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Onde param os Indies de Macau?

PARAGRAFO 122-1António Caetano Faria e Tracy Choi voltam a apresentar filmes este fim-de-semana na competição local Macau Indies, que já venceram. Cecilia Ho arrumou a câmara e concentrou-se no trabalho social. Cheong Kin Meng não voltou a filmar. E Carolina Rodrigues, agora em Pequim, quer regressar com um novo projecto no próximo ano.

Hélder Beja

As sementes deitam-se à terra. Depois, consoante o solo, o clima, o cuidado e, claro, a qualidade da semente, logo se vê. É assim com o Macau Indies, mostra de cinema local que integra o Festival Internacional de Cinema e Vídeo e que regressa este fim-de-semana ao pequeno auditório do Centro Cultural. O Macau Indies é, para muitos jovens interessados no audiovisual, o começo de uma possível carreira. Depois, como nas sementeiras, logo se vê.

Desde quarta-feira e até sábado, 21 filmes são exibidos (ver programa nestas páginas), muitos deles financiados pelo programa Macau View Power, através do qual o CCM vem apoiando o cinema local.

O caminho começou em 2007, ano em que o Macau Indies se estreou, ainda sem competição. No ano seguinte, Cheong Kin Meng arrecadou o primeiro grande prémio do júri com “We Love Dancing”, filme sobre a os ‘street dancers’ de Macau. “Para mim foi irreal ganhar esse prémio. Tinha acabado de me licenciar, não tinha qualquer intenção de trabalhar em vídeo, mas isso deu-me muita confiança”, conta Cheong ao PARÁGRAFO.

“We Love Dancing” é uma história muito pessoal, como outras que o Macau Indies vem premiando. Cheong Kin Meng é ele mesmo um ‘street dancer’. “Tive de parar de dançar durante quatro anos porque me magoei no joelho. Então, tive esta ideia de filmar ‘street dancers’ e contar a minha história a outras pessoas.” O reconhecimento conseguido por Cheong não foi, no entanto, suficiente para que continuasse a pegar na câmara e a fazer filmes. “Talvez não volte a participar no Macau Indies. Tenho investido toda a minha energia no ‘street dancing’, promovendo-o e encontrando novos apoios.”

Cinema social

Quem também fez uma pausa no cinema foi Cecilia Ho, vencedora do Macau Indies em 2009, com “HERstory – Jeritan”, documentário que retrata a vida das mulheres que vêm de vários países do Sudeste Asiático para trabalhar como empregadas domésticas em Macau. Investigadora dedicada a causas sociais e professora do Instituto Politécnico local, esta natural de Hong Kong está agora concentrada em terminar o doutoramento, mas não põe de parte voltar a participar no Macau Indies. Seja como for, o cinema é mais um veículo para o trabalho que quer desenvolver.

“Posso pensar em voltar a participar, sempre que achar que há assuntos e questões e que devo utilizar este meio para os dar a conhecer. Mas se houver outros meios para atingir o mesmo fim, prefiro utilizar esses meios, como a investigação ou a ajuda e apoio a grupos minoritários, como trabalhadores migrantes ou toxicodependentes, para que façam os seus próprios documentários”, diz Cecilia Ho. “Quanto a mim, prefiro afastar-me um pouco e consolidar a experiência que adquiri fazendo documentários nos últimos anos. Mais tarde talvez pense em integrar a investigação e o cinema nos meus projectos.”

Cecilia Ho tem muito claro que apenas filma porque quer dar a conhecer casos sociais que considera importantes. Fez dois documentários sobre a condição feminina em Macau e outro com pessoas dependentes do uso de drogas pesadas – todos participaram no Macau Indies. Além do reconhecimento e da possibilidade de expressar ideias sobre por exemplo questões de género, que a preocupam, de facto importante para a investigadora foi “ser a ponte entre o público e os problemas” das pessoas que não têm como fazer-se ouvir.

Hoje, arredada das câmaras, Cecilia Ho continua a dar uso aos filmes que realizou, projectando-os todos os anos para os seus alunos e convidando outros cineastas locais a fazer o mesmo. “Espero que isso ajude a que as más condições de trabalho dos migrantes e outras questões sejam resolvidas e melhoradas através das políticas do Governo. Agora mantenho a minha ligação com todas essas pessoas e estou a começar a desenvolver projectos diferentes, como mobilizar os meus estudantes para trabalharem com as minorias étnicas em Macau, ou publicar artigos em línguas como o bahasa, vietnamita, tagalo, etc.”

Ficção à espreita

Depois de em 2010 a dupla Ho Wai e Ho Kim Man ter vencido a competição, com o documentário “Cruzando as Pontes de Macau”, filme sobre as nuances multiculturais da cidade, algures entre Oriente e Ocidente, no ano seguinte foi a vez de António Caetano Faria e Carolina Rodrigues romperem as barreiras mais clássicas do cinema documental, com “Time Travel”.

A história de um rapaz que vai em busca da vida simples, agreste e prestes a desaparecer dos pescadores de Macau tem boas doses de ficção e como que antecipou o que haveria de acontecer dois anos depois: a abertura do financiamento do CCM a curtas-metragens de ficção e a filmes de animação.

“O Macau Indies ajudou-me a pensar e a reflectir sobre Macau. O passado e o presente de Macau fazem parte do conhecimento que podes adquirir para entenderes a tua própria evolução pessoal, fruto daquilo que vês, ouves e sentes. Fez-me sentir que pertenço a esta sociedade e que tenho a responsabilidade de contribuir para ela”, começa Faria.

Este ano, o realizador português está representado por dois filmes. “Rutz – Global Generation Travel”, sobre o fenómeno dos viajantes backpackers, e “No Vazio”, filme que mergulha no imaginário místico e oculto de Macau, realizado em parceria com Ruka Borges e financiado pelo Macau View Power, programa de apoio que abrange documentários, ficção e animação, e que veio substituir o Macau DocuPower.

Faria reconhece os méritos do Macau Indies – “deu-me a oportunidade de dar a conhecer o meu trabalho na área do cinema a diferentes comunidades em Macau, ajudou-me a conhecer mais pessoas da área e até a trabalhar com elas” – mas aponta limitações. “O Macau Indies, com sete anos de vida, precisa ter mais projecção regional e internacional. Embora tenha acordos com o Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, ainda é um festival muito local.”

Carolina Rodrigues, a outra realizadora de “Time Travel”, partilha da mesma opinião. “O Macau Indies não me parece ter grande projecção fora de Macau. O Indies é importante para mostrar os filmes ao público de Macau, porque não existem muitas outras formas de o fazer. E para estimular os jovens, para os incentivar a fazer mais cinema.” Agora a viver em Pequim, Carolina Rodrigues lembra que o mais importante foi conseguir partilhar com a audiência a vida dos pescadores no território, realidade “tão distante dos turistas”.

Para o percurso cinematográfico desta portuguesa foi “determinante” a oportunidade dada pelo Macau DocuPower” para fazer “Time Travel”. “Foi o empurrão de que estávamos a precisar. Isso permitiu-nos arriscar, errar, acertar, aprender e acabar com um filme de que nos sentimos orgulhosos.”

Exposição máxima

Orgulho é coisa que não deve faltar a Tracy Choi e à restante equipa de “I’m Here”, que no ano passado venceu o Macau Indies. O documentário é nada menos que a história pessoal da realizadora e da sua namorada, uma história que espelha o amor no feminino, a homossexualidade e o modo como é encarada em Macau.

Este ano, Tracy Choi está de volta e estreia-se na ficção, também financiada pelo CCM. “Um Amigo Meu” é uma história sobre bullying numa escola de Macau e sobre o impasse moral de uma criança que vê outra ser constantemente agredida pelos colegas. “Acho excelente que o CCM esteja também a apoiar a ficção e a animação. Isso dá mais possibilidades aos jovens realizadores locais”, avalia Tracy.

Quando olha para trás e para o prémio que recebeu no ano passado, a cineasta refere que “o Macau Indies é um bom lugar para começar. Depois, o trabalho deve ser mostrado noutros festivais”.

Qualidade paga-se

Este ano, o Macau Indies mostra as primeiras curtas de ficção financiadas pelo CCM. E se, avalia Tracy Choi, o montante atribuído para a produção de documentários chega, para a ficção “não é suficiente para pagar à equipa”.

Para cada curta-metragem de ficção, o CCM disponibiliza no máximo 120 mil patacas (categoria Avançada), 80 mil patacas (Livre) e 10 mil patacas (Iniciados), e para o documentário os montantes são de 90 mil, 60 mil e 10 mil patacas, respectivamente.

Carolina Rodrigues admite que “o financiamento dado foi baixo”. “Com mais dinheiro teríamos feito mais e melhor, como é óbvio, mas acredito que as ideias são sempre o mais importante. Portanto, desde que o orçamento permita uma câmara de vídeo é possível fazer um bom trabalho.”

António Caetano Faria nota que “é possível fazer se um trabalho de qualidade com pouco dinheiro”. “Embora reconheça que, quando queres estar a um bom nível, precisas de uma equipa que tenha um nível bom e isso custa dinheiro, aumenta a qualidade em aspectos técnicos. Claro que se Macau quer evoluir nesse sentido, e o Macau View Power também, mais dinheiro pode ajudar a colocar os filmes num outro patamar.”

Com os filmes noutro patamar, será também possível ao Festival Internacional de Cinema e Vídeo aspirar a outros voos, defende Faria. “Para o festival ter mais projecção deveria aumentar o número de competições. Além de abrirem uma competição para os filmes produzidos por pessoas de Macau, deveriam ter uma competição internacional. Teríamos duas competições, uma de nível internacional em que qualquer filme correspondente a determinado género poderia ter oportunidade de vir a Macau, e outra de produções locais.” Actualmente, o  festival “é apenas uma mostra de alguns filmes estrangeiros que passaram pelo festival de Hong Kong”, prossegue o realizador. “Se o festival de cinema de Macau crescer, todos os profissionais da área crescerão, pois o cinema é um trabalho de equipa.”

O dinheiro não foi problema para os filmes de Cecilia Ho. Ou pelo menos não directamente. “Na minha experiência o dinheiro foi mais que suficiente, o difícil foi o tempo. Tenho um trabalho a tempo inteiro e a minha tese de doutoramento, e fazer um documentário é uma tarefa que te consome, também emocionalmente. Cumprir os constrangimentos de tempo impostos pelo CCM ao longo de um ano foi o maior obstáculo que a minha equipa enfrentou no Macau Indies.”

A abertura do apoio a projectos de ficção e animação não convence totalmente Cecilia Ho. “Tudo tem duas facetas. É bom que mais jovens realizadores inexperientes tenham a oportunidade de receber financiamento para projectos de ficção ou animação. No entanto, a minha preferência é ver e fazer documentário.” Para a socióloga, “fazer documentários e projectá-los com discussões no final de cada sessão é um formato crucial para fazer a sociedade avançar. A sociedade precisa desse ‘poder do vídeo’ como suplemento aos media. Os realizadores precisam de apoio financeiro e de oportunidades para mostrar os seus filmes.”

Constrangimentos à parte, muitos destes nomes serão provavelmente repetentes em edições futuras do Macau Indies. Tracy Choi, que ainda estuda em Hong Kong, está a finalizar um projecto vídeo relacionado com a sua carreira académica. Carolina Rodrigues revela que “talvez na próxima edição tenha algo para mostrar em Macau”. E António Caetano Faria, esse, despede-se com uma tirada poética: “O cinema é o olhar que conta o que vê e eu tenho algo mais para dizer.”

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