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Do papel para o cinema

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Literary Word está de volta, desta vez com uma sessão dedicada à escrita de argumentos para cinema. O painel vai ser composto pelo realizador e argumentista de Hong Kong Doug Chan e por Ricardo Pinho professor de  guionismo na Escola Superior Artística do Porto, em Portugal. Entre outros temas, Pinho fala hoje sobre técnicas de construção de personagens. A sessão é dirigida pela jornalista Luciana Leitão, entre as 18h30 e as 20h, na Creative Macau.

Inês Santinhos Gonçalves

– Quais são as principais características a ter em conta quando se escreve um argumento?

Ricardo Pinho – Na literatura a audiência tem um contacto directo com as palavras do escritor. E o escritor exprime a história e o seu mundo directamente no texto. Já o cinema, não. O cinema não tem sequer narrador. Em vez de vermos blocos de texto que correspondem à narração literária, no argumento vemos a acção sob a perspectiva do protagonista. No teatro, por exemplo, o veículo de expressão privilegiada é o diálogo, em que se diz ‘sinto-me assim, sinto-me assado’. No cinema continua essa relação, são as decisões que as personagens tomam que melhor exprimem o seu interior psicológico.

– É preciso uma preparação diferente para quem escreve argumentos e outro tipo de produção literária?

R.P. – Completamente diferente. O argumentista não é apenas um escritor, é também um cineasta e tem de ter a noção do que é rodar um filme, ter a noção da implicação temporal e espacial da acção e dos diálogos numa cena. Por isso um argumentista tem de ter formação de base em cinema e não apenas em escrita.

– Quais são os elementos essenciais a ter em conta para a criação de uma personagem?

R.P. – Essa é a parte mais exigente. Tradicionalmente, na literatura, uma personagem pode ser arquetipal, pode ser absolutamente fantasiosa. Enquanto no cinema, por muito fantasista que seja, pode ser ficção científica, pode ser um filme num mundo imaginário, mas o ponto de contacto entre as personagens e a audiência é a verosimilhança psicológica. Uma personagem tem de ter um realismo psicológico como qualquer um de nós, tem de ser uma pessoa, tem de ter individualidade, personalidade, todo um conjunto de características humanas independentemente do mundo imagético.

– Isso é menos necessário num livro?

R.P. – Tradicionalmente, o leitor permite ao escritor uma maior latitude de personagens possíveis. Tal como no teatro. Onde é que isso se nota mais? Nos diálogos. Os diálogos em literatura – e então em literatura portuguesa – são formalmente correctos. As pessoas na vida real não fazem frases completas, virtuosamente literárias. Nós, na escrita de argumento, temos de escrever aquilo que noutros mundos da escrita seria má escrita. Temos inclusivamente de escrever a gramática imperfeita, de acordo com a classe social, o nível sócio-económico, o nível de pressão psicológica ou o estado mental de uma personagem. Este é um realismo materialmente mais explícito que podemos encontrar no cinema.

– É diferente escrever para cinema e para televisão?

R.P. – É. Mesmo na televisão seriada de alta qualidade há diferenças, que até têm estado a roubar alguns argumentistas do cinema para a televisão. Na televisão de alta qualidade, como é o caso das séries da HBO, o argumentista tem mais tempo com a sua audiência para investir em nuances e alterações das personagens ao longo de uma época maior. Permite ao argumentista planear uma transição e um crescimento psicológico mais subtil e cuidado. Nesse sentido é mais gratificante. No cinema tenho apenas duas horas para mostrar o passado da personagem, o presente e as condições em que se encontra, nesse aspecto é diferente. Mas há outro aspecto em que é mais gratificante para o argumentista de cinema: é que o cinéfilo vai ver o filme às salas de cinema. A televisão concorre com as distracções domésticas e é preciso fazer alterações súbitas de cena para voltar a captar a atenção do espectador que se imagina que esteja a ver o telemóvel, a falar com as pessoas do lado, a levantar-se para ir ao frigorífico. Então, as cenas são mais curtas para evitar que o espectador espreite o canal do lado. No cinema sabemos que o espectador está duas horas no escuro a olhar fixamente para o ecrã e podemos ser mais lentos no desenvolvimento de cada uma das cenas.

– Estudou Psicologia. De que forma é que isso contribui para o trabalho de um argumentista?

R.P. – Inscrevi-me no mestrado em Psicologia quando considerei seguir a minha formação em cinema. Aquilo que faz com que o filme tenha ou não aquela grandeza ou especificidade que faz com que o espectador considere um filme notável, é o realismo das personagens. Quando está a ver um filme, seja ficção científica, seja um drama absolutamente realista sobre o quotidiano, se há uma personagem que toma uma decisão, diz algo ou se exprime de uma maneira que consideramos que não faz sentido, desqualificamos logo o filme. Estudar clínica e cientificamente Psicologia traz um conjunto de técnicas validadas para construir filmes.

– Para si, quais as personagens mais bem construídas da televisão e do cinema?

R.P. – Por causa das notícias recentes lembrei-me do James Gandolfini que encarnou uma das melhores personagens da televisão, o Tony Soprano. Essa é, sem dúvida, uma série que mereceu o sucesso que teve. No cinema destaco o filme “As Horas”, baseado no livro de Michael Cunningham, um filme em que todas as personagens são notáveis.

Escrita para jornalismo na calha

Com quarto sessões já realizadas, a organizadora da Literary Word, Luciana Leitão, considera que o evento “tem estado a correr muito bem”, apesar de ter “demorado um pouco a pegar”. O conceito suscitou algumas interrogações, mas agora “já há muitas pessoas que percebem que as sessões literárias não são só para pessoas ligadas às letras”. E assim sendo, as conversas ao fim da tarde na Creative Macau são para continuar.

Os temas e as datas não estão ainda todos decididos, mas a organizadora adianta que a próxima sessão que está a ser pensada deve focar-se escrita jornalística para televisão, imprensa e rádio. Não há ainda data para o fim do projecto. “A ideia é prolongar até termos pessoas interessadas em falar e em ouvir. Há muitos temas ainda, muitas coisas para falar”, explica.

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