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“O público chinês é especial, porque não dança”

imageSydney Valette é um dos nomes emergentes da música electrónica francesa. Amanhã, no Armazém do Boi, continua a tour chinesa e actua ao lado do VJ Chromophase. O artista espera uma audiência peculiar e promete uma actuação memorável.

Hélder Beja

Qualquer dia estamos todos a fazer música utilizando apenas os nossos smartphones, como hoje todos achamos que fazemos fotografia com esses aparelhos de bolso. É assim que o Sydney Vallete, que actua amanhã às 20h30  no Armazém do Boi, olha para a música electrónica dos nossos dias. E é também assim que preconiza o fim da arte.

Vallete é francês e um nome a seguir com atenção na cena electrónica europeia. Ainda não chegou aos 30 anos e faz parte da geração que cresceu a ouvir coisas como Daft Punk (e sim, eles estão mesmo de volta, com o álbum “Random Access Memories”). Foi para Paris estudar Filosofia e acabou mergulhado nos clubes da capital gaulesa. A história não é como a de Nicolas Jaar mas tem as suas semelhanças.

Sydney Valette responde a esta entrevista de Chengdu, em mais uma paragem da digressão que está a fazer na China e que também passa por Macau e Hong Kong, integrada na programação do Le French May. Apesar de toda a tecnologia e de todo o imediatismo, o artista continua a acreditar que a música serve para aproximar pessoas e, já agora, para fazer do mundo um lugar ligeiramente melhor.

O concerto no Armazém do Boi tem entrada livre.

– Está a fazer uma primeira digressão pela China. Como tem sido a reacção do público chinês à sua música?

Sydney Valette – Tem sido boa. Na verdade estamos neste momento a fazer música num sofá em Chengdu. O público chinês é especial, porque na verdade não dança, mas tenho tido boas sensações. O melhor set foi em Xangai, no Yin Yin Tang. Bom público, bom som, foi óptimo.

– O seu primeiro álbum “Plutôt Mourir que Crever” é descrito como uma mistura de romantismo e misticismo. A sua infância também é muitas vezes nomeada quando alguém tenta localizar as raízes do seu trabalho. Que elementos da sua vida consegue encontrar naquelas músicas hoje, quando as ouve?

S.V. – O romantismo e o misticismo têm mais que ver com o que eu faço. O meu primeiro álbum já está distante, foi editado em 2011. Naquela altura estava mais a trabalhar com sons regressivos, com techno punk. Tentei lidar com todas as frustrações que tive enquanto criança, uma ausência de afecto que explode nesse álbum, já em idade adulta. Desde essa altura acho que avancei para qualquer coisa mais madura.

– Usa Francês e Inglês nas suas músicas. Alguma razão em especial para isso?

S.V. – Não me restrinjo a qualquer tipo de língua, estou por estes dias a trabalhar numa canção em Russo, em por que não em Chinês? Actualmente canto mais em Inglês porque é um idioma que permite óptimos arranjos vocais, enquanto que o Francês é mais como uma língua sussurrada.

– Existem também elementos performativos nas suas actuações. Um dos textos que apresenta o seu projecto descreve-as como cheia de “movimentos ao estilo de Samuel Beckett”. Neste campo, o que é que podemos esperar do concerto agendado para o Armazém do Boi?

S.V. – É verdade, eu mexo-me de maneiras estranhas às vezes (risos), têm de estar preparados. Devem estar preparados para que eu apareça nu e comece a urinar para o público, enquanto como uma banana! Não, estou só a brincar. A questão é que vejo esses cantores pop na televisão, com coreografias muito bem estudadas, e gostaria de usar esses códigos para fazer uma coreografia desconexa, misturada com elementos da dança contemporânea. Tudo isto me parece muito excitante, mas não por agora, não estou realmente preparado para ir por aí a esse nível. Então, mexo-me apenas de uma maneira esquisita, tento entreter as pessoas.

– É possível ver online alguns dos vídeos oficiais das suas canções. O VJ que o acompanha nesta digressão, Chromophase VJ, é também francês mas vive em Xangai. Ele usará material semelhante ou devemos contar com qualquer coisa totalmente diferente?

S.V. – A colaboração com o Chromophase é interessante, ele deveria definitivamente tentar trabalhar na Europa. A minha primeira colaboração com ele foi em Xangai, então acho que vamos usar o que ele fez dessa vez e improvisar.

– Sem tentar etiquetar o seu trabalho, é possível olhar para a sua música e para a música de outros artistas como Nicolas Jaar e falar de uma nova geração que está a redesenhar a paisagem da música electrónica?

S.V. – Talvez, não tenho a certeza. Somos tantos a fazer música hoje em dia… Não me considero alguém especial. Existem dois milhões de páginas de bandas na Internet.

– Tal como no caso de Nicolas Jaar, tem um passado ligado às Humanidades. Nicolas Jaar estudou Literatura, você estudou Filosofia. Isto foi e ainda é importante para a música que faz?

S.V. – Acho que a Filosofia me deu um modo particular de compreender o mundo. Tento sempre encontrar alguma espiritualidade nos meus trabalhos, quero ‘apoiar’ o mundo através da música. A música tem que ver com partilha, com conectar as pessoas umas com as outras através da partilha de emoções.

– Quais são as suas principais referências na música electrónica? O trabalho de nomes como Daft Punk foi importantes para si?

S.V.  – Tenho imensas influências, como as correntes witch house, garage, punk, cold wave, techno, gabber sound, rave music, trans… Quero dizer, estou sempre curioso em relação a tudo, posso fazer uma canção hip hop num dia e fazer rave no dia seguinte. Daft Punk foi um dos primeiros projectos de música electrónica que ouvi na minha vida, em 1997, com músicas como “Around the World”. Foi uma experiência estranha, eles pareciam muito diferentes de tudo o resto.

– Sente que há um interesse renovado pela música electrónica por parte do público?

S.V. – Parece-me que em França e na Europa a música electrónica é enorme. Em França, a cultura de ir a clubes e discotecas é muito forte hoje. Tecnologicamente também é a loucura, quase que é possível fazer uma canção com o nosso telemóvel. Em breve, pensaremos ‘música’ e a ‘música’ será criada imediatamente – então, será aí o fim da arte!

– Está a trabalhar num novo álbum. Já tem título? Mostrará algum desse novo material em Macau, amanhã?

S.V. – Todas as canções que estou a tocar ao vivo são novas, já não toco nada do primeiro álbum. Há um novo álbum a caminho, ainda não sei quando. Vamos lançar um EP em Setembro numa editora parisiense chamada Yuk Fu Records. O título do EP é “Krystall”, e terá um novo vídeo. Estou muito entusiasmado com isto.

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