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“É muito improvável que o meu trabalho seja exibido na China”

PARAGRAFO 121-1Seis actores locais vão dar vida à peça do dramaturgo Wang Mo Lin. O encenador de Taiwan, um dos precursores do teatro físico asiático, dirigiu um workshop em Macau, de onde seleccionou os jovens actores de “Muralha de Nevoeiro”. Wang já tinha passado por cá, com a série “Black Hole”, uma trilogia sobre os fantasmas da guerra em Taiwan. Polémica é, aliás, o que não falta às suas peças, razão pela qual acredita ser difícil chegar aos palcos da China Continental. “Muralha de Nevoeiro” estreia dia 24 no Festival de Artes de Macau.

Inês Santinhos Gonçalves

– O espectáculo que trazem a Macau, “Muralha de Nevoeiro”, é inspirado na obra de O’Neill, que gira em torno das (difíceis) relações familiares. Tendo em conta as diferenças na orgânica familiar do Ocidente e do Oriente, o que o fez tomar o dramaturgo americano como referência?

Wang Mo Lin – Quando estava na universidade, a estudar Teatro, deparei-me com esta peça [“Long Day’s Journey into Night”]. Nessa altura era muito novo para perceber porque é que havia tantos problemas numa família. Por exemplo, porque é que o pai era um bêbado. Quando cresci, comecei a ter essa peça como referência, porque experienciei muitas dificuldades familiares. Esta peça continua a estar sempre na minha cabeça. [Para a adaptação] parti da minha experiência, mas também da dos meus pais e outros familiares e do que observei na sociedade. Quisemos explorar as contradições nas famílias. Mas quando olhei para o guião, percebi que, de certa forma, não correspondia a uma visão contemporânea ou uma estética contemporânea. Por isso fiz-lhe algumas revisões. A peça é original dos Estados Unidos, mas não queria fazer um drama americano, por isso foquei-me mais no enredo, na tensão entre os membros da família. Não se parece a um drama americano, mas também não parece um drama chinês – é antes uma história única que extraí do original. Mas claro, como integrei a minha experi pessoal ﷽integrei a minha experi eperiambortante ee uito estranhosência pessoal na peça, acabou por parecer mais baseada numa família chinesa.

– Que elementos permitem essa identificação?

W. M. L. – As emoções não são expressas de forma muito agressiva, por exemplo. O drama está mais assente no que se passa no interior. Por exemplo, podem ver-se discussões muito intensas entre os pais, mas o movimento dos corpos é muito subtil e lento. Isso faz com que não seja tão expressivo como nos dramas americanos.

– Como é feita a transposição para o palco, no caso do teatro físico?

W. M. L. – Na nossa vida diária, há gestos que são muito naturais, mas se os pusermos no palco ficam muito estranhos, não ficam bem. Por outro lado, quando a linguagem corporal fica demasiado bonita, parece encenada. Os actores mais experientes têm tendência a mover-se de forma demasiado bela, o que é estranho. Este tipo de arte física concretiza-se através do controlo, de modo a obter-se um equilíbrio: não queremos que pareça demasiado perfeito mas também não queremos que pareça pouco natural. O importante é o controlo – não é o controlo exterior mas interior. Na peça, os actores e actrizes conversam de forma muito natural, mas tento inserir alguns movimentos abstractos, pouco realistas. Coloco também algumas cadeiras no palco, para apoiarem esses movimentos exagerados. Os actores interagem com as cadeiras. Há dois tipos de interacção: juntas, criam um ambiente abstracto no palco, e além disso, eles usam as cadeiras, sentam-se nelas e falam uns com os outros. E não é só sentarem-se, podem usar as cadeiras para outras coisas, passam por baixo delas, ou colocam-nas ao seu redor.

– Porquê essa valorização do corpo, em comparação com o teatro clássico?

W. M. L. – Tenho tendência a valorizar mais os movimentos corporais, em detrimento das expressões verbais, porque se realmente quisermos passar uma mensagem para o público, a imagem visual terá um maior impacto. Quero evidenciar esta distinção.

– Trabalhou com vários actores de Macau para esta peça. O que pensa do teatro local?

W. M. L. – Da última vez trabalhei com um actor de Macau, agora trabalhei com seis. Nesta colaboração, tive a oportunidade de observar o panorama do teatro em Macau. A situação é diferente da de Taiwan. Em Taiwan, há muitos workshops e muitos professores que ensinam teatro. Se estiverem interessados, os jovens podem aprender muito sobre teatro. Aprendem muito mas, de certa forma, a sua prestação é desorganizada – recebem muita coisa mas não a transformam nas suas performances. Não vejo esta desorganização nos actores de Macau. A sua percepção é muito pura e natural. Em relação a esta peça, a sua performance é, de certa forma, simplista. Os actores de Macau continuam a desenvolver as personagens de forma muito clássica, ao invés de usarem uma perspectiva diferente. Apesar desta simplicidade, para mim é bom, faz-me lembrar os actores de Taiwan há dez ou 20 anos. Ainda têm muitas oportunidades para desenvolverem as personagens. De certa forma, é difícil trabalhar com eles mas sinto-me agradavelmente desafiado. Neste momento, não vejo os actores de Taiwan a desafiarem-se assim, como vejo em Macau.

– Como avalia o desenvolvimento do teatro experimental na Ásia?

W. M. L. – O teatro experimental não existe na China. A China é um país muito importante no contexto mundial, mas neste aspecto têm uma prestação muito fraca. Em Hong Kong, as políticas muito desenvolvidas de incentivo à cultura funcionaram como um obstáculo aos criadores, que estão demasiado dependentes dos subsídios e menos preocupados em criar algo realmente novo. Na minha opinião, a perspectiva dos criadores de Hong Kong é muito limitada, apesar de a cidade ser considerada muito internacional. Esse estreitamento de visão só aconteceu depois de 1997, noto essa diferença. Taiwan e Hong Kong são semelhantes, mas ainda há diferenças. Depois de 1987, quando terminou a Lei Marcial em Taiwan, desenvolvemos uma nova geração de actores, estudos dramáticos, encenadores e público. Esta tornou-se a grande força da indústria criativa em Taiwan. Em Taiwan temos hoje um ambiente relativamente estável para os criadores, através de apoios financeiros, mas ainda assim os criadores de conseguem manter-se ligados à realidade. Esta é uma grande diferença entre Taiwan e Hong Kong: os criadores de Taiwan estão mais ligados à sociedade.

– O teatro, e as artes em geral, deve ter uma abordagem crítica, deve gerar polémica?

W. M. L. – Sim. É por isso que prefiro sempre trabalhar com teatros pequenos. Quando trabalhamos com teatros grandes temos sempre de ter em consideração as vendas e factores que podem condicionar a criatividade. Trabalhar em teatros pequenos acaba por ser um desafio ao que é comercial.

– E em relação aos temas, quão importante é abordar tópicos sensíveis?

W. M. L. – Muito. Acho que devem desafiar o pensamento dominante.

– Em 2011, trouxe a série “Black Hole” a Macau, sobre os fantasmas da guerra que ainda pairam sobre Taiwan. As relações entre Taiwan e a China Continental continuam a ser um tema sensível?

W. M. L. – Sim, continuo a achar que este é um tema muito sensível. Em “Black Hole” foco-me na guerra entre a China e Taiwan. Apesar de a guerra já ter acabado há muito tempo, o confronto entre chineses do Continente e pessoas de Taiwan continua a sentir-se. Isto também se aplica aos jovens, [nascidos] depois de 1987, que ainda têm dificuldades em confrontar as pessoas da China Continental. Isto reflecte-se na identidade das pessoas de Taiwan, esta confusão entre China e Taiwan é visível na sociedade. Em Setembro vamos ter outro espectáculo sobre o resultado de todas estas guerras frias, os sentimentos, a confusão, a luta interior.

– O teatro pode ter um papel na resolução deste problema?

W. M. L. – Acho que isto não pode ser resolvido. Mas através do teatro podemos olhar para esta relação e tornar a confusão em algo mais claro para todos. Apesar de, em termos políticos, não podermos resolver todos os problemas, como a independência, podemos usar o teatro para pensar nestes problemas e sentimentos contraditórios.

– Como é que o seu trabalho é recebido na China?

W. M. L. – É muito improvável que o meu trabalho seja exibido na China.

– Mas sabe qual é a opinião do público de lá?

W. M. L. – Já convidei amigos ligados ao teatro, de Xangai e Pequim, para verem as minhas peças. Se pelo menos uma pessoa em mil milhões vir uma peça minha, já fico contente.

– A nova peça vai ter actores da China. Vão tentar mostrá-la no Continente?

W. M. L. – Não é que nos impeçam de mostrar as peças na China. Nós é que não tentámos. Talvez haja essa possibilidade.

– E quer tentar?

W. M. L. – Sim, claro. Mas já abordei vários temas sensíveis, como a imolação pelo fogo, ou como os partidos de esquerda perderam os seus ideais, e não estou certo que [as peças] possam ser mostradas na China Continental.

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