixam raiva e emoções mal resolvidas. A peça é toda sobre este tipo de partidas que se observam na sociedade moderna”, descreve o encenador Kok Heng Leun. “O nosso corpo é o mais afectado com estas partidas. Não quero falar apenas de fenómenos intelectuais que podemos resolver. O corpo não consegue resolver a despedida”, afirma. Foi esta, então, a premissa, que deu nome à peça que estreia em Macau: “Despedida: O Corpo em 16 Capítulos”.

O espectáculo é indicado como sendo para maiores e 18 anos. Poderá ser, como indica o programa, por conter “referências sexuais”, ou talvez porque entre as diferentes relações amorosas levadas à cena estão a de uma professora com um aluno e a de duas mulheres.

Quis tocar em temas sensíveis? “[A homossexualidade] ainda é um tema sensível? É um assunto real, imediato e actual. Quando faço uma peça pergunto-me se ela é relevante, se há uma história para ser contada”, responde.

A conversa continua mas Kok pede para voltar atrás. “Mas este é um tema sensível em Macau?”, insiste. E conclui, depois: “De certa forma, aquilo que é falado na peça ressoa a situação de Macau. Mas não era nossa intenção fazê-lo. A arte é sobre a vida e a vida é sempre provocatória.”

A provocação não é estranha ao encenador de Singapura. Tanto que “todos os anos” lida com as consequências da sua irreverência. “Em Singapura a censura continua a ser um problema. Tenho de lidar com isso todos os anos, pelo menos numa produção por ano”, confessa.

Para Kok, o teatro é indissociável da política. “Reflecte as relações entre as pessoas e quando falamos de relações interpessoais falamos de política. Falamos de norma social, de discriminação, de preconceitos, de cultura. Não podemos fugir desses temas. Sim, o teatro é político, é sobre a vida, é provocador. Reflecte-nos e faz pensar a sociedade”, afirma.

Um Manifesto pelas Artes

Foi desta consciência – de que a arte é tudo o que nos rodeia – que o Singapore Drama Box lançou o seu Manifesto pelas Artes. A ideia é que seja visto pelo “maior número de pessoas possível”. Quem gostar pode assinar a petição, que quarta-feira contava com 885 assinaturas.

Kok resume a essência do manifesto: “Queremos que as pessoas nos digam o que a arte pode ser. Especialmente em Singapura, uma sociedade onde se fala sempre de desenvolvimento económico. A arte é vista como algo secundário, ou como um tipo de produto. Decidimos que era tempo de reivindicarmos para nós a definição de arte, a definição de cultura. Falamos sempre da arte de um ponto de vista económico, das vendas em bilheteiras. Mas porque não falarmos daquilo que a arte nos dá? A arte ajuda-nos a perceber melhor a vida”.

Por agora não há planos concretos sobre o que fazer com as assinaturas recolhidas. “Pusemos o manifesto cá fora e temos a certeza que o Governo o leu”, aponta o encenador. Mas isso – e o que fazer com isso – é para ser pensado depois. “O mais importante é que leiam o manifesto, que concordem ou discordem dele. Não estamos a querer dizer o que as artes devem ser em Singapura. O que queremos é que as pessoas pensem nisso, discutam sobre isso, lutem por isso. Para que a arte ganhe sentido”, sublinha.

De olho no Governo

No ano passado, o Singapore Drama Box aceitou o desafio de um tink-tank local para contribuir para o seu objecto de estudo: o futuro do Governo de Singapura. “É um projecto que inclui teatro, instalação, multimédia, vídeo, tudo com muita interacção com o público”, conta o encenador.

O Prism Project pretendia antever o caminho da governação da cidade-Estado. “O que vai acontecer em Singapura daqui a dez anos, 20 anos? Como será o Governo? Como vamos ser governados? Em torno deste tema criámos uma peça de teatro chamada ‘Wouldn’t it be good?’, que olhava muito para a forma como o Governo se estava a comportar”, conta Kok.

A interacção com o público foi intensa e o feedback “muito positivo”. De tal forma que o tink-tank o reflectiu num trabalho de investigação que depois apresentou ao Governo. “Macau podia fazer o mesmo. Há artistas com coração, que pensam muito na situação de Macau em termos culturais, sociais e políticos. Quando os artistas fazem um trabalho relevante, podem ter um grande impacto na sociedade”, salienta.

Macau na Despedida

“Despedida: O Corpo em 16 Capítulos” é também fruto do trabalho e da criatividade de profissionais de Macau. À equipa de Kok Heng Leun, juntaram-se, para esta produção, o encenador local Ip Ka Man e o actor Lam Teng Teng.

A colaboração permitiu “uma aprendizagem mútua” e evidenciou formas de trabalhar diferentes nos dois territórios. O encenador da cidade-Estado destaca a questão da hierarquia, com Macau a trabalhar de forma mais estruturada, em comparação com Singapura. “Trabalhamos de forma mais colaborativa, ninguém decide as coisas todas, as decisões implicam o envolvimento de toda a gente. É tudo muito fluído e os encenadores não têm tudo decidido desde o início. Como encenador, não tomo todas as decisões – todos os pormenores, todos os gestos que são levados para o palco vêm da equipa”, descreve.

Na agenda de Kok Heng Leun:

 

“O Memorando” – Associação Teatral Hiu Kok – 12 e 12 de Maio

“Der Goldene Drache” – Teatro Horizonte – 18 e 19 de Maio

“Muralha de Nevoeiro” – Body Phase Studio – 24 e 25 de Maio

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s