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“Gosto de cidades caóticas”

1E nesse aspecto Macau é o cenário perfeito para o artista plástico Pedro Besugo, que apresenta a partir de hoje a exposição “Invisible Gateway” na Galeria IaoHin. São 17 telas e uma peça escultórica que reflectem sobre as arquitecturas e os espaços que habitamos, mesmo os mais invisíveis.

Hélder Beja

O artista plástico Pedro Besugo vive em Macau há oito meses mas ainda tem dificuldade em orientar-se na cidade e em achar, por exemplo, o número 39 da Rua da Tercena, nas costas do Largo do Senado, casa da Galeria IaoHin, onde expõe a partir de hoje a série “Invisible Gateway”. A inauguração está marcada para as 18h.

Foram as características labirínticas e caóticas do território, em contraste com a nova cidade dos casinos que parece querer nascer por todos os lados mas especialmente no Cotai, que inspiraram o artista a criar a série de 17 telas e uma peça escultórica. “Acho Macau caótico, de várias formas. O centro é caótico, são milhares de pessoas a entrarem por dia e ao fim-de-semana não se consegue andar. Depois, mesmo a parte mais chinesa e autêntica também não deixa de ser caótica e desorganizada. Gosto de relacionar-me com esse caos, mesmo que não seja fácil”, começa o artista plástico formado na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa.

Besugo, que desde muito cedo começou a viajar de mochila às costas, contrapõe espaços urbanos como Macau, Lisboa ou Manila, onde o caos e as zonas modernas e organizas se relacionam, com cidades-postal como a capital francesa. “Gosto de cidades caóticas. Tudo o que sejam cidades demasiadamente perfeitinhas… Paris é uma das cidades mais bonitas da Europa e eu não gosto de Paris, não me sinto bem lá.”

Em Macau, onde nunca imaginou viver apesar de todas as viagens pela Ásia e de por cá ter passado pela primeira vez ainda nos anos 1990, Pedro Besugo dedica-se essencialmente ao trabalho enquanto designer, que o trouxe até cá, e à criação enquanto artista plástico. “Invisible Gateway” ocupou-lhe boa parte dos últimos meses. O resultado está para ver até 12 de Julho na Galeria IaoHin.

Trabalho camuflado

Os contactos para levantar a exposição agora pronta começaram em Novembro do ano passado. “Esta galeria, apesar de estar há pouco tempo neste espaço físico, já tem cinco anos de vivência [antes junto ao Mercado Vermelho], já tem ideia do que é a arte em Macau e do que quer fazer, além de que já trabalhou com artistas estrangeiros”, diz Pedro Besugo. A IaoHin mostra essencialmente artistas estrangeiros e tem como um dos objectivos participar em feiras de arte fora de Macau. “Viram o meu trabalho, gostaram e perguntaram-me se eventualmente eu poderia trabalhar sobre a cidade, visto estar aqui. Como sempre trabalhei um bocado sobre viagens, sobre destinos e como fundir imagens desses destinos, e como sou sempre influenciado pelos sítios por onde passo – essas tais imagens que vou vendo, fotografando, desenhando – disse que eventualmente o poderia fazer.”

A Besugo interessam-lhe a arquitectura, as estruturas e os espaços invisíveis. O autor conta que nos últimos anos tem trabalhado à volta de um conceito que “abarca sempre mudança dos tempos, geografia e cartografia”. “Desta vez uso mapas antigos, uns comprados aqui, outros que trouxe de Londres e de Lisboa; alguns em bom estado, outros nem por isso e recupero-os também através da pintura. Os mapas já tiveram uma vivência, fazem-me imaginar que alguém já os usou para viajar, ou que numa sala de aula serviram para ensinar geograficamente onde ficavam certos lugares”, explica. Aos mapas juntam-se as ideias e impressões de Pedro Besugo, representadas através de diferentes técnicas, herança que traz do seu passado enquanto escultor. “Em termos de ideia ou conceito, quando pensei nesta exposição comecei a andar à volta dos estaleiros de obras aqui de Macau e a fotografar. Uso a fotografia como base, muitas vezes. Outra coisa que faço nos últimos anos é misturar materiais. Trabalho com acrílico mas trabalho também, se possível, com materiais locais, para fazer uma fusão com o lugar onde estou.” Desta feita, o material escolhido foi o vinil. A base de todos os quadros acabou por ser um vinil impresso gigante, vermelho com letras brancas. “Gosto sempre de deixar à vista o material de base e não é a primeira vez que uso materiais com alguma vivência, tal como os mapas também.” Para o artista, o vermelho “identifica a China” e “salta à vista por toda a Ásia”. “Mesmo Macau se transforma do dia para a noite – é muito mais interessante, muito mais bonita à noite e o encarnado também salta à vista, nos neons, nos anúncios das lojas…”

O encarnado também salta à vista nas pinturas expostas na Galeria IaoHin, ainda que coberto por uma série de camadas que são o trabalho invisível do autor. “Escolhi este material e sabia que graficamente iria influenciar toda a série. Acho que quem olha para os meus quadros não percebe o trabalho que dão tecnicamente. É exaustivo. Comecei a trabalhar para esta exposição no atelier em Janeiro. Durante meses trabalho no chão e, para controlar as manchas e a tinta, não trabalho num quadro mas trabalho em série – enquanto um está  a secar, trabalho no outro, e trabalho sempre agachado.”

Esta é a fase a que Pedro Besugo chama de “base” e que considera mais abstracta, trabalhando por camadas. À mancha inicial do vinil impresso juntam-se tintas, transparências, colas, vernizes e todo o processo de preservação do papel dos mapas. “É um trabalho quase de restaurador dos mapas, para alguns deles, porque quero que estejam completamente recuperados e protegidos. Isto tem uma camada de invisibilidade de trabalho que não dá para perceber.”

Feito o trabalho “mais difícil”, chega a hora da leitura final, das estruturas e das paisagens urbanas. “Quem não desenha ou não pinta pode pensar que isto será o mais difícil, mas para mim é até o mais fácil, é trabalho de observação e de imaginar que linhas é que posso criar ali. Tenho nestes quadros exercícios de geometria que se viesse aqui um professor de geometria chumbava-me, mas não me interessa, o que me interessa é esta fusão. Em alguns quadros há mais que uma cidade representada”, acrescenta.

Fascínio pelo novo

A velocidade de construção e a constante mutação na paisagem não deixam de surpreender Pedro Besugo. “Em Macau, apesar de achar que não a conheço nada bem, aquilo que mais me desafia são as obras, a arquitectura. A parte mais turística e mais vendida de Macau é o centro, que acho interessante porque estamos na China e a herança dos portugueses na China é interessante nesse aspecto; mas por eu ser português para mim não traz nada de novo.” E é o novo o que mais atrai este homem que com obras espalhadas por colecções públicas e privadas em Portugal e no estrangeiro. O novo em Macau chama-se Taipa, Cotai. “Gosto de ir a essas zonas e de imaginar as estruturas, de imaginar o que é que dali vai sair. A velocidade de construção aqui é alucinante. Estou em Macau há oito meses e ao ir a essas ditas obras, e ver como as coisas de desenvolvem de um mês para o outro, notam-se diferenças enormes.”

É por isso que numa das telas é possível reconhecer traços da Taipa e até dos tapumes que cobrem o recinto onde se rebentam panchões durante o Ano Novo Chinês. “Esses tapumes para mim são objectos escultóricos, podiam perfeitamente ser instalações escultóricas. Fiz uma quantidade de fotografias e acabei por escolher uma. Claro que gosto de lugares autênticos, típicos, tenho estado a trabalhar num atelier junto ao Mercado Vermelho e aí sinto que estou em Macau. Mas a Taipa, que não é o meu lugar de eleição, em termos de estruturas interessa-me mais”, admite. Ao artista, diz-lhe mais em termos arquitectónicos “o que está a acontecer, imaginar que daqui por poucos anos Macau será muito diferente do que é agora”, e recorda um episódio ilustrativo: “Quando cheguei a Macau, quase todos os dias acordava com barulho de obras. Em Portugal as obras pararam. Acho isso fascinante, estar num sítio em que está a acontecer qualquer coisa, em que as coisas estão a mudar; estar numa cidade em que isso se sente no ar interessa-me”.

Há, no entanto, espaço para o mais antigo centro de Macau noutra das obras. Pedro Besugo explica que não quis desenhar marcas ou nomes de edifícios. “Não é isso que me interessa, interessam-me só as estruturas e as linhas”, repete. As linhas de Macau unem-se noutros quadros com as de Hong Kong e de outras cidades por onde tem passado, bem como com aquelas que brotam da sua imaginação e dos projectos de arquitectura que consulta na fase de pesquisa.

Poucas expectativas

Besugo confessa que “não tinha expectativas acerca de Macau enquanto artista plástico”. “Sempre pensei que pelo facto de estar perto de Hong Kong poderia apostar nesse sentido – criar uma série, ir mostrar portfolios, fazer novos contactos.” Os contactos até já estariam bem encaminhados, uma vez em 2010, integradas nas celebrações dos 150 anos do Tratado de Amizade Portugal-Japão, fez duas exposições em Quioto e Tóquio, onde conheceu galeristas da região vizinha. “Nunca vi Macau como uma cidade forte em termos de artes plásticas. Como é óbvio existe cultura e acho que cada vez haverá mais, mas não tinha qualquer expectativa e tenho vivido o dia-a-dia, que tem sido a trabalhar e trabalhar”, resume.

O dia-a-dia acabou por levá-lo à Rua da Tercena e à galeria onde a partir de hoje mostra “Invisible Gateway”. Sobre Macau, e enquanto por cá estiver, sabe pelo que quer continuar a debruçar-se: “Gosto de trabalhar sobre o que é efémero, porque há ruas onde em pouco tempo as coisas mudam. Aqui em Macau isso vê-se bastante e isso interessa-me, a ideia de uma cidade com enormes contrastes: a herança portuguesa, a cidade de jogo, a arquitectura dos casinos, dos hotéis.”

A hora de Pedro Besugo partir para outros destinos chegará mais cedo que tarde, até porque “a relação com as viagens e os espaços exteriores” não deixará de existir. “O que me motiva é um apelo enorme por um lugar que não conheço, olhar para uma rua ou um edifício e imaginar o que ali houve. É o mesmo a olhar para um prédio: todos têm histórias e famílias lá dentro.”

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