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“Os melhores portugueses são os que estão fora de Portugal”

PARAGRAFO 126-1O romancista e ensaísta Miguel Real decidiu escrever sobre Macau. “Fim”, viagem pelo derradeiro episódio da ideia de império português, será editado em Outubro pela Dom Quixote. É a história de um homem que vem para Macau a fugir de um país. Ontem como hoje.

Hélder Beja

O romance histórico e o ensaio, mais ou menos literário, têm ocupado os dias do autor e professor de Filosofia Miguel Real. A vinda a Macau, há dois anos, serviu para levantar um edifício literário com quase 300 páginas. “Fim”, romance que atravessa o século XX e a História do território, será publicado em Portugal, pela Dom Quixote, depois do verão. O autor de “A Nova Teoria do Mal” é um crítico feroz das elites portuguesas, que considera ignorantes e medíocres. Em Macau encontrou pessoas felizes.

– Por que decidiu escrever sobre Macau?

Miguel Real – Porque estive aí há dois anos, na Páscoa, a apresentar uma peça de teatro. Fiz um conjunto de palestras na Livraria Portuguesa e interessei-me imenso pela História de Macau, pelas pessoas, pela felicidade que aí encontrei. Eu vinha de um país deprimido e em Macau as pessoas apresentavam um grande optimismo e uma grande dose de felicidade. Resolvi perguntar-me ‘que sítio é este’, longíssimo de Portugal mas ainda com alguma expressão da cultura portuguesa – e onde os portugueses ainda estão felizes hoje. Foi essa a grande pergunta.

– Esse tempo que passou cá foi essencial para escrever “Fim”?

M.R. – Foi. Primeiro, comprei um conjunto de livros absolutamente essenciais. Depois, consultei a biblioteca do Centro Científico e Cultural de Macau e depois tive de ir fazendo perguntas a várias pessoas de Macau. Ia mandando textos, eles iam vendo. Estive aí apenas 15 dias, depois tudo foi à base de livros.

– Esse processo de leitura e de pesquisa é sempre importante para si, em qualquer livro?

M.R. – Todos os meus romances têm seis meses de escrita, habitualmente são escritos no sítio a que se referem – por exemplo, um terço do meu livro sobre a Índia [“O Feitiço da Índia”] foi escrito lá; todos os livros que tenho sobre o Brasil foram escritos no Brasil, sempre em contacto com bibliotecas. Habitualmente faço seis meses de leituras e um ano e meio de escrita. Foi como neste livro, talvez um bocadinho menos. Mas esse tempo é absolutamente necessário.

– Porquê este interesse pela época específica em que situa o romance, que retrata e que casa a Macau desses anos 1940 e em diante com o Estado Novo e as guerras em pano de fundo?

M.R. – Tenho escrito sempre romances históricos, principalmente passados nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. O ambiente que vivi em Macau foi tão efusivo que quis reflectir esse fim do império. O romance chama-se “Fim” e será o fim do império, em Macau, 1999. Faz parte de um percurso que começou com “Memórias de Branca Dias”, o meu primeiro romance situado na primeira metade do século XVI e sobre a primeira mulher portuguesa a chegar a Olinda, fugida de Portugal. Isso – a fuga – vai ser uma constante ao longo de todos os romances. É um ciclo que começa aí e acaba em 1999. Os meus romances atravessaram as épocas e as partes principais do império. Agora já parti para outra, já estou noutro tipo de romance. Este livro acaba um ciclo, para mim, o ciclo do império.

– Apesar de ser um romance mais próximo da nossa época do que normalmente são os seus, não é um romance sobre a Macau contemporânea. Nunca pensou em escrever sobre essa Macau?

M.R. – O problema é que só estive aí 15 dias. Era mais fácil estudar Macau nas décadas de 40, 50, até à Revolução Cultural, do que propriamente reflectir a Macau de hoje, porque eu não estava lá e precisava de estar, para viver os casinos, falar com as pessoas, ver as ruas. Então fui para a década de 40, que é quando chega um português fugido de Portugal. Essa é a constante, porque os portugueses só conseguem ser felizes se fugirem deste ambiente absolutamente deprimente e pessimista, com uma elite muito medíocre, que infelizmente hoje a elite europeia também não ajuda. Então, ele foge de Lisboa, vai para Macau, encontra Macau relativamente ocupada pelos japoneses, não como Hong Kong, apaixona-se por uma menina mas os preconceitos que leva de Portugal não lhe permitem que tenha um casamento com essa menina e vai acabar por casar com uma senhora portuguesa de quem não gosta muito mas, enfim, é um casamento de conveniência. Depois, quando se dá o 1, 2, 3 têm medo da China e regressam. Falha-lhes um pouco a vida aqui. Vão para Campo de Ourique, um bairro relativamente popular de Lisboa, compram um prédio no Barreiro para viverem de rendimentos, e fazem o que o português normal fazia quando voltava do império. Quando morre Maria Augusta, que é a mulher, ele regressa a Macau para então sim casar com a mulher que amava. Ele vai morrer antes dela e as memórias dele ficam à guarda dela, que as envia para uma editora e as publica.

– Essa imagem que dava à pouco, de um português em fuga, é muito actual para si?

M.R. – Totalmente. Os portugueses estão todos em fuga. Nos lugares que frequento, qualquer pai diz a um filho ‘se puderes ir para o estrangeiro, vai’. Os empregos em Portugal não só são escandalosamente mal remunerados, como não oferecem perspectivas de futuro. Não se pode pensar ‘vou começar a trabalhar hoje, daqui a três anos caso-me, daqui a quatro anos compro um carro’ – não é possível. Isto tem acontecido continuamente ao longo da História de Portugal, agora de uma maneira aflitiva, e por isso é que somos sempre um país de emigração. Cada vez estou mais convencido de que os melhores portugueses são os que estão fora de Portugal. Fica cá uma elite oportunista, interesseira, que gosta de dar show off e é ignorante.

– Voltando à personagem central de “Fim”, julgo podermos revelar o seu nome: Fátimo. Porque é que decidiu nomeá-lo assim e fazer toda a ligação que faz com Fátima e a religião?

M.R. – Justamente porque ele nasce sobre o signo daquilo que é mais bloqueador no espírito português, que é o fanatismo religioso. Hoje está muito atenuado mas eu próprio tenho 60 anos e vivi toda a minha infância e adolescência no seio da Igreja, percebo que a religião é um dos grandes bloqueios mentais portugueses. Já o Eduardo Lourenço o diz, já o Antero de Quental o diz, e continua a ser. Em Maio deste ano estiveram em Fátima um milhão e meio de portugueses, ao longo de um mês inteiro, não foi uma noite só. Portanto, 15 por cento de Portugal foi lá e sobretudo eram mulheres. As mulheres de Portugal só encontram alguma consolação, não no trabalho do marido, não na realização dos filhos, mas sobretudo em Nossa Senhora. É um escape, também. Desde a segunda metade do século XVI que a religião tem sido um bloqueio e um escape. O Fátimo vai para Macau com esse sentido religioso do dever, que o bloqueia, e acaba por tornar-se um intelectual de liceu, muito balofo, e só no final da vida, quando regressa a Macau em 1980 e tal, é que ele de facto se consegue realizar, quando corta de certo modo com a religião católica e casa com a Siu Lin.

– Há várias referências a Camilo Pessanha ao longo do livro e, na história, acompanhamos também um professor de liceu, como Pessanha foi.

M.R. – O Pessanha fugiu de Portugal, por causa da elite portuguesa de então, por amores frustrados, e nunca se conseguiu integrar em Macau, por aquilo que li da vida dele. Estou a escrever uma peça de teatro só com duas personagens: o Camilo Pessanha e a mulher com quem ele vive. Tenho estudado ao longo dos últimos dois meses a vida dele. Ele tenta integrar-se no princípio, quando chega e está com Wenceslau de Morais, mas depois aquele espírito mesquinho e religioso que era levado de Portugal para Macau vai bloqueá-lo também. Ele vai vivendo como professor, como conservador do registo de propriedades, como advogado… precisa de vir a Portugal de dez em dez anos e depois, a partir de 1915, 1916 já não regressa sequer a Portugal. Vai entrar num processo de decadência que o vai conduzir ao ópio e o vai matar. Camilo Pessanha é o símbolo português que não consegue integrar-se para onde vai. Há uns que integram e outros que não conseguem, que ficam suspensos entre Portugal e o sítio para onde vão, suspensos no tempo, no espaço, e vão-se corroendo e matando. Fernando Pessoa foi um desses, ficou suspenso entre a África do Sul e Lisboa, e foi morrendo e bebendo bagaço e mais bagaço, como o Pessanha foi consumindo ópio e mais ópio.

– A dada altura, quase no final do livro, diz que Macau é a única personagem deste romance. É mesmo assim?

M.R. – Era o que eu queria. Não a personagem Fátimo, não este, não aquele, mas mostrar uma cidade em movimento no século XX, que vai conduzir um pequeno povoado costeiro, elitista, com uma separação intensa entre portugueses e chineses, com alguns intermediários que eram as pessoas da terra, os macaenses propriamente ditos, a uma libertação, a uma integração novamente na mãe pátria que é a China, sem dúvida, e que parece muito bem sucedida. Sem as guerras que houve em Angola, sem a miséria que houve e há na Guiné. É uma descolonização exemplar, não só da parte de Portugal mas sobretudo da parte da China, que não quis receber Macau logo em 1978. Quis esperar, quis fazer com lentidão e fez muito bem.

– Chama a Macau a cidade do fim, a última do império português. Qual é a relação que o Portugal de hoje tem com esta ideia de império?

M.R. – O império constituiu a identidade cultural de Portugal, não tivemos outra – o mar, os Descobrimentos. Se olharmos para a História, só nos identificamos na Europa porque fomos os primeiros a ir para o oceano. Se pensarmos na Galiza, não foi para o oceano, não fez império. Se não tivéssemos feito império teríamos sido ao longo dos séculos uma Galiza pobre, grande, miserável, sem descobrimentos científicos, sem uma gesta dos Lusíadas, sem o aparecimento de um Fernando Pessoa. Teríamos sido uma Galiza grande. Portanto, o império é o coração de Portugal, mas é passado, faz parte do passado. O nosso império agora só pode ser duplo: a Europa, onde estamos e devemos continuar; e a Lusofonia não militante, mas como capacidade de abertura para os novos países emergentes, como Angola, Moçambique, Brasil; e para as outrora grandes capitais do império, onde se incluem Macau, São Paulo, Maputo, Luanda, etc. A Lusofonia e a Europa são hoje o destino de Portugal. Por isso, a Macau que desenhei é o império do fim. Não há mais Macau português.

– O livro fecha com o momento da Transferência de Administração, em Dezembro de 1999. A sua personagem emociona-se e bendiz a actuação do governador, sem lhe dar nome. Mas o governador real, o general Rocha Viera, foi uma figura tudo menos consensual. Por que decidiu fazer a sua personagem louvá-lo?

M.R. – Não quis pôr o nome dele. O homem passa, a história fica. Polémico ou não, Macau fica. Ele desempenhou bem a função da transferência, pondo a bandeira portuguesa junto ao coração. Deu um ar lírico, deu um ar romântico, mas também deu um ar eficaz. Decidi não pôr o nome do Rocha Vieira porque ia entrar em polémicas. Li o livro dele e vi que havia conflictos com o Jorge Sampaio. Decidi que não iria entrar nisso. Então, o governador vai entregar o império, que era aquilo que tinha de fazer. Como ele pôs a bandeira no coração, tomei isso como símbolo de que Portugal ficará sempre no coração de Macau. Penso que terá sido isso que ele quis dizer quando pôs a bandeira junto ao coração.

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