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À grande e à francesa

1A paragrafo le french mayO festival de artes Le French May já arrancou e estende-se até 23 de Junho. Macau e Hong Kong recebem exposições, concertos, artes de palco, cinema, gastronomia e mais. Pascal Casanova, da Alliance Française local, fala de uma cada vez maior presença na cidade.

Hélder Beja

As fartas guedelhas das cabeleiras postiças, as meias até ao joelho a fazerem lembrar o forcado português, a jaqueta muito justa, o sapato de berloques e salto alto – tudo isto faz parte de um imaginário francês e napoleónico visto e revisto em telas, filmes e outras formas de expressão. Agora, no Museu de Arte de Macau, o que há para ver até 14 de Julho é o ‘real deal’ daquele período conhecido como Primeiro Império Francês (1804-1815). Mobiliário diverso, tapeçarias, relógios e outros objectos compõem a exposição “Tesouros dos Palácios Imperiais”, que inaugurou a edição deste ano do festival Le French May, com uma programação que se estende até 23 de Junho em Macau e Hong Kong.

A mostra dedicada à estética cultivada por Napoleão Bonaparte (1769-1821) – e que nunca tinha sido mostrada fora de França – é a primeira de uma série de actividades programadas para Macau, onde o festival, organizado pelo Consulado-Geral de França para Hong Kong e Macau, tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos. “Esta exposição vem apenas a Macau, não a Hong Kong, é um exclusivo e é também uma mensagem importante para o turismo e a cultura de Macau. Sabíamos que o mobiliário de Napoleão podia ser muito atractivo para o turismo. Também sabemos que na China Continental este período da História de França é muito apreciado. Então, foi a combinação perfeita para arrancar com o Le French May. Normalmente o festival começa em Hong Kong e depois vem para Macau. Desta vez foi ao contrário”, conta Pascal Casanova, responsável pela Alliance Française local e parceiro natural do consulado francês na organização dos eventos trazidos a Macau.

Visualmente francês

O sinal dado pela organização do festival ao inaugurar a edição de 2013 deste lado do Delta do Rio das Pérolas reforça-se com o crescimento da programação em relação a anos anteriores. Ainda nas artes visuais, Macau recebe desde ontem, 25 de Abril, até 14 de Junho, a exposição “Living Sculptures”, da autoria do franco-argentino Pablo Reinoso, para ver no centro comercial One Central e no hotel Mandarin Oriental.

Artista e designer multifacetado, Reinoso traz a Macau 11 trabalhos escultóricos que reinventam objectos do quotidiano, como bancos, cadeiras, escadotes e espadas. Este diálogo entre arte e design trazido para o espaço público chega ao território depois de já ter passado por salas como o Centro Georges Pompidou, em Paris, o Museu Reina Sofia, em Madrid, e o Museu de Arte e Design de Nova Iorque.

Na Galeria do Tap Seac os visitantes terão oportunidade de ficar a conhecer o trabalho e a teoria fotográfica do filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007). Apresentado pela organização do Le French May como “um dos pensadores mais influentes do mundo e um dos pensadores franceses mais lidos na China”, Baudrillard desenvolveu ao longo da vida várias teorias sobre os media, a comunicação de massas e o impacto que esses mecanismos têm na realidade. Agora, será a vez de olhar o Baudrillard fotógrafo, consubstanciado nesta mostra composta por 50 fotografias.

A abertura da exposição, intitulada “Vanisihig Techniques”, está agendada para 11 de Maio, e a curadoria é do crítico e curador sino-francês Fei Dawei. Além da meia centena de imagens expostas, haverá também vídeos e vários documentos do arquivo do filósofo francês, que permitirão captar a essência do seu legado e explorar conceitos que Baudrillard introduziu, como o de hiper-realidade.

O Museu de Macau, na Fortaleza do Monte, foi o local escolhido para receber a mostra “Fantasy World – Chinoiserie”. As porcelanas e outras louças europeias foram, desde há séculos, enxameadas de motivos associados com o Oriente e o exotismo das desconhecidas paragens asiáticas. Pagodes, dragões e aves indecifráveis cobriram muitos dos pratos, jarras, travessas e outros acessórios das cortes de Louis XIV e Louis XV, em França. Era o tempo do Rococó (1725-1750) e do nascer de uma curiosa relação entre a cultura francesa e chinesa, assente numa simbologia que haveria de desenvolver-se ao longo dos séculos XVII e XVIII. Isto mesmo estará para ver no Museu de Macau, de 25 de Maio a 18 de Agosto.

O clássico e o moderno

O cinema – bem presente na programação de Hong Kong – também dá um salto a Macau, com o Teatro do Pedro V a receber a 10, 11 e 12 de Maio filmes mudos que serão musicados ao vivo (ver artigo nesta edição) por músicos estrangeiros mas também por intérpretes locais.

Mostrar o que de mais óbvio e clássico há para conhecer na cultura francesa, e a isso anexar um toque de modernidade que permita conhecer o país real, o país dos dias de hoje, é um dos grandes propósitos deste festival, garante Pascal Casanova. “Queremos trazer aquilo que se chama ‘cliché’, o conhecimento geral que temos de França e do seu passado, essas coisas que fazem parte da História, mas ao mesmo tempo queremos mostrar o contemporâneo, as novas gerações. Quando falamos por exemplo de DJ franceses, pensamos nos anos 1990 e em nomes como os Daft Punk, que agora até estão de volta com um novo disco. Mas há uma nova geração que merece ser conhecida.”

Um dos representantes desta nova geração capaz de criar a melhor música electrónica estará também em Macau, para um set no Armazém do Boi. O DJ Sydney Valette, acompanhado do VJ Chromophase, actuará a 3 de Maio, pelas 20h30, dando o toque de modernidade que o responsável pela Alliance Française quer ver em eventos deste género. “O Sydney Vallete faz parte desta nova geração, faz um trabalho mais artístico. Não é tão popular como outros, mas esta é também uma forma de as pessoas conhecerem melhor o que se está a fazer em França.”

As parcerias com associações como o Armazém do Boi são, para Casanova, essenciais. “Se qualquer coisa é organizada apenas pelo Consulado de França e pela Alliance Française, ninguém quer saber. Mais que nunca, e especialmente em cidades pequenas como Macau, estamos a trabalhar com as nossas redes de contactos locais. Se queremos fazer este tipo de actividades, precisamos de desenvolver parcerias”, nota.

Os parceiros são também entidades governamentais, com vários eventos do Le French May deste ano a fazerem parte da programação do Festival de Artes de Macau. O espectáculo “Drought and Rain”, da artista franco-vietnamita Ea Solas, é um deles (ver artigo nesta edição). A 3 de Maio, o Grande Auditório do Centro Cultural recebe um espectáculo performativo que é uma reflexão sobre a guerra e a história recente de um país carregado de traumas e assolado uma e outra vez por ondas de violência.

A 8 de Junho é a vez da companhia Kafig apresentar o espectáculo “Boxe Boxe”, também no Centro Cultural. Cruzando dança urbana com movimentos de artes marciais, o espectáculo idealizado pelo coreógrafo Mourad Merzouki envolve o público numa ambiência mais sensual que violenta, em que os corpos têm um papel central.

Partindo de composições de Mendelssohn, Schubert e Philip Glass, Merzouki puxa o hip hop e a arte de rua para o lugar nobre das salas de espectáculo. Com uma pitada de humor e outra de arte circense, “Boxe Boxe” é uma produção de dança contemporânea ao mesmo tempo que é um tratado sobre a violência e o poder do corpo.

Pascal Casanova acredita que estes eventos – a que se juntarão outros que fazem parte da programação cultural regular da Alliance Française – conseguirão atrair a comunidade local, apesar de avisar que nunca é garantido. “Ainda que organizemos eventos com entrada livre, nem sempre é fácil ter uma boa resposta por parte do público. Mas estou bastante satisfeito com os últimos eventos que temos organizado. Uma das coisas que é clara para nós é que temos de fazer parte dos festivais locais, até porque somos uma associação local o nosso objectivo não é ser um clube francês para um público francês, como eu sempre disse desde que comecei neste trabalho.”

O Le French May começou há 21 anos, numa fase em que Macau e Hong Kong tinham uma oferta cultural bem diferente da que existe actualmente. Casanova percebe que hoje “Macau tem muitas actividades, com associações chinesas e portuguesas envolvidas”. Além do entretenimento dos casinos, o responsável da Alliance Française considera que “hoje há um público local que precisa de ter mais oportunidades para descobrir outras coisas” e, acredita, “o Le French May também tem esta missão”.

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