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Epidemias culturais e outras neuroses

PARAGRAFO 123-1Dez anos depois do surto de pneumonia atípica, Hong Kong tem cada vez mais medo da China Continental. A rejeição e as representações negativas que surgiram em 2003 – que muitos consideram ter sido o verdadeiro ano da transferência – misturaram o temor da epidemia com o temor da invasão cultural. Quase três dezenas de artistas foram convidados a reflectir sobre o tema, pelo espaço cultural Para Site, entre eles Ai Weiwei.

Inês Santinhos Gonçalves

Sugam recursos, são pouco limpos e trazem doenças. Os medos de Hong Kong em relação aos chineses do Continente, e a consequente retórica depreciativa que daí brotou, nasceram em 2003, com o surto de pneumonia atípica que se abateu sobre o território. É esta a tese da exposição “A Journal of the Plague Year. Fear, ghosts, rebels. SARS, Leslie and the Hong Kong story”, promovida pelo espaço cultural Para Site. A mostra junta trabalhos de artistas de Hong Kong, mas não só. Ai Weiwei, o mais famoso dissidente chinês, apresenta um gigante mapa da China formado por latas de leite em pó – uma crítica ao Governo Central, mas também às autoridades da antiga colónia britânica.

A exposição está dividida em três espaços, na zona de Sheung Wan. Os três exploram o medo da diferença. O medo das epidemias, das doenças, surgiu no século XIX, com a propagação da peste na China, responsável por milhões de mortos na Europa em séculos anteriores. Foi em Hong Kong que a causa da epidemia foi encontrada, criando, a partir daí, um medo da Ásia. Nasceu, então, toda uma iconografia que associava os asiáticos, e em particular os chineses, às doenças e à falta de higiene – em termos físicos mas também morais. Dois séculos depois, os mesmos instrumentos foram utilizados pelos chineses de Hong Kong contra os chineses do Continente. Uma representação que migrou de um campo médico, físico, para o campo cultural e social.

“Queremos, através das obras dos artistas e de arquivos históricos, dar a perceber como as representações e linguagem do Ocidente [acerca da China] sobre as doenças médicas e culturais são as mesmas usadas em Hong Kong para com os seus vizinhos”, explica um dos comissários da exposição, Inti Guerrero.

Guerrero, juntamente com Cosmin Costinas, conseguiu juntar material recolhido nos arquivos do Museu Nacional e do Museu de Ciências Médicas, incluindo fotografias do século XIX, onde se podem ver os intensos trabalhos de limpeza da cidade, para combater a epidemia – o bairro onde fica a Para Site foi, aliás, o epicentro da doença em Hong Kong. Além dos trabalhos dos artistas e dos documentos de arquivo, a mostra conta também com antigos cartazes de filmes (onde os chineses são sempre os maus da fita), publicidades, bandas desenhadas e cartoons que espelham o medo da ‘ameaça chinesa’.

Um ano apocalíptico e existencialista

Antes de 2003, a imagem que Hong Kong tinha da China Continental era representada pelos grupos de turistas que vinham em excursões – simplórios mas inofensivos. “Antes de 2003, os vistos eram colectivos. Na mostra temos o testemunho de uma pessoa que vive cá há duas décadas e que lembra como as pessoas olhavam para os chineses do Continente com um certo sentido folclórico. Eram muito identificáveis, muitos vestiam roupas iguais porque vinham em grupo”, aponta Guerrero.

No entanto, depois do surto de pneumonia atípica, a economia do território sofreu um abalo significativo e com o número de visitantes em baixa, Hong Kong começou a emitir vistos individuais. A enchente de pessoas que gradualmente chegou à cidade – competindo com os locais pelo acesso a bens e serviços –, aliada ao facto de ter sido descoberto que o vírus da síndrome respiratória aguda severa foi trazido para o território por um médico do Continente, espoletou sentimentos de medo e repulsa que se estendem até aos dias de hoje.

“Podemos dizer que a transferência em termos culturais, ou a transferência real, não aconteceu em 1997, mas sim em 2003. Foi um ano bastante apocalíptico e existencialista. As neuroses que existem entre as pessoas de Hong Kong e os chineses do Continente vêm de uma relação estreita com o que aconteceu posteriormente à epidemia”, explica o comissário.

Foi neste ano “tão importante para entender as idiossincrasias contemporâneas em Hong Kong” que morreu o actor Leslie Cheung – acontecimento também representado na exposição da Para Site. Os contornos dramáticos da morte do ícone pop – que se atirou do Hotel Mandarim Oriental – vieram evidenciar o sentido de identidade dos residentes. Cheung foi o primeiro artista a distinguir-se dos restantes actores asiáticos, criando uma imagem que se fundiu com a própria identidade de Hong Kong.

“A presença do Leslie Cheung pode parecer forçada, mas quisemos fazer uma exposição que não fala só de um acontecimento mas explora e revisita um ano muito relevante. A morte de Leslie Cheung foi muito importante para o colectivo de Hong Kong”, lembra. “Nessa altura, toda a gente tinha medo das pessoas, do contacto. Quando Cheung morreu, o seu funeral foi o evento público que reuniu mais pessoas durante a pneumonia atípica. A sua morte teve um valor positivo, de um modo perverso. A morte deste ícone pop conseguiu juntar as pessoas num momento de fragmentação da sociedade”, salienta Guerrero.

Reconstrução cultural

Hoje, dez anos passados do surto de pneumonia atípica, as tensões só aumentaram. No ano passado, o tablóide Apple Daily publicou uma publicidade, paga por um grupo de residentes de Hong Kong, em que os chineses do Continente eram representados como gafanhotos – uma imagem pejorativa que pretende compará-los a uma praga. “Chegam em massa e invadem a cidade, comendo todos os recursos”, exemplifica Inti Guerrero.

Estas tensões “são muito complexas também porque as pessoas em questão não são ilegais e também não são visualmente identificáveis. Isso causa ainda mais ansiedade”. Com o aparecimento da nova estirpe da gripe das aves na China, o H7N9, podia esperar-se uma nova onda reactiva. Mas não. O comissário da exposição, colombiano de nacionalidade, diz que o discurso “nunca mudou” desde 2003. “A criação de um preconceito acerca destas doenças repete-se constantemente”, aponta.

Para Guerrero, a única possibilidade de inverter esta tensão crescente é mudar os imaginários colectivos de Hong Kong em relação à China, através da cultura. “Não só das artes, mas também do jornalismo. Foi no campo da linguagem, no dia-a-dia das pessoas, que se criaram essas representações estereotipadas em relação aos chineses. Elas não apareceram em documentos oficiais, mas no campo cultural, nos jornais, na televisão, na música. É por isso que é nesse mesmo campo que as podemos reconstruir”, sugere.

Este medo da contaminação numa cidade que se quer uma metrópole financeira, surge também como uma contradição. “Se Hong Kong não quiser ser culturalmente contaminada, nunca terá realmente uma política de liberdade”, afirma o comissário. E remata, esperançoso: “Tomara que Hong Kong seja sempre um lugar estranho e diverso. Tomara que o mundo nunca seja igual e que haja sempre diversidade”.

Som, imagem e movimento

“A Journal of the Plague Year” conta com a participação de quase 30 artistas, com trabalhos plásticos e audiovisuais. Além do trabalho de Ai Weiwei, de grande dimensão e localizado numa sala distinta do resto da exposição, aquele que causa o maior impacto visual é o de Adrian Wong: um rapaz de fato – lembrando um político ou um executivo – abraça e beija uma galinha. Um trabalho que abre portas a leituras que vão além da gripe das aves e pairam sobre a corrupção dos poderes políticos chineses.

Inti Guerrero salienta o vídeo de James T. Hong, onde se pode ver um grupo de formigas a devorar parte dos Estados Unidos. O artista sino-americano quis estabelecer uma relação entre o discurso de Hong Kong e o dos Estados Unidos, onde os emigrantes mexicanos são frequentemente representados como formigas. O comissário chama também a atenção para a produção áudio de Samson Young, que recolheu, nos últimos 30 anos, sons da fronteira entre Shenzhen e Hong Kong.

A brasileira Lygia Pape participa também na mostra, mas de uma maneira diferente: através de uma performance que já esteve nas ruas de Hong Kong, no passado dia 17, e volta amanhã. Com o nome “Divisor”, a performance consiste num grupo de pessoas, de diversas origens e idades, colocadas por entre um enorme lençol branco – este esta repleto de buracos, por onde a cabeça dos participantes emerge. Este grupo de pessoas tem, então, de se mover como um todo. “É uma proposta para se pensar sobre viver em comunidade no presente. Foi interessante fazer isto no coração da cidade, ver o tipo de público que participou – havia de tudo, estudantes, artistas, pessoas das classes mais ricas e ao mesmo tempo empregadas filipinas”, descreve Guerrero.

“A Journal of the Plague Year. Fear, ghosts, rebels. SARS, Leslie and the Hong Kong story” está patente até dia 26, em Sheung Wan.

 

Ai Weiwei: “As pessoas do Continente não correspondem aos padrões de Hong Kong”

A peça mais mediática desta exposição é, sem dúvida, a do artista e dissidente chinês Ai Weiwei. “Baby Formula” consiste num gigante mapa da China, representado por latas de leite em pó – as diferentes províncias são compostas por marcas diferentes. A Nestlé ilustra Macau e Hong Kong.

Este ano, a corrida ao leite em pó para bebés por pais da China Continental causou uma escassez do produto nas prateleiras de Macau e Hong Kong. Os dois territórios implementaram rapidamente planos de contingência para garantir o acesso dos locais ao leite. Em Hong Kong, este plano passou pela imposição de um limite de quantidade que os não-residentes podiam comprar.

Ai Weiwei considera esta atitude do Governo de Hong Kong “irónica”. “Não posso dizer se [o Governo de Hong Kong] esteve certo ou errado. Apenas posso dizer que é irónico, porque Hong Kong é um lugar com políticas muito diferentes da China Continental. Restringir a possibilidade de as pessoas comprarem leite em pó não me parece certo”, apontou ao PONTO FINAL.

O artista plástico lembra que o comportamento dos consumidores da China Continental é justificado pela crise do leite, em 2008, que afectou a saúde de cerca de 300 mil bebés – isto “de acordo com o [então] primeiro-ministro Wen Jiabao”, salienta. “É por isso que as pessoas sentem que têm de sair para comprar este alimento para os seus filhos”, frisa.

Questionado sobre o tema central da exposição – o medo e rejeição de Hong Kong em relação aos chineses do Continente – Ai começa por responder com uma gargalhada. “Pois é, não sei…” Depois de uma pausa, mais sério, comenta: “Acho que Hong Kong tanto beneficiou como foi prejudicado pelas estranhas relações que estabeleceu com a China. As pessoas do Continente, de certa forma, não correspondem aos padrões de exigência de Hong Kong”.

Inti Guerrero comenta o trabalho de Ai: “Não é só crítico do Estado chinês, que falhou em disponibilizar leite de boa qualidade para as suas crianças, mas também das políticas do Governo de Hong Kong, já que a restrição de compra parece estar assente num sentimento bastante xenófobo”.

Olhando para o mapa no chão, feito de latas, uma cor inesperada salta à vista: o dourado. “É muito interessante como um produto que é tão básico, leite para crianças, se transformou num objecto de desejo, com um valor enorme. Parece que quem faz o produto está a mudar a sua imagem, de modo a torná-lo mais valioso, num sentido simbólico”, comenta o comissário.

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