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CRÍTICA: “Zhean e Leon”

3 macau indiesUma história sobre amor, fuga, liberdade e rebelião

Leong I On*

O Festival Internacional de Cinema de Macau, organizado pelo Centro Cultural e co-organizado pela Associação Audiovisual CUT, pode ser descrito como o evento anual para os amantes do cinema local. Este ‘made in Macau’ é uma espécie de relatório anual feito por cineastas do território. Entre o grande número de filmes mostrados este ano, gosto e recomendo particularmente o documentário “Zhean e Leon”.

Nos primeiros dez minutos do filme, o realizador Nuno Viegas parece estar a entrar numa comunidade para fazer investigação enquanto assistente social e para entrevistar algumas empregadas domésticas indonésias que são lésbicas. Depois disso, a história torna-se mais e mais dramática: a história de amor das duas protagonistas, Zhean e Leon, do Victoria Park em Hong Kong à Rotunda Carlos da Maia em Macau, fez-me pensar muito sobre este grupo esquecido de pessoas, tanto na parte mais realista como na parte mais ficcionada do filme.

Diz-se que há um casal de lésbicas em cada dez empregadas domésticas indonésias. Este não é apenas mais um fenómeno registado em Macau, já que também reflecte os muitos problemas laborais de um modo mais global: a violência dos empregadores, o assédio sexual, a perseguição religiosa, a discriminação em relação à orientação sexual, a legislação retrógrada para os trabalhadores migrantes, a insuficiência de apoio social, os mecanismos de treino e outros assuntos.

“Zhean e Leon” faz lembrar um filme premiado e assinado pela socióloga de Hong Kong Cecilia Ho, com o título “HERstory – Jeritan”. No entanto, esse filme vai mais pela compaixão, como se a realizadora pretendesse projectar a sua empatia com as trabalhadoras migrantes, como se fosse uma delas. Enquanto que “Zhean e Leon” é mais auto-confiante: o conflito e a luta entre as religiões tradicionais indonésias e a cultura destes novos migrantes não só tem um impacto nas personagens como influencia directamente as ruas da cidade e a comunidade. Das canções pop indonésias à dança do cavalo e à interacção nas ruas, até às estátuas sorridentes que representam o amor lésbico em festas.

Não importa com que roupagens, estas mulheres preferem ser senhoras dos seus corpos. Ainda que o amor ousado e sincero entre Zhean e Leon não desperte compaixão ou receba apoio das pessoas, elas escolhem ser senhoras dos seus destinos. O monólogo narrativo de Leon é omnisciente e atravessa todo o filme, criando uma história de amor exótica. As memórias que elas têm de Singapura e a decisão corajosa de voltar para a Indonésia são dramáticas e são também a parte mais poderosa do filme, baseada numa história real.

Esta é uma história sobre amor, fuga, liberdade e rebelião. Agrada-me que o realizador Nuno Viegas reflicta perfeitamente sobre este assunto que é omitido pela maior parte das pessoas em Macau. Pessoalmente considero este o melhor documentário local deste ano. Merece ser recomendado e visto por toda a gente.

* Leong I On é membro da Associação Audiovisual CUT e crítico de cinema

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