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Morreu o Padrinho dos olhos tristes

James GandolfiniJames Gandolfini, o Soprano de “Os Sopranos”, tinha 51 anos. Morreu em Itália, vítima de ataque cardíaco. Deixa como legado uma das maiores personagens que a ficção televisiva alguma vez ofereceu.

Hélder Beja

O ecrã ficou negro e ninguém soube o que terá acontecido a Tony e à sua família, naquela cena de restaurante com que termina a série “Os Sopranos”, seis temporadas e 86 episódios depois. Agora, todos sabem o que aconteceu a James Gandolfini: morreu, aos 51 anos, aparentemente de ataque cardíaco, em Itália.

A vida de um dos rostos mais carismáticos da produção de televisão nos Estados Unidos da América chegou ao fim apenas seis anos depois de ter chegado ao fim a história do mafioso de Nova Jersey a que Gandolfini deu corpo. Os actores morrem, as personagens ficam. Tony Soprano – uma espécie de padrinho felliniano, com depressões, ataques de ansiedade e uma tendência natural para a violência e o palavrão – persistirá por muitos anos.

A carreira de Gandolfini colou-se à personagem Tony Soprano de um modo pouco habitual ao que normalmente acontece no pequeno ecrã, só comparável a casos como os de Michael Richards, o louco Kramer de “Seinfeld”; e de Michael C. Hall, que durante muitos anos foi David Fisher, o agente funerário gay de “Sete Palmos Terra”, para se converter depois em Dexter, assassino de assassinos ainda hoje no activo. Claro que Gandolfini, nascido em Westwood, New Jersey, também fez cinema, em algum bom cinema, mas foi e será sempre conhecido como Tony Soprano.

Representar com os olhos

“I’m like King Midas in reverse. Everything I touch turns to shit.” Tony Soprano foi prolífico em tiradas deste género, amanhadas pelo engenho do produtor e realizador David Chase, criador da série da HBO, e pelas palavras de argumentistas como Terence Winter, que recentemente assinou “Boardwalk Empire”; e Matthew Weiner, criador de “Mad Man” e de outra personagem que pode vir a resistir à erosão do tempo e da TV descartável: Don Draper.

O episódio piloto de “Os Sopranos” foi para o ar em Janeiro de 1999. Antes, durante o casting, Gandolfini duvidou muitas vezes de que pudesse ser escolhido. Afinal, a sua carreira não era um exemplo de consistência até aí e o que lhe sobrava em sangue latino faltava-lhe em charme.

Este filho de imigrantes italianos chegou à representação depois de estudar Comunicação, depois de conduzir camiões, de trabalhar em discotecas e de gerir um bar em Manhattan. Já tinha passado dos 25 anos e foi um amigo que o puxou para aulas de representação. Estreou-se no cinema em 1987 com “Shock! Shock! Shock!”, misto de comédia e terror; e em 1992 teve o primeiro papel sério em teatro, ao participar de “Um Eléctrico Chamado Desejo”, ao lado de Alec Baldwin e Jessica Lange. Seguiram-se alguns filmes que o foram especializando na arte de ser vilão mas nem sempre mau da fita, como “True Romance” (1993) e “The Juror” (1996).

Foi a série “Os Sopranos” que mudou a vida de James Gandolfini, mas também foi Gandolfini que fez da série – e, já agora, de uma parte da HBO – aquilo em que ela se transformou. “Sempre pensei que eles contrariam um tipo bonito. Não o George Clooney, mas um George Clooney italiano”, disse numa entrevista. A verdade é que David Chase viu nos olhos de Gandolofini tudo aquilo que procurava para Tony Soprano. “Grande parte da sua genialidade estava naqueles olhos tristes”, disse o realizador num comunicado libertado pela HBO depois da morte de Gandolfini, em Roma. Ele foi um dos maiores actores deste e de qualquer tempo”, acrescentou.

A versão Tony Soprano de James Gandolfini venceu três Emmy para melhor actor, tendo sido seis vezes nomeado para a mesma categoria destes prémios da televisão norte-americana. Nunca foi o mais versátil ou refinado dos intérpretes – podia fazer de mau que é sempre mau, de mau que às vezes é bom, de mau com crises existenciais e, vá lá, de bandido ou polícia ou militar com um destes perfis. Estudou representação apenas durante dois anos e eram conhecidos os seus métodos para encarnar as diferentes variações de humor das personagens que lhe calhavam em sorte, especialmente de Tony: gritar, beber cafés uns atrás dos outros, bater em si próprio e tudo o que fosse preciso para alcançar a reacção desejada, como contou numa entrevista ao programa “Inside the Actors Studio”. Como ficar irritado com qualquer coisa que lhe dissessem? “Experimente beber seis cafés. Ou andar de um lado para o outro com uma pedra no sapato. É estúpido, mas resulta.”

Regresso ao passado

Gandolfini acabou por morrer no país que viu nascer os seus pais. Estava em Itália para participar no festival de cinema de Taormina, na mesma Itália da língua que nunca se deixou de falar em casa.

“There’s an old Italian saying: you fuck up once, you lose two teeth.” A frase também é de Tony Soprano mas cola-se à imagem de duro que o actor, pai de dois filhos, cultivou. “Os Sopranos” é uma série cheia de ataques de fúria, de discussões terríveis entre Tony e a mulher Carmela (Edi Falco), entre Tony e a psiquiatra Dr. Jennifer Melfi (Lorraine Bracco) e entre Tony e o resto do mundo, sempre que o resto mundo decidia contrariar os ensejos deste Padrinho emocionalmente instável.

Ao longo dos anos, James Gandolfini participou em filmes de boa memória, como “The Man Who Wasn’t There” (2001), dos irmãos Cohen, e mais recentemente “Zero Dark Thirty” (2012), de Kathryn Bigelow, em que veste o fato de director da C.I.A. durante a caça ao homem movida a Osama Bin Laden.

Por estes dias, o actor preparava-se novamente para regressar às origens – à HBO e ao pequeno ecrã, com uma série que estava e está ainda envolta em algum segredo, intitulada “Criminal Justice”.

Partiu o homem mas permanecerá por muito tempo a figura volumosa de Tony Soprano num sofá, olhos e ombros caídos, a filosofar sobre a vida como se a vida, mesmo a de um chefe mafioso, coubesse tanto numa conversa de café como na ponta de uma bala. “All due respect, you got no fucking idea what it’s like to be Number One. Every decision you make affects every facet of every other fucking thing. It’s too much to deal with almost. And in the end you’re completely alone with it all.” O ecrã ficou negro. James Gandolfini morreu.

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