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“Os jovens fazem da música um desafio de futebol”

PARAGRAFO 125-1Sequeira Costa regressa a Macau para um recital no Centro Cultural, a 15 de Junho. O pianista fala da relação com Macau, que começou nos anos 1950, e de uma carreira que já conta 70 anos. Vê uma crise de valores entre a nova geração de músicos portugueses.

Hélder Beja

O pianista Sequeira Costa tem 83 anos, largas centenas de concertos e master classs dadas, uma longa discografia e, também, uma enorme vontade continuar a trabalhar. De regresso a Macau para um recital de piano marcado para 15 de Junho (Centro Cultural, 20h), o músico faz um repasso da carreira que o tornou num dos nomes mais reconhecidos do piano. O repertório desta nova visita ao território, os compositores que mais o inspiram, as novas gerações de intérpretes e o que ainda deseja fazer profissionalmente são outros dos temas abordados por um homem que acredita que o trabalho é tão ou mais importante que o talento.

– Deu o seu primeiro recital em Macau nos anos 1950. Que recordações tem desse momento e da cidade que conheceu à época?

Sequeira Costa – Toquei no Teatro Dom Pedro V, duas vezes. Fui convidado pela D. Elisa Sousa Pedroso, que era a presidente do Círculo de Cultura Musical em Portugal, e a pessoa que a representava em Macau era o Dr. Pedro Lobo, que me recebeu muitíssimo bem à chegada a Macau. Tenho recordações muito gratas dessa época. A cidade lembrou-me muito a metrópole, porque todas as casas estavam mais ou menos situadas na orla de Macau e lembravam-me aqueles palacetes do antigamente, tinham uma construção muito agradável. Naquela altura fazia-se muita música em casa, as pessoas conviviam muito e faziam concertos em casas particulares. Tive ocasião de conhecer muita gente e era um encanto, não só pelo facto de tocar em pianos diferentes mas por conhecer pessoas que tocavam violino, violoncelo e outros instrumentos. Faziam aquilo que se chamava música de câmara. Era muito interessante, havia um ambiente artístico muito elevado. Nessa altura o Dr. Pedro Lobo tinha uma orquestra particular, que actuava geralmente durante o seu almoço, em que ele tinha geralmente umas 10 a 15 pessoas para almoçar. Muitos desses músicos eram filipinos, alguns americanos e alguns de outros países asiáticos. Era um ambiente completamente eufórico e muito artístico.

– Já referiu Pedro José Lobo, de quem era amigo. Fale-nos um pouco desse homem que era também um dinamizador da cena cultural em Macau.

S.C. – Pedro Lobo era um entusiasta da chamada música clássica. Era uma pessoa que gostava muito de ajudar os jovens músicos, não só os da sua orquestra como aqueles que foram de Portugal a Macau, como o violinista Silva Pereira e o Sérgio Varela Cid, que era meu colega, e outros músicos que mais tarde foram aí. Era uma pessoa que vivia pela música e da música, e ajudava muito as pessoas que tinham interesse pela construção de uma carreira, dando-lhes bolsas de estudo e ajudando-os com dinheiro.

 – Regressa depois nos anos 1980, com a Orquestra Gulbenkian, para tocar em Macau e Hong Kong. Com uma distância de quase três décadas entre estas visitas, sentiu também as mudanças na Macau que encontrou?

S.C. – Dessa vez voltei como solista de orquestra. Senti uma diferença enorme em relação a 1953. A primeira coisa que vi quando cheguei a Macau foi um cartaz monstruoso em que se lia ‘Drink Coca Cola’. Era mais uma cópia daquilo que vi em tantos outros países. Havia milhares de bicicletas, muito mais automóveis, a cidade já estava muito mais evoluída nesse sentido, mais barulhenta. O interesse pela música subsistia, sobretudo porque havia a curiosidade de ouvir o reportório clássico que a Orquestra Gulbenkian e eu trouxemos. Foi muito interessante nesse aspecto. Mesmo assim, pessoalmente eu preferia a Macau de 1953.

 – Nesta ocasião actua em Hong Kong. Como foi essa experiência na cidade vizinha?

S.C. – Foi óptima, sobretudo porque Hong Kong tinha muito mais assiduidade no que diz respeito a concertos, com intérpretes e agrupamentos vindos da Europa e de nome internacional. Gostei imenso de lá tocar, porque as salas de concertos eram já muito bem construídas, acusticamente falando. Mas mais tarde, em 1990, foi a vez de me apresentar com a Orquestra Sinfónica de Xangai e a Orquestra  Filarmónica de Hong Kong.

– É verdade. E que tal essa experiência de tocar ao lado de intérpretes asiáticos?

S.C. – Fiz a integral dos cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven, toquei não só em Macau como em Hong Kong e fui entusiasticamente recebido. Adorei ter tocado com os músicos chineses da orquestra de Xangai. Eles obedeciam inteiramente ao critério artístico do maestro e não falavam durante o ensaio, só ouviam os ensinamentos do maestro e as minhas interpretações – acatavam tudo com muito respeito, era extraordinário. O mesmo não sucedia com a Orquestra Filarmónica de Hong Kong, em que os músicos eram arrogantes, com a mania de que sabiam tudo. Resultado? Houve muito mais coesão e unidade artística com a orquestra de Xangai, foi óptimo tocar com eles. Foi difícil lidar com os músicos de Hong Kong, porque já vinham impregnados com aquela filosofia de não terem ensaios suficientes. Vivi uma época em que, como solista, tinha-se pelo menos sete a oito ensaios. Tive a sorte de ter tido grandes maestros que me ouviam com todo o respeito e podíamos ensaiar o tempo que queríamos. Muito mais tarde, as orquestras ocidentais só davam quando muito um ensaio de meia hora. Lembro-me de ir tocar ao Barbican Hall, em Londres, com a Royal Philharmonic Orchestra, e quando cheguei para o ensaio o encarregado da orquestra disse-me ‘o senhor só tem 20 minutos para o ensaio’. ‘Vinte minutos? Mas a obra que eu vou tocar tem 35 minutos. Como é que vou ensaiar?’. ‘Arranje-se como quiser, mas é assim, não temos mais tempo para isso.’, respondeu-me. Tive de dizer-lhes que ou faziam exactamente como eu queria ou então não havia concerto, mas foi difícil lidar com aquela gente. Tem sido assim a maneira de estar na maior parte das orquestras, é muito difícil. Noutra ocasião, quando gravei um concerto com a orquestra  Gulbenkian, eles tinham três horas de execução comigo. Começaram o ensaio muito mais tarde e, cinco minutos antes de terminar, vários músicos levantaram-se e disseram ‘está na hora’. Exactamente assim, enquanto os microfones estavam ainda a gravar. É por isso que adoro tocar a solo.

– E é a solo que vai regressar a Macau. Mas antes de irmos a esta nova visita, diga-nos se de todas estas passagens por cá há alguma que guarde com especial carinho?

S.C. – Posso dizer que é sobretudo o facto de ter tocado para o festival de Macau, nos anos 1990. Tive um especial carinho pelo ambiente que se criou, porque havia muito interesse da parte das entidades. Trataram-me o melhor possível e foi muito agradável. Gostei imenso de estar com os músicos todos, também porque estava já a prever que, devido à evolução técnica no mundo inteiro, o conceito de interpretação e de beleza da música, o encanto da música, estivesse a degenerar. Estava tudo a ser tocado de uma maneira muito rápida, quem tocava mais depressa e mais barulhento era quem ganhava a corrida. Estou com 70 anos de carreira e é muito triste constatar isto.

 – Vamos então ao presente. Volta agora, para um recital intitulado “O Regresso do Mestre”. Como explica esta relação com Macau e o público que aqui vive?

S.C. – Não fui eu que intitulei o recital (risos). Quanto à relação, tive muitas pessoas em casa de quem tocava em Macau e tive vários alunos chineses que trabalharam comigo, não só em Macau como em Hong Kong, no Japão e na Europa, muitos alunos que me conheciam através das master classes que eu fazia pelo mundo fora. Houve uma ligação muito firme e saudável. Tenho um aluno que está em Macau e estudou comigo muitos anos, que é professor no Conservatório de Macau; e outro em Hong Kong, que é o director da escola de música da Academy for Performing Arts, escola onde desta vez farei uma master class, entre 17 e 22 de Junho.

– Em relação ao concerto de dia 15, em Macau, o que tem preparado?

S.C. – Tenho preparado um repertório muito interessante. Vou tocar duas sonatas de Beethoven. Aliás, fiz a integral das 32 sonatas de Beethoven e gravei-as todas. Começo o recital com uma suite francesa de Bach e depois das sonatas vou tocar duas peças de Vianna da Motta, que foi meu mestre. Também vou tocar uma peça chinesa, curta, da autoria do padre Áureo de Castro, que viveu e foi professor em Macau e de quem fui muito amigo. Para a segunda parte, termino com a célebre sonata número 3 de Chopin.

– Entre estes nomes, é possível para si eleger o autor que mais lhe agrada ou que sempre impressionou mais que todos os outros?

S.C. – Diria que Chopin é o compositor que, não direi agrada mas… é aquele com quem tenho uma maior ligação. Chopin escreveu essencialmente para o piano.

– A sua longa carreira deu-lhe um lugar ímpar na música e no piano, que vai muito além de Portugal. Depois de tantos recitais e discos, ainda há alguma coisa que deseje muito concretizar em termos profissionais?

S.C. – Continuarei, se me pedirem, a gravar mais repertórios. Tenho uma discografia extensa e felizmente que ultimamente a editora Naxos está muito entusiasmada em fazer uma propaganda mundial acerca das 32 sonatas de Beethoven, como também de outras obras que já gravei. Gostaria de continuar a fazer mais algum repertório inédito, mas o meu interesse, sobretudo, é continuar os concursos Vianna da Motta, que criei em 1957. Fiz 18 concursos internacionais. Houve um período áureo desses concursos, havia um entusiasmo absolutamente louco. O que me confrange bastante é chegar agora ao ponto de ver que não há pianistas portugueses que se sintam com coragem de enfrentar o público, a crítica mundial e os membros de júris internacionais, porque não se apresentam sequer em concursos. É muito triste, porque a única pessoa que se apresentou como devia de ser foi sem dúvida alguma o meu aluno, que estudou comigo 16 ou 17 anos seguidos, desde os cinco anos de idade: o Artur Pizarro, um grande pianista, que toca por toda a parte e que representa Portugal com o devido relevo. Fora ele, há vários elementos portugueses mas não têm aquele impacto internacional desejável. Além de querer dar mais alguns concertos, gostaria de fazer notar aos jovens músicos portugueses que não é com meia hora ou uma hora de vez em quando que se chega a qualquer coisa. Tanto eu como o Pizarro estudávamos sete e oito horas de piano por dia. Agora, os jovens quando tocam meia hora já estão cansados. Os pianistas russos, alemães, italianos, levam muito mais a sério a questão da música chamada clássica e trazem um prestígio inigualável para o país que representam. Dou-lhe um exemplo: quando ganhei o prémio em Paris [Grand Prix de Paris no Concurso Internacional Marguerite Long, em 1951] a sala estava completamente esgotada. O Presidente de França, que na altura era Vincent Auriol, veio ao palco cumprimentar os premiados. Olhei para a frisa reservada para o embaixador de Portugal e estava vazia, ele não apareceu. Havia talvez algum cocktail ou outra coisa sem interesse. É deste ambiente que falo, agravado agora pelo facto da questão económica.

– Esta crise generalizada está a ter impacto na música e na relação que as pessoas têm com a música?

S.C. – A situação está muito má, muito difícil. Sem esse assunto resolvido para o povo português, não há possibilidade de uma pessoa poder usufruir de um futuro mais belo. Em relação aos jovens músicos, o que é sobretudo importante é que saibam que não é de qualquer maneira que se chega a ser um grande artista – e isso faz muita falta. Não é só o futebol, com os melhores a irem para equipas estrangeiras. Tudo isto para mim é muito triste e acho que os responsáveis governamentais têm muita culpa. Acima de tudo, a glória de um povo é que fica, o resto não interessa. A vida humana é muito curta e perde-se imenso tempo com extravagancias inúteis.

– Quando não está a tocar, costuma ouvir música?

S.C. – Quando oiço música, oiço sobretudo gravações ao vivo de grandes pianistas que tive o privilégio de conhecer pessoalmente nos anos 1950, como Alfred Cortot, Vladimit Horowitz, Walter Giezeking e também os dois mais famosos do século XX, grandes amigos meus: o italiano Arturo Benedetti Michelangeli e Sviatoslav Richter, um pianista russo excepcional. Era uma maravilha ouvi-los e agora, quando tenho vagar, oiço essas gravações com muita saudade, aprendo imenso com a beleza dessas interpretações. Confesso que não posso ouvir muito as músicas actuais, porque a preocupação dos jovens pianistas é tocar o mais rapidamente e o mais barulhento possível. Nãos sabem tocar pianíssimo, com suavidade. Também se pode tocar fortíssimo, com muita energia, mas não é preciso tocar tudo com muito energia, atabalhoadamente, a correr, o mais depressa possível. Isto não cabe na cabeça de ninguém, é de uma falta de cultura… A maior parte dos jovens nem sequer leu um livro, nem sequer foi a um museu, interessar-se por quadros, ler autores literários, para criar um ambiente artístico relevante que só iria dar um incremento à sua interpretação enquanto músicos. Os jovens esquecem-se disso e fazem da música, que é uma dádiva, um desafio de futebol ou de hóquei.

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