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“Toda a gente é marginal em algum sítio”

PARAGRAFO 130_Page_1Basil da Cunha nasceu em Lausanne, na Suíça, e há três anos consecutivos que vê os seus filmes seleccionados para o Festival de Cannes. “Até Ver a Luz”, a primeira longa, está prestes a estrear em Portugal. É um filme que olha para as margens da sociedade e lhes dá “uma certa dignidade”. Sem condescendências.

Hélder Beja

Um país que é um cenário. Olhemos assim para Portugal. As câmaras estão ligadas e, dentro de campo, há todo o habitual aparato mediático e político. Há Cavaco Silva, Passos Coelho, Portas e muitas possibilidades de tudo isto ser ficção científica. Há a sociedade, o espectáculo e muitos argumentos de comédia e drama à espera de serem rodados. Há, depois, muito mas muito fora de campo, aquilo que está no cinema de Basil da Cunha.

“Até Ver a Luz”, a primeira longa do homem que antes assinou curtas-metragens como “Nuvem” e “Os Vivos Também Choram” (todas seleccionadas para Cannes), está prestes a estrear nos cinemas portugueses, em Agosto, e é uma viagem ao bairro da Reboleira, na Amadora, com contornos pouco habituais. “Sinto-me à vontade a trabalhar com os amigos, com a família, sempre com equipas muito pequenas, porque a equipa de profissionais do cinema é composta por um homem no som, outro na câmara e eu”, conta Basil da Cunha ao telefone desde Lisboa.

O orçamento é reduzido, venha a contenção à imagem do país que já não tem cinto para apertar. Mergulhamos na Reboleira com uma câmara nocturna que segue Sombra, um tipo taciturno que saiu da prisão e que tenta recomeçar; e Olos, um chefe de gangue cheio de inseguranças e necessidade de se afirmar. Estamos em território crioulo, crioulo cabo-verdiano, e a violência é a outra língua oficial.

Basil da Cunha trabalha com os moradores  do bairro onde decidiu viver, quando há seis anos trocou Lausanne por Portugal É isso que faz do cinema deste luso-suíço aquilo que é: um equilibrismo entre a actuação e a não actução, o tom documental e a mais pura das ficções. Não há actores profissionais, não há ensaios e a rodagem é um processo de criação. “Os moradores organizam-se de uma forma completamente diferente para a rodagem, porque há um que vem num dia, outro que não vem. Consoante a disponibilidade das pessoas, toda a gente faz um bocadinho de tudo”, conta.

 

Aprender a fazer

Basil gosta de usar a expressão “os meus rapazes” para se referir a este grupo com que trabalha e que em Maio levou a Cannes para a estreia do filme. Como é que um fruto da emigração portuguesa na Suíça, que tem o francês como primeira língua, consegue entrar assim na Reboleira? “Vou para lá viver, não vou para fazer filmes, e começo a fazer amigos. Entretanto estava com um projecto de uma curta que não recebeu apoio. Estávamos a fazer clips de hip-hop e a passar todo o nosso tempo juntos. Um dia, já não sei como, alguém imaginou fazer um filme. Lancei a ideia do ‘Peixe Lua’. Éramos três ou quatro e arrancámos para esse filme.”

“Peixe Lua” foi a primeira curta-metragem do autor que estudou Cinema na Universidade de Arte e Design de Genebra. Basil conta que “o bairro achou tudo um bocadinho esquisito, mas também engraçado, porque não estava à espera”. No começo, ninguém os levava a sério. “Era eu a filmar, um gajo no som, alguém aparecia e podia entrar no filme… Só que depois viram o resultado, gostaram, vieram outros, veio o Festival de Cannes e isso ajudou a ganhar reconhecimento no mundo do cinema, mas também no próprio bairro.”

Os filmes de Basil da Cunha começaram a ser os filmes do bairro e isso foi “um orgulho para as pessoas”. “Até Ver a Luz”, um film noir na Reboleira, foi feito apenas com “amigos ou conhecidos”. Já há, no entanto, um trabalho essencial que vem de trás. Os actores das primeiras curtas acompanham o processo desde o início. “Aprenderam comigo, eu aprendi com eles e o que é muito bom é que agora os rapazes tornaram-se cúmplices no interior das cenas. Tenho pequenos encenadores dentro das cenas. Na longa entra muita gente do bairro que nunca tinha feito isto, e só foi possível porque tenho gajos a encenar dentro da própria rodagem”, prossegue o realizador.

 

Dar e receber

Basil da Cunha cresceu num caldo de nacionalidades. “Nas escolas havia turmas de 25 alunos e não havia nem um puro suíço, mas sempre senegaleses, argelinos, espanhóis. Se cresces nesse ambiente, nada te parece esquisito.” Adaptar-se aos arredores de Lisboa, num bairro onde “afinal havia poucos portugueses”, não foi difícil. “É pessoal da minha idade, ouve a mesma música do que eu, bebem como eu. Foi natural”, diz.

Para retribuir aquilo que recebe da comunidade em que se insere, Basil filma. E filma por amor. “Só filmo pessoas que amo. E as pessoas por quem nutro mais amor são sempre marginais.” Mas não nos deixemos enganar, porque  “toda a gente é marginal em algum sítio”.

Esta vontade de filmar quem está fora de campo, desse campo onde vive um país do avesso, não tem sequer que ver com o facto de o realizador se sentir “um português na suíça e um suíço em Portugal”. A questão é outra: “Gosto de liberdade e não gosto de pertencer a nada, acabo por estar sempre fora de tudo. Não pertenço a nenhum meio ou capela – e isso é uma riqueza, porque consegues lidar com tudo mas não pertences a nada”.

As mulheres e homens que vivem na margem, as sombras, são tudo para Basil da Cunha. “São as pessoas nas quais acredito mais, às quais quero dar mais dignidade.” “Até Ver a Luz” vai por aí e mostra uma comunidade de origens africanas como raramente a vimos. “Não vejo estas pessoas no cinema e quando vejo – sejam romenos, cabo-verdianos, pessoas que vivem nas margens e pelas quais tenho muito carinho – o cinema vai tratá-las de forma condescendente, que acho às vezes ainda pior.” Pior que o lugar comum e o preconceito é, para o cineasta, a condescendência.

Basil não condescende e nesta longa-metragem há maus que são maus e falam mal e agem ainda pior. Mas há também o reverso. E há humanidade. “A minha esperança é poder sublimar um bocadinho o que todos eles são, restituir-lhes uma certa dignidade, fazer deles heróis.”

O realizador distinguido em Cannes com “Os Vivos Também Choram” é ainda alguém a descobrir Portugal, mas sem pressas. “É como quando viajas. Se começas a tentar ver tudo, não vês nada. Tento ir aos bocadinhos e conhecer bem alguma coisa. Tento ficar e ambientar-me num sítio só. De Lisboa não posso dizer que conheça muito. Conheço cada milímetro do meu bairro, mas não passeio muito por Lisboa. Sinto aquela cidade mas o que sinto mesmo é o meu bairro. Uma cidade grande é sempre assim: várias pequenas aldeias juntas e é difícil conhecer tudo”, nota.

Foi ali, na Reboleira, que Basil encontrou espaço para fazer crescer o seu cinema. Quando escreve mais um filme, o autor já está a pensar em pessoas, não em personagens. No caso de “Até Ver a Luz”, o género do filme negro foi um ponto de partida. “Depois, a rodagem é imaginada como um espaço de liberdade onde cada um vai poder criar e trazer um bocadinho de si próprio, vai reinterpretar a seu própria personagem na vida.” É por isso, acredita o realizador, que eles “são tão reais”. Nem todos os habitantes do bairro transformados em actores têm as mesmas capacidades. “Trabalho com cada actor de uma maneira diferente. O que eles têm em comum é que nenhum ensaia. Há uns que têm mais consciência daquilo que eu pretendo, outros menos.”

É essa aprendizagem, essa “lógica de continuidade” de que fala Basil da Cunha, que se consegue “respeitando mais ou menos o que vem de trás”. “Se conseguimos assentar uma coisa, temos de ter mais ambição noutra. A cada filme conseguimos, tanto a nível de escrita, como de trabalho com os actores, de imagem, de som, ir cada vez mais longe. No próximo vamos tentar fazer uma coisa ainda melhor”, acredita.

 

Road movie a caminho

Nas estradas do cinema português, Basil da Cunha não se vê como pertencente a nenhuma capela, a nenhuma geração. Quando olha em volta, não lhe parece que esteja “a fazer o mesmo tipo de trabalho” que outros, o que não significa que não se alimente dessas influências. “Acho que não dá para comparar o João Nicolau e o Miguel Gomes, por exemplos. Acho que os filmes deles são totalmente diferentes. Mas um deles, o Miguel, inspira-me muito. Ele tem uma liberdade enorme. Quando ele faz ‘Aquele Querido Mês de Agosto’, com o sucesso que teve, e consegue fazer o ‘Tabu’ depois, mostra que não ficou prisioneiro de um modelo. O Miguel tem uma força enorme, porque funciona só com desejo e liberdade.”

Liberdade é coisa que o realizador quer continuar a preservar nos próximos filmes, mas também um orçamento que lhe permita trabalhar em condições. Por isso, o próximo título – que já está todo pensado – só deve começar a rodagem no verão de 2014, para que consiga financiamento. Pelo meio deve haver um documentário filmado novamente na Reboleira.

A próxima longa será então um ‘road movie’ num Portugal em crise, “em que nem o ladrão sabe o que pode roubar”. O projecto mete fugas para o Norte do país com “três cromos” do bairro e um tipo misterioso que formam um gangue para fazer um assalto; condutores de camiões de circo, animais e um homem a sofrer da síndrome de Estocolmo; e bandidos pouco capazes mas muito sonhadores.

“Se um gajo começa a sonhar, tem de baixar as armas para poder acreditar. Isso implica que um gajo é mais vulnerável”, diz Basil da Cunha. E a frase é todo um tratado sobre este cinema a beber da realidade.

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