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“Visto por fora, o cinema português nunca esteve tão bem”

alice marco martinsMas é forte o descontentamento do sector em Portugal. O centro de investigação LabCom da Universidade da Beira Interior, em Portugal, lançou esta semana “Geração Invisível: os novos cineastas portugueses”. São reflexões sobre os novos realizadores do país e as suas obras, procurando alguns fios condutores comuns. Tito Cardoso e Cunha e Ana Catarina Pereira são os organizadores.

Maria Caetano

– “Geração Invisível” é o título desta compilação crítica sobre o cinema recente português, que se defronta com um crescente reconhecimento nos circuitos internacionais dos festivais, no meio académico, inclusivamente, como atesta esta publicação. Há ou pode haver, mesmo por parte desta geração de cineastas, um qualquer complexo de invisibilidade? Uma frustração por não conseguir chegar ao grande público nacional português ainda que chegue mais longe junto de outros públicos?

Ana Catarina Pereira – Poderá haver, sim. Quando pensámos, eu e o professor Tito Cardoso e Cunha, neste título queríamos que ele reflectisse as dualidades do cinema português: visto por fora, ele nunca este tão bem. Mas, visto por dentro, revela algum descontentamento e inquietação. Essa invisibilidade, infelizmente, é extensível a grande parte dos cineastas portugueses contemporâneos e, nesse sentido, penso que seria importante que as pessoas fossem mais sensibilizadas e educadas para verem o cinema realizado no seu próprio país. Ao contrário do que acontece, por exemplo, com a literatura portuguesa, que é começada a ensinar desde muito cedo nas escolas de ensino básico e secundário (o que faz com que os alunos conheçam obrigatoriamente Sophia de Mello Breyner, Luís de Sttau Monteiro ou, mais tarde, Vergílio Ferreira, Saramago e Eça de Queiroz), existe uma falha em termos de currículos escolares relativamente ao cinema. Gostaria de pensar que o Plano Nacional de Cinema, que está neste momento a decorrer em várias escolas do país, irá colmatar esta falha. Espero que existam meios para o concretizar. Por outro lado, registam-se poucas incursões do cinema português pelo cinema comercial – a tradição é mais a de um cinema de autor, como, de resto, acontece na maioria dos países europeus. Como tal, as distribuidoras apostam pouco na sua exibição, o que tem dificultado a chegada dos cineastas portugueses ao público português. Apesar de existir uma maior curiosidade e interesse, que se deve muito aos prémios que os realizadores têm obtido internacionalmente, essa curiosidade raramente pode ser satisfeita, uma vez que a maioria dos cidadãos também não tem como ver estes filmes (que não estreiam fora de Lisboa e que raramente passam a DVD).

– O livro retrata um cinema mais híbrido, a explorar novos géneros, dificilmente classificados em correntes estéticas claras, e inclusivamente a cruzar as linguagens de outros media das artes ao colocarem-se no contexto da galeria – como sucede com Gabriel Abrantes, um dos autores compilados. Há em “Geração Invisível” alguma ambição de categorizar ou encontrar um sentido comum para estes novos cinemas?

A.C.P. – Essa era precisamente uma das nossas preocupações iniciais: queríamos conhecer mais aprofundadamente uma geração inquieta, que filma num contexto histórico, económico e social muito particular, e tentar perceber se os seus filmes reflectiam esse mesmo contexto. Nalguns casos, sim. Existem filmes muito políticos que mostram o descontentamento de uma geração, como é o caso do western do Rodrigo Areias, “Estrada de palha”. Com este filme, o realizador conseguiu adaptar um género tradicionalmente americano ao modo de ser português, e à falta de expectativas dos que não sucumbem a um sistema incentivador do oportunismo e da falta de ética. Para a maioria dos portugueses, esta será uma novidade. O cinema português não é apenas um conjunto de filmes com planos muito lentos, diálogos teatrais e rebuscados e personagens pouco credíveis. Entre estes novos cineastas existem também filmes de terror (a primeira curta-metragem deste género no cinema português, “I’ll see you in my dreams”, é analisada no nosso livro), ficção científica, cinema de animação e muito cinema experimental. O caso do Gabriel Abrantes, e também o do Sandro Aguilar são exemplos disso. Por outro lado, esses filmes híbridos, que se situam na fronteira entre a ficção e o documentário, são também uma marca importante do cinema português, que alguns destes cineastas cultivam e preservam. Esse é o território onde já tantas vezes se situaram cineastas como António Reis e Margarida Cordeiro, Pedro Costa, Miguel Gomes, Inês de Medeiros ou João Canijo. O Sérgio Tréfaut e o Miguel Gonçalves Mendes são dois realizadores analisados, mais ligados ao documentário, mas que também gostam de filmar nesse género híbrido e narrativamente muito denso. Existem, portanto, pontos em comum entre estes novos cineastas, e eu diria que o maior deles é a vontade de querer chegar ao público, juntamente com uma indistinção que cresce entre cinema comercial e cinema de autor, uma maior preocupação com a fotografia (como no caso de Marco Martins, Sandro Aguilar ou Tiago Guedes e Frederico Serra) e essa incursão por géneros que não eram tradicionalmente associados ao cinema português. Por outro lado, essa incursão é hoje bem vista, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com António de Macedo nos anos 1960, ao tentar realizar filmes que se demarcavam do Novo Cinema Português, tanto pela forma como pelo conteúdo, e ao ser vítima de uma certa “ditadura do gosto” que dominava as elites culturais. Hoje em dia, penso que há uma liberdade maior em termos estéticos, e que estes realizadores já não estão tão preocupados com as limitações de “fazer cinema português” e “fazer cinema de autor”.

– Refere-se que há ainda autores que procuram inscrever-se numa espécie de genealogia do cinema português, que formalmente não está cabalmente traçada, declarando as próprias referências no cinema português, que não serão claras. “Geração Invisível” também inicia a reflexão já no final do século XX. O que fica para trás é uma realidade autónoma? Este novo cinema é mais uma ruptura com o passado do que uma continuidade?

A.C.P. – Também a resposta a essa pergunta revela as constantes dualidades do cinema português. Enquanto realizadores como Miguel Gomes, João Salaviza ou João Nicolau privilegiam essa genealogia do cinema português, que constantemente homenageiam nos seus filmes e nas suas intervenções públicas, outros cineastas (e, na minha opinião, são a maioria) rompem com o passado e criam objectos culturais distintos, num contexto artístico mais universal. Para os novos cineastas, não é apenas o país que importa: importa chegar às pessoas, em diversas partes do mundo. Quando vemos filmes como “Conto do Vento”, de Cláudio Jordão e Nelson Martins, “Terra sonâmbula”, de Teresa Prata, ou “O Fantasma”, de João Pedro Rodrigues percebemos isso. Hoje, o propósito de tentar contar histórias, envolver o público e, ao mesmo tempo, manter um lado autoral, é muito mais vincado.

– Em que medida a questão dos chamados subsídios e de uma eventual dependência institucional, muitas vezes criticada nas artes portuguesas, tem afectado a produção de cinema português?

 A.C.P. – O cinema é das artes mais dispendiosas, muito difícil de realizar sem apoios estatais. É claro que, em situações de crise económica, a situação de realizadores, produtores, técnicos, actores e toda uma categoria de profissionais que vive desta arte fica comprometida. Infelizmente, essa parece ser uma incidência constante ao longo da história do cinema português. Por outro lado, a falta de recursos com que os cineastas têm lidado também manifesta uma inquietação e compulsão artística gigantes, que não lhes permite desistir. Os seus filmes são, em última instância, a manifestação de uma imensa vontade, que devia ser mais acarinhada e respeitada – pelo  público e pelas instituições culturais. De certa forma, foi isso que tentámos fazer ao organizar este livro: trazer alguma visibilidade a estes cineastas invisíveis.

 – Há as co-produções, algumas colaborações internacionais e até modelos emergentes em que o realizador procura junto do seu público o apoio para produzir – caso recente de Miguel Gonçalves Mendes numa iniciativa de crowdfunding. Estes novos realizadores são mais globais? São menos dependentes do que Portugal lhes tenha para oferecer neste momento?

A.C.P. – A tentativa de crowdfundig acaba por ser recorrente no cinema português, na medida em que, de diversas formas, todos os realizadores lidam com as dificuldades financeiras que já mencionámos. Essa procura de alternativas de investimento é mais operacionalizada por produtores: o caso do Miguel é exemplificativo porque ele é simultaneamente realizador e produtor, mas há também os casos de alguns cineastas de animação, ou do Rodrigo Areias e do Sandro Aguilar que frequentemente desempenham as duas funções. Aí, há todo um trabalho de contacto com as populações e de tentativa de as sensibilizar para um filme onde, mais tarde, elas se poderão rever. No filme “Estrada de palha”, o Rodrigo Areias não tinha dinheiro para filmar uma longa-metragem (conseguiu um subsídio apenas para uma curta), mas vestiu a pele de um cowboy/realizador solitário e perdeu-se nas montanhas e planícies da Beira Interior. Quando estreou, fez questão de vir mostrar o seu trabalho à população que o aplaudiu e elogiou, pela presença de actores de grupos de teatro locais, mas também pela presença de figurantes das aldeias da região, que nada ganharam, em termos monetários, com a sua participação, mas que acarinharam o projecto desde o seu início.

– Além de organizadora, é também investigadora com uma reflexão sobre a carga do movimento feminista e das questões de género no cinema português contemporâneo dentro desta compilação. O ‘cinema de género’ é hoje também praticamente um género na categorização da cinematografia. Está efectivamente presente no cinema português? É consciente?

A.C.P. – Penso que sim, sobretudo na obra de realizadores como Gabriel Abrantes e João Pedro Rodrigues. As temáticas queer começam a ser mais abordadas no cinema português, sendo que, particularmente no caso deste último cineasta, essa visão lhe trouxe uma projecção internacional muito grande e totalmente merecida. No que diz respeito a temáticas feministas, considero que elas são também comuns nos filmes portugueses, sobretudo nos realizados por mulheres. Essa consciência, no entanto, só é manifestada em cineastas como Margarida Gil ou Raquel Freire, sendo ignorada ou escondida por pela maioria das mulheres que fazem ficção em Portugal. No caso da Catarina Ruivo (a realizadora que analiso no livro) essa postura não é assumida, apesar de eu considerar que um filme centrado nas dificuldades de uma mulher para assumir um cargo político, em Portugal, é naturalmente um filme feminista, já que essas dificuldades advêm precisamente da sua condição feminina. Penso que o conceito “feminista”, que comporta diversas correntes (das mais moderadas às mais radicais), é ainda mal visto na sociedade portuguesa, e associado ao antónimo de machismo, o que é uma visão errada. Os movimentos feministas nasceram para combater a invisibilidade e a violação de direitos de mais de metade da população mundial: a feminina, e não para superiorizar uma parte em detrimento de outra (que é o que o machismo ou o sexismo pressupõem). Por outro lado, algumas mulheres artistas têm dificuldade em aceitar leituras das suas obras de um ponto de vista feminista, por temerem que este seja o único adjectivo ou característica dominante que lhes é apontada, sem consideração por outros aspectos igualmente relevantes.

 – O curso de Cinema da Universidade Beira Interior, no seu décimo aniversário, teve que influência na formação destes novos autores? E no interesse académico em torno do cinema?

A.C.P. – Alguns dos realizadores analisados no nosso livro estão ainda em formação, ao nível de mestrado, na Universidade da Beira Interior: é o caso de Ricardo Madeira e Helder Faria. São cineastas muito jovens, mas que realizam filmes com uma maturidade inesperada – tanto em termos de guião, como em termos formais, relacionados com a qualidade da imagem e do som. Diversos filmes realizados aqui na universidade têm feito um percurso interessante em festivais nacionais e internacionais: o filme “O sol nasce sempre do mesmo lado”, de Nuno Matos, está agora em competição no New York Portuguese Short Film Festival, enquanto outros alunos já participaram e foram distinguidos no Festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra. Para além disso, muitos antigos alunos estão também a trabalhar em novos media e a fazer uso de novas formas de imagem em movimento. Isso deixa-nos particularmente satisfeitos, sendo que, também por essa razão, considerámos que seria importante incluir uma reflexão sobre o ensino do cinema nas escolas e universidades nacionais e sobre as possíveis abordagens pedagógicas de uma arte como o cinema. Por essa razão, o artigo do professor Tito Cardoso e Cunha é uma mais-valia imensa para o nosso livro, já que reflecte acerca da desafiadora tarefa de educar e formar jovens com inquietações artísticas tão marcantes como as dos alunos de cinema.

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