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“Trabalho para o mundo”

PARAGRAFO 124-1Chega a convite do IPOR, depois de visitar 22 países em mais de duas décadas de carreira. Pedro Tochas – o palhaço, malabarista, actor e comediante, que ficou conhecido nos palcos do stand-up comedy português – oferece dois espectáculos em Macau, para pequenos e graúdos. A loucura, garante, é o limite.

Pedro Galinha

A vida de Pedro Tochas continua a caber numa mochila, que viaja pelo mundo ao sabor dos espectáculos que assina. Vinte e dois países depois, a próxima paragem é Macau, a convite do Instituto Português do Oriente (IPOR).

O artista português vai apresentar “O Palhaço Escultor”, na Escola Oficial Zheng Guaniyng (hoje, às 16h) e no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (amanhã, às 11h). Tochas oferece ainda ao público local um espectáculo de “stand-up comedy”, na Casa Garden (amanhã, às 20h30), com entrada gratuita.

“Vai ser ultra-especial”, assegura, numa entrevista ao PARÁGRAFO, que revisitou a carreira do palhaço, malabarista, actor e comediante, conhecido em Portugal não só pelos espectáculos, mas também pela participação na campanha publicitária de uma marca de água com gás que já é um caso de estudo a nível mundial.

– Como está a ser preparado este regresso à Ásia?

Pedro Tochas – Estou muito entusiasmado e, desta vez, vai ser ultra-especial por dois motivos. Em primeiro lugar, vou poder fazer “O Palhaço Escultor”, que adoro, num espírito de união entre as culturas chinesa e portuguesa. É um espectáculo que toda a gente pode ver e que já foi apresentado em Singapura, onde resultou muito bem. Em segundo lugar, vou fazer “stand-up comedy”, que não costumo apresentar fora de Portugal. Não costumo trabalhar para as comunidades portuguesas no estrangeiro. Estou mais em festivais internacionais, virados para as populações locais. Em Macau, não sei muito bem o público que vou ter e, por isso, estou um pouco apreensivo.

– Mais de 20 anos depois de ter iniciado a carreira, continua a sentir-se assim?

P.T. – Sempre, até com “O Palhaço Escultor”, que já fiz centenas e centenas de vezes. O espectáculo foi criado há dez anos e continuo a apresentá-lo porque há muitos locais onde ainda não estive. Já pensei em criar novas coisas, mas depois dizem-me “nós queremos ver aquele”. Por exemplo, há um festival na Alemanha que está sempre a pedir-me para voltar de dois em dois anos com esse espectáculo. Como é físico, não cansa, ao contrário da comédia verbal. Fiquei muito contente com o convite do Instituto Português do Oriente e Macau vai ser uma oportunidade única.

– Sente-se mais confortável na pele de palhaço ou a fazer “stand-up comedy”?

P.T. – Vou ser muito sincero. Gosto de fazer espectáculos, estar com o público e transmitir as minhas histórias. Se fico muito tempo a fazer um género, sinto falta dos outros. O que gosto mais é de estar a fazer o palhaço e depois voltar ao “stand-up comedy”.

– Tem noção do número de países que já visitou em trabalho?

P.T. – Por acaso, no outro dia fiz umas contas. “O Palhaço Escultor” já foi apresentado em 22 países.

– Depois de Macau, a próxima viagem nestas paragens poderá passar pela China?

P.T. – Na China, gostam muito de palhaços. Já tinha tido um convite, mas não foi possível em termos de agenda. Pela experiência que tenho, é um povo que gosta muito de palhaços e da comédia física. É um mercado enorme e caso estivesse aí nunca precisaria de mudar mais de espectáculo na minha vida.

– Toda as viagens que faz em trabalho compensam?

P.T. – Quando fazes festivais e certos intercâmbios, não é bem um cachet que é pago. Pagam-te mais as despesas e essas coisas todas. “O Palhaço Escultor” é um espectáculo que criei para poder andar pelo mundo. Como sou português, o dinheiro não abunda. Ou seja, se consegues andar pelo mundo e pagam-te as viagens todas, isso é espectacular. Outra vantagem: a partir do momento em que fazes espectáculos numa terra qualquer, deixas de ser turista porque a maneira como te tratam é diferente. Adoro viajar como artista.

– Edimburgo continua a ser um sítio especial?

P.T. – É o maior festival do mundo (Edinburgh Festival Fringe) e estou muito contente por participar há dez anos. Depois de ter estado em Edimburgo, pensei para mim que poderia fazer isto em qualquer parte do mundo. Há países difíceis, mas que acabam por se revelarem interessantes. Por exemplo, no Dubai, as pessoas não são tão expansivas, mas no fim chegam ao pé de nós, agradecem e dizem que nunca viram nada assim.

– A sua bagagem deve andar sempre cheia de objectos estranhos. Já teve problemas em aeroportos?

P.T. – Costumo ter uma data de balões, por isso devem pensar que sou vendedor. Mas agora já há uns raio-x melhores, já não é preciso abrir as malas.

– Para manter uma carreira longa nesta área, é necessário manter um espírito de criança de si?

P.T. – No ano passado, cumpri 20 anos a fazer palhaçadas. Comecei com 19, agora estou com 41. O tempo passa… Mas acho que as pessoas têm de manter o espírito de deslumbre, que com a idade noto que desaparece. O mundo tem tanta coisa para conhecer e é essa ânsia de conhecimento que as crianças têm e que eu gosto de manter. Há uns tempos, encontrei amigos da universidade, que têm a minha idade. Parecem mais velhos, talvez por terem uma profissão que ocupa oito horas do dia e não dá muito prazer. Faço o que gosto, nunca fui atrás do dinheiro e talvez não sinto o peso da idade por isso. Ou, se calhar, também são os genes.

Por falar em genes, não vem de uma família com tradição na comédia.

P.T. – Não. Sou de uma família muito humilde. Até costumo dizer a piada “muito humildes, como se diz em Lisboa, pobres, como se diz na minha terra”. O meu pai trabalhava numa fábrica, a minha mãe é costureira. Fui a primeira pessoa da minha família a ir para a faculdade, mas desisti a meio para ser palhaço.

– Conta 13 matrículas na Universidade Coimbra e nunca terminou os três cursos que frequentou.

P.T. – Descobri que tinha descontos nas viagens de avião se fosse estudante. Naquela altura, não se pagavam propinas, então valia a pena.

– Enquanto estudante universitário, fez parte da famosa Orxestra Pitagórica.

P.T. – Sim. Essa experiência demostrou que, às vezes, conseguimos ir contra ideias pré-concebidas porque a ideia pré-concebida de alguém que é da Pitagórica é que tem de beber álcool. O facto de uma pessoa não beber e fazer parte de um grupo daqueles, com a loucura que tem, mostra que consegues ir contra algumas regras estabelecidas. Não bebo bebidas alcoólicas, não tomo drogas, mas estou sempre a curtir. A Pitagórica ajudou-me ainda a perceber imensas coisas de palco e foi o empurrãozinho que precisei para fazer espectáculos.

– Foi difícil estabelecer-se como artista?

P.T. – Nos primeiros dois anos, fazia uns espectáculos de malabarismos e, às vezes, davam-me um dinheirinho. Depois, já vivia do que ganhava, o que me espantava. Chegava mesmo a pensar que podia fazer aquelas coisas de graça porque era tão divertido. Sempre fui freelancer, nunca tive grandes vícios e os meus pais também me ensinaram a fazer uma gestão cuidada do dinheiro.

– A crise financeira tem afectado o seu trabalho?

P.T. – Já estou um pouco estabelecido. Estes momentos de crise são mais complicados para quem está a começar porque as pessoas vão ver espectáculos de pessoas que conhecem. Neste momento, estou confortável, o que vou ganhando dá para viver. Em Portugal, também não convém ganhar muito porque depois há muitos impostos.

– A participação nos anúncios publicitários de uma marca de água com gás ajudou a consolidar a sua carreira?

P.T. – Deu uma certa exposição e abriu as portas para fazer o trabalho de orador motivacional. Os anúncios foram criados por mim e a campanha é um “case study comedy”. Vou a universidades falar sobre isso, já que conseguiu mudar a percepção de um povo em relação a um produto. A água com gás era só para quem estava mal disposta e precisava de arrotar. Mas a partir daí o mercado mudou. Parecendo que não, já foi há dez anos.

– As palestras são o lado menos conhecido do Pedro Tochas?

P.T. – A minha carreira divide-se em três áreas: espectáculos internacionais, espectáculos para empresas e “stand-up comedy”. A área que paga as contas, praticamente, é a dos espectáculos para empresas. O palhaço e as presenças internacionais pagam-me as férias. Cada palestra que faço é customizada de empresa para empresa. Falo da resolução de problemas, de combater ideias pré-concebidas e da necessidade de as pessoas não se levarem a sério em demasia. Tento extrapolar as minhas experiências para um contexto empresarial e para uma maneira de ver o mundo de maneira diferente. Ser sisudo não é sinal de competência, é sinal de ser sisudo. Parece óbvio, mas não é para muita gente.

– Como olha para o contexto social de Portugal?

P.T. – Há problemas sociais graves. Pela primeira vez, vamos ter uma geração que vai ficar pior do que a dos pais. Apesar de terem mais formação, vão ter piores ordenados e menos oportunidades. Vai ser complicado ultrapassar isto.

– Já pensou abandonar o país?

P.T. – Tenho de estar onde o público está. Desde que me lembro, trabalho para o mundo e trabalho onde houver oportunidades. A minha base é Portugal, onde vivo, mas vou para onde for necessário.

– Com tanta comédia à sua volta, há lugar para tristezas?

P.T. – Qualquer pessoa fica triste. O meu avô morreu uma semana antes de uma temporada que fiz e esgotou no Casino Lisboa. Aquilo bateu-me e, cada vez que tinha um espectáculo, tinha de bloquear porque as pessoas não pagaram para ver-me chorar.

Perfil

Pedro Santos ou Pedro Tochas? “Só costumam ligar-me a perguntar pelo Pedro Santos quando são campanhas de marketing”, brinca.

Tochas é, na verdade, Pedro Nuno Simões Lopes dos Santos, nascido a 27 de Março de 1972, em Avelar, no distrito de Coimbra. Filho de uma costureira e de um empregado fabril, o artista começou por fazer “uns malabarismos” e só depois encarou a comédia como um assunto sério.

As ruas foram sempre um palco e O Teatrão descobriu-o, em 1995, para fazer parte das primeiras produções. Depois, a aventura prosseguiu nos Estados Unidos, onde estudou malabarismo e comédia física no Celebration Barn Theater.

O próximo passo passou por Inglaterra, um ano mais tarde, na Circomedia (Academy of Circus Arts and Physical Theatre), em Bristol. A experiência correu tão bem que Pedro Tochas foi convidado a voltar para fazer uma especialização.

Uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian custeou a estadia do artista, que regressou a Portugal, outra vez, para as imensas ruas que retalham o país. Mas o estrangeiro também começou a fazer parte da agenda, com vários espectáculos a solo no campo do teatro físico.

O “stand-up comedy” iria aparecer depois, assim com as aparições nos canais de televisão. E, em 2003, realizou a mediática campanha de uma marca de águas com gás, que ainda hoje continua a ser relembrada como um caso de sucesso.

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