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“Estes corpos são corpos de memórias”

paragrafo120-1O Vietname não fala da guerra, mas ela precisa ser lembrada. Ea Sola, das poucas artistas contemporâneas vietnamitas com reconhecimento internacional, deu vida a estas memórias sem recorrer a palavras. Em “Seca e Chuva”, quem sobe ao palco são 11 mulheres, antigas cantoras na frente de batalha, com idades entre os 60 e os 75 anos. São estes “corpos de memórias” que abrem, na próxima sexta-feira, o Festival de Artes de Macau.

Inês Santinhos Gonçalves

Foi em 1995 que a vietnamita Ea Sola mostrou, pela primeira vez, “Seca e Chuva”, um espectáculo performativo, onde não se fala e não se dança, mas onde o movimento contido encerra as memórias mais violentas do país: as da guerra que opôs o Vietname aos Estados Unidos.

Quando, em 2011, o espectáculo integrou o famoso Festival de Edimburgo, o jornal britânico The Guardian descreveu-o como “assombroso” pelo impacto visual e pela “força e carisma” das mulheres que o executam. Em “Seca e Chuva” ecoam as canções tradicionais que as mulheres cantavam para os soldados e vêem-se fotografias de heróis da resistência. “O resultado é poderoso e reconfortante, mais sobre sobrevivência do que sobre guerra”, garante o Guardian.

Uma parceria entre o Festival de Artes de Macau e o French May, que pode ser vista no Centro Cultural, na próxima sexta-feira.

– Como é que surgiu esta ideia de fazer o espectáculo com camponesas, sem qualquer experiência performativa?

Ea Sola – Julgo que foi porque, no fundo, não me vejo como uma artista, não penso em mim como uma coreógrafa, sinto-me mais como uma investigadora. Quis trabalhar a memória da guerra. Durante o trabalho de pesquisa conheci muitas pessoas, incluindo estas senhoras, que atravessaram a guerra. Para mim, foi muito natural. Não pensei que não estava a trabalhar com profissionais. A ideia era mostrar alguma coisa às pessoas, através do movimento do corpo. Só que estes corpos são corpos de memórias, estes movimentos são de pessoas que passaram pela guerra. Trabalhámos muito, trabalhei com cada uma delas de forma diferente.

– Achou que ia conseguir resultados diferentes do que se tivesse artistas profissionais?

E.S. – Não, nem sequer pensei na questão de estar a trabalhar com profissionais ou amadores. Não decidi que não queria a qualidade de profissionais, não foi isso. Só que fazia mais sentido trabalhar com aquelas pessoas porque elas passaram pela guerra. Em 1995, quando estreei o espectáculo, trabalhei com muitas pessoas diferentes. Sempre trabalhei muito sobre a memória humana e para isso costumo escolher pessoas que não têm especialização. Escolho pessoas afectadas pelo assunto que quero tratar.

– Mantém sempre o mesmo grupo de mulheres ou mudou ao longo dos anos?

E.S. – Mudei. Na primeira versão do espectáculo, em 1995, as mulheres eram camponesas que tinham defendido as aldeias com armas. Essas mulheres hoje já estão demasiado velhas, na casa dos 90. As que entram neste espectáculo têm entre 60 e 75 anos. Estas mulheres, quando eram jovens, cantavam na frente de batalha para dar alento e consolar os soldados. Quando fiz a audição e as escolhi, sabia que tinham sido cantoras tradicionais no passado, mas só depois é que descobri que tinham estado na frente de batalha. Para mim, este foi um pormenor muito forte, saber que tinham usado as suas vozes desta maneira. Há 20 anos, quando comecei, a minha pergunta era (e continua a ser): porque é que os humanos se matam? Descobri que os termos utilizados sobre a guerra são muito abstractos. Pensamos sempre na guerra como algo sangrento, pensamos no sofrimento e na perda, enfim, nos clichés. Mas se realmente quisermos pensar no assunto, vamos ver que se trata de um fenómeno organizado, planeado. São pessoas que enviam outras pessoas para se matarem. Porque é que há guerra? Porque é que as coisas acontecem assim? Porque é que fazemos coisas que naturalmente não queremos fazer? O que é que nos empurra a seguir os outros? Isto leva-nos a outras questões, como a manipulação, como a forma como o ambiente pode influenciar uma pessoa. É um trabalho de consciencialização.

– Conseguiu encontrar respostas para as perguntas, através do trabalho com essas mulheres?

E.S. – Isto é um processo de reflexão, de pensamento, que leva uma vida inteira. Não é propriamente a trabalhar com elas que se encontram respostas. Mas encontrei alguns caminhos que me guiaram a um lugar muito longínquo, onde começamos a ser humanos e não sabemos nada sobre o nosso envolvente. O medo continua a ser uma marca, fica no corpo. Tudo isto era muito obscuro. Claro que já não é tanto, sabemos muito mais hoje, mas no nosso corpo, no nosso ADN, há uma memória. Todos nós temos uma fraqueza que pode ser usada pela sociedade.

– Como foi o trabalho com elas? Estamos a falar de mulheres que nunca tinham saído do Vietname e viram-se envolvidas num espectáculo que já passou por vários países. As suas vidas mudaram muito.

E.S. – Sim, claro. As mas mudanças foram mais relativas à tomada de consciência do que ao estilo de vida, à forma de viver. Porque com estas idades, não se mudam hábitos facilmente. Mas a grande mudança para elas foi falar do assunto, trabalhar sobre elas próprias, sobre temas que não tinham questionado. Ouvir o silêncio, ouvir as perguntas, ouvir as pessoas que lhes estão próximas, esse tipo de coisas. Se queremos trabalhar com a memória, temos de ouvir. E não ouvir apenas as coisas bonitas, mas também as más.

– Partilharam muitas histórias, então.

E.S. – Sim. Temos de colocar as coisas em palavras, e não falar apenas do que é bonito mas do que é feio – na memória e no que continuamos a fazer.

– Como foi, para elas, participar num espectáculo com tanta visibilidade? Encorajador?

E.S. – Sem dúvida. Antes de as viagens se terem tornado uma indústria, o ser humano já viajava, sem recorrer a aviões, carros ou comboios, viajava com a imaginação. Para os países que passaram pelo colonialismo, há tantas viagens para imaginar, [no nosso caso] a França, a Europa. E agora isso foi concretizado. Uma viagem que não é turística, mas que foi tantas vezes imaginada por causa da história. Imaginamos os Estados Unidos porque tivemos um confronto com os Estados Unidos – e os Estados Unidos também imaginam o Vietname. Uma coisa [positiva] que podemos dizer da guerra, é que nos permitiu imaginarmo-nos.

– Como é que as gerações mais novas se relacionam com este tema, das memórias de guerra?

E.S. – Em 2005, fiz este espectáculo com os bailarinos do Ballet Nacional de Hanói e eles disseram-me que não se interessavam [pelo assunto]. Têm as suas razões para não quererem saber das histórias dos seus pais e avós que lutaram tanto pela paz. A vida deles é difícil. Mas a vida dos jovens, no mundo, hoje em dia, é difícil. Sempre foi difícil. Hoje é mais, talvez, porque a indústria vende o mel da felicidade, através de óculos de sol e tecnologia e roupa. Mas faltam sentimentos para com o universo. E onde fica o universo se não onde nós estamos? Começámos a trabalhar e eles absorveram o processo. Foi aí que a consciencialização apareceu. Alguns até choraram. Disseram que perceberam como estavam a ser egoístas por não terem visto como os seus pais estavam a sofrer. Perceberam porque é que o pai ou a mãe são tão calados, começaram a fazer perguntas e os pais começaram a falar. Descobriram as suas histórias. Nunca tinha perguntado antes por isso não tinham essa consciência.

– Os pais, no Vietname, nunca falam sobre a guerra com os filhos?

E.S. – Não, ninguém. Mas não só no Vietname, noutros países também. A reposta ao espectáculo no Vietname, em 1995, foi muito forte. Sempre disse que o espectáculo tinha de ser mostrado no Vietname, e em especial na Ásia. Aliás, por esse motivo, estou muito contente por ir a Macau, como fiquei muito contente de ir a Taiwan, a Hong Kong e a Singapura. Para mim é muito importante chegar ao público asiático. Porque nós, na Ásia, não passamos muito tempo a pensar na nossa história, na nossa cultura e na memória.

– Como foi a reacção no Vietname?

E.S. – Muito, muito forte, algumas pessoas ficaram muito comovidas. Isto pode parecer muito banal, mas a verdade é que me apercebi como a guerra foi uma coisa tão intensa e tão triste, ao ponto de não se querer falar do assunto. É demasiado triste e, apesar de as pessoas não conseguirem esquecer, não querem falar sobre isso. Eu percebo, leva tempo para falarmos sobre uma coisa tão difícil. É isso que temos vindo a fazer.

– Acha que é importante transportar estas memórias para as novas gerações?

E.S. – Sem dúvida. Não podemos deixar que se banalize, temos de nos lembrar do que aconteceu aos outros, temos de estar conscientes da nossa história e também da história dos outros países. É muito importante, por exemplo, percebermos como começou a Guerra Mundial II. Como é que uma coisa assim pôde acontecer?

– Já apresentou “Seca e Chuva” nos Estados Unidos?

E.S. – Sim, em 1996 e em 2005. Foi maravilhoso, foi uma experiência muito profunda. Ajudou-me muito estar ali, com quem esteve comigo noutro contexto. Precisamos do outro. Porque o outro também é como nós. Foi muito bonito.

– Não há muitos artistas contemporâneos vietnamitas com visibilidade internacional. Continua a ser muito difícil vingar nas artes?

E.S. – É muito difícil. E não apenas no Vietname, mas em muitos países do sudeste asiático. No contexto internacional somos muito poucos. É também uma questão de contexto. Hoje em dia, o moderno é o ocidental. Isso cria muita pressão. Além disso, há outro tipo de motivos. No Vietname, temos uma cultura tradicional. A música e a dança surgem no contexto do templo, por exemplo. O conceito de um palco é uma importação na Ásia. Nunca tínhamos realmente pensado no que é um palco, em pessoas que compram bilhetes para ir a um espectáculo. Tudo isso é pouco claro. Não sabemos exactamente o que fazer. Vemos o que chega do Ocidente e continuamos a pôr o nosso toque, mas de forma muito indefinida. Temos de trabalhar mais nisso e precisamos de ajuda, de infra-estruturas.

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